Os Anjos não deviam querer mudar o Céu, mas tão-somente as suas próprias consciências. Este é o mote do que vos trago, porém a concomitância daqueles vocábulos não remete para um tratado litúrgico. Na verdade, aquilo de que vos falo é de uma situação bem terrena, uma birra deste cenário mundano, em que não é despicienda a natureza humana, mas que é efetivamente de bradar aos céus. Por um lado, é uma labuta que obedece a debilidades humanas; por outro, assume uma desproporcionalidade insólita que provoca estupefação. Falo, como podem imaginar, do processo judicial colocado pelos músicos Anjos à humorista Joana Marques, por esta ter gozado com uma atuação sua do hino nacional através de um vídeo publicado no Instagram. A ausência de aspiração teológica deste texto não faz desconsiderar, no entanto, que o nome artístico da dupla se presta a linhas analíticas afetas, às quais ora me vejo rendido.
Séneca (4 a.C.-65), filósofo estoico da Roma Antiga, numa carta a Lucílio, governador da Sicília, afirmou: “Deves mudar o teu ânimo, não o céu”; neste sentido, “o ânimo não se tornará escravo de nenhum lugar”. Este postulado teria já bebido da formulação do poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.) segundo a qual “os que atravessam o mar mudam de céu, não de alma”, uma ideia remontada ao pensamento do grego Bias de Priene (séc. VI a.C.). Dito de outra forma: se estamos à espera de que, ao viajar à procura do canto perfeito, o ambiente preencha os requisitos do que idealizámos para conseguirmos a nossa própria tranquilidade, estamos tramados; o bem-estar pessoal atinge-se pela adequação da atitude interna a nós mesmos.
Aquele par musical, que pretende uma elevada indemnização de Joana Marques, está, pois, a tentar alcançar um espaço inexistente no universo, um oásis das puritanas e preguiçosas utopias que, não se apresentando à partida caído do céu, creem poder ser erigido com algum esforço. Tenhamos noção: a única forma plausível de evitarmos, ou minimizarmos, as sequelas dos estrondos da realidade à nossa volta é garantir um cultivo interior capaz de propiciar a serenidade como estado de espírito perene. O mundo tem tudo para conspurcar o nosso ideal de vida; e os efeitos desfavoráveis a nós do que ocorre no mundo tanto mais prevalecerão e se amplificarão quanto mais atenção, preocupação e combate lhes dirigirmos e às suas origens. É uma luta não só vã como contraproducente. Assim, todos os esforços mentais e logísticos levados a cabo pelos Anjos, em prol do que consideram a reposição da justiça, fomentam consequências negativas para si mesmos e exponenciam o impacto delas. Quiçá para alguns contraditores da liberdade de expressão, ou das margens do humor, esta é apenas a primeira batalha de uma revolução cultural. E, para esses, o duo musical está a sacrificar-se por um bem comum. Destes pretensos salvadores, ou fanáticos da suposta higiene social, está o Inferno cheio.
Apesar do nome angelical, os irmãos Rosado estão impregnados de consumições desnecessárias, perdidos numa futilidade que regaram desregradamente, numa coisa que passaria na espuma dos dias e de que poucos resquícios haveria hoje se não fossem as suas cismas exacerbantes. Trata-se de uma empreitada com contornos peculiares. Missionária mas com desígnios irrisórios, doutrinária mas com sustentação do arco da velha, beatífica mas com desmesura profana.
Parece que os cantores Anjos se arrogam a condição de criações vicentinas. Como se sabe, na peça teatral Auto da Barca do Inferno (escrita e encenada pela primeira vez em 1517), o dramaturgo Gil Vicente (1465-1536) concebe o Anjo como o arrais do Céu e o Diabo como a autoridade do Inferno. Aos dois, então barqueiros no cais, cabia fazer a avaliação moral do percurso de vida das personagens e, neste âmbito, decidir sobre a transição das almas para um lado ou para o outro. Quem seguiu os preceitos do bem era acolhido pelo Anjo na sua barca, em direção ao Paraíso. Por sua vez, os que foram pecadores estavam destinados ao Inferno. Os Anjos da música portuguesa tentaram incumbir-se de papel idêntico com Joana Marques, declarando-a herege e blasfema. E pretendem, portanto, que a justiça terrena, sob a forma de tribunais, reconheça o protojulgamento duvidoso efetuado pelos visados da troça. Perante isto, lamenta-se que os Anjos não sejam mesmo nenhuma das duas entidades alegóricas de Gil Vicente. No máximo, estão a fazer figuras condizentes com especificamente uma das personagens-tipo da sociedade da época: passaram pelo crivo da salvação ou da condenação, entre outras, o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, a Alcoviteira, os Quatro Cavaleiros e o Parvo. Seria de esperar que este último, por lógica semântica, fosse associado à comediante. Além disso, o Parvo do Auto chama-se Joane, pelo que é homónimo da ré Marques, o que contribuiria para este paralelismo. Acontece que a profissional do humor foi desclassificada de tal estatuto, pois este foi prontamente tomado pela dupla protagonista do drama.
Nem de propósito. Intervenientes que, embora sejam Anjos, destacam a sua parvoíce fazem, inevitavelmente, lembrar a dualidade do Anjo-Bobo da peça Jacob e o Anjo (escrita em 1930, publicada em 1937-39 e 1940 e estreada em 1952), do autor José Régio (1901-1969). Filipa Silva, na dissertação “A Representação do Anjo no Teatro de José Régio” (2015), esclarece: “O Anjo da obra dramática é transformado numa figura truanesca [Bobo] para, através da loucura e do sofrimento, colocar em cena os vícios terrenos do Rei e restante corte. Mas, ao mesmo tempo, é o portador da mensagem divina, isto é, da salvação da personagem corrompida, o monarca.” Afinal, equivoquei-me nesta alusão: o Anjo-Bobo de Régio é o sensato da história. Não é o caso dos artistas com designação celestial.
(Caso exceda os ditames de alguém, resguardo-me de incriminações invocando carga literária.)