A forma como uma organização como o Partido Socialista se comporta depois do que lhe aconteceu é, naturalmente, do mais elementar interesse analítico sociológico-político. Situado no terceiro lugar, está num momento delicado. Tem de reganhar forma e ainda está às apalpadelas. É normal. Custa, todavia este é um momento decisivo. Reerguer-se acarreta diferenciar-se dos outros partidos, mas o PS entorna também o caldo se não participar com os outros na empreitada da resolução efetiva dos problemas que são fortemente sentidos no âmbito popular. A maioria parlamentar de “direita” está dada pelo povo, e as convicções deste hemisfério político são as que pairam no ar e têm vigorosa afirmação. São os tempos, que não surgem por acaso. Isso não significa que o PS deve entender a “direita” como uma vaca sagrada, a que deve atender agachado ou cuja ação não deve obstaculizar de modo incondicional. Indica, isso sim, que é aconselhável que ponha a mão na consciência. O povo falou e sente e, se calhar, merece ser considerado.
Numa altura em que as políticas daquilo a que se chama “direita” em Portugal, nas suas diversas expressões, são as únicas que crescem em adesão eleitoral (à exceção do Livre, no lado oposto), dizer que o Governo está a adotar propostas do Chega (e da IL) é publicidade gratuita à AD. Declarações como a de Carlos César em referência ao Programa de Governo, em 15 de junho, são reveladoras. O presidente do PS criticou o Executivo de Luís Montenegro por se chegar “mais à direita”, ao incluir medidas “negativas” “para seduzir a IL e o Chega”. O então interino na secretaria-geral concluiu com a certeza de que, por causa disso, os socialistas seriam “mais oposição do que já” previam. Também José Luís Carneiro, na comissão nacional de 5 de julho, repudiou e garantiu ser opositor do “abraço da direita à extrema-direita”, visível, no seu entender, na mistura de “nacionalidade com imigração e com criminalidade”.
Os dirigentes do PS (ainda) não retiraram, pelo menos, algumas lições do seu desaire eleitoral e da fragilização civilizacional legada pelo próprio partido. Não aprenderam que anunciar a suposta perigosidade das medidas da “direita” não só não faz o PS ganhar o centro, por contraponto ao PSD (porque Montenegro se mexe bem aí), como ajuda alguns daqueles que estão indecisos entre a AD e o Chega (ou a IL) a optar pela coligação (seja no voto em atos eleitorais, seja no apoio ou simpatia durante as legislaturas), uma vez que tais anúncios contribuem para passar a mensagem de que o Governo está a agir em temáticas que os preocupam e para as quais, outrora, apenas o Chega (ou a IL, noutro tipo de matérias) alertava. Por outro lado, destacar que o PSD adere a alguns postulados do Chega é uma maneira de, ainda que de forma involuntária, legitimar o próprio partido de André Ventura — quanto mais o PS reclama dessa adesão, mais vinga o reconhecimento por entre as massas do centrão de que tais ideias não serão assim tão nocivas, dado que observam que um partido moderado como o PSD lhes atribui um certo crédito e alguma razão.
Vislumbra-se um longo caminho no qual a formação socialista, além de não ter margem eleitoral de expansão, pode mesmo continuar a perder simpatizantes e votantes para o Chega e a AD. O PS, para recrescer, tem de falar, não pode só existir. Mas, para falar, convém que tenha interessados em ouvi-lo. É a democracia a funcionar. À direita não vai buscar pessoas, ao centro retém-nas cada vez menos, e à esquerda pouca gente há que se possa tentar captar. Quanto aos abstencionistas, não tem perfil para os cativar. E não pode, claro, sujeitar-se a perder mais da fatia de eleitores que tendem a ser seus. É nestas coisas que dava jeito ao PS ter um ardiloso Rui Tavares, que conquista votos a uns quantos moderados sendo o seu partido uma agremiação radical encapotada, aspirante não declarada a suma neomarxista, sem o peso da história soviética e de um paradigma fracassado a que teriam repulsa vários dos que, sem saber, selecionam uma amostra dele quando votam em si — uma amostra que, descartando a cristalização de manifestos sacros da doutrina utópica, se apresenta como um espaço envernizado, fresco e civilizado. Nas palavras de Sérgio Sousa Pinto, no Expresso (maio de 2025): “Não dispondo, inteligentemente, de ideologia, o Livre tem um evangelho e funciona como um pedestal para Rui Tavares, que é um produtor de frases.” Enfim, José Luís Carneiro, de oratória enfadonha, não é claramente este líder. Não lhe bastava ser um dos autores materiais do descalabro do sistema imigratório, por via da sua tutela da administração interna num período da era costista.
Ao mesmo tempo, se o PS é um dos ou o partido de que o Chega recolhe mais eleitores, é contraproducente para si demarcar-se com pujança das ideias da agora principal força da oposição (já que parte do seu público-base é sensível a elas). É legítimo discordar delas e expressar a sua discordância; contudo, isso não nos impede de verificar que tal contribui para a secagem parcial do próprio PS. Seria prudente para o partido de centro-esquerda alinhar, como está a fazer a AD, no reconhecimento dos problemas identificados pelo Chega e num contributo conjunto à sua resposta, caso pretenda evitar, mitigar ou reverter essa transição eleitoral para o partido dito radical (e para o PSD/CDS). Alguém acredita que, quando Pedro Nuno Santos emitiu aquelas asserções musculando a sua posição sobre a imigração e admitindo falhas da governação que integrou, foi porque lhe caiu essa vontade do céu? Apesar das suas insuficiências, percebeu, a contragosto, que nesse tema estava cada vez mais o cerne da preocupação quotidiana e da motivação eleitoral de muitos cidadãos.
Olhemos precisamente para o grande caso concreto: a imigração. Num estudo da Universidade Católica (2024), “a maioria dos participantes mostra-se preocupado com os níveis de emigração (70,1%) e com os níveis de imigração (73,1%)”, sendo que 81,2% desejam a redução da primeira e 71,7% advogam a diminuição da segunda. Conhecidos os resultados eleitorais de 18 maio, cri, sem precisar de sofisticado engenho previsional, que ou a AD resolveria o flagelo nacional da imigração ou o Chega venceria as eleições legislativas seguintes. Ao que parece, a AD iniciou o novo mandato com atitude neste dossier. (Não celebremos em excesso, pois até ao lavar dos cestos ainda é vindima.)
Esta situação para Carneiro e companhia até poderia ser uma boa notícia, numa lógica de encolhimento dos votos do Chega, seu concorrente, ao fazer razia de uma das suas bandeiras mais proeminentes. Porém, mesmo assumindo que o Governo e os seus partidos serão resolutamente eficazes neste tópico, não é garantido que o Chega venha a perder nível eleitoral. Se há coisa que Ventura tem é a capacidade de ser pau para toda a colher. É versátil nos planos discursivo e programático, portanto consegue apelar às gentes dos mais diversos setores sociais e proveniências político-ideológicas do país. Esta premissa sustenta uma conjetura, que ora levanto, segundo a qual o tripartidarismo que o Chega inaugurou, quebrando o bipartidarismo tradicional, pode muito bem encaminhar-se para um novo quadro bipartidário, no qual o PSD e o Chega são as alternativas de governo, e o PS é relegado, desprovido desse estatuto por meio do voto.
Cabe agora ao partido que governou 21 dos últimos 30 anos seguir o seu rumo, sendo que o contexto atual não se afigura a seu bel-prazer. Questiono: o PS deixa de ser socialista se priorizar o bem-estar dos que cá estão e a tranquilidade social? Não me parece. Pelo contrário: se o socialismo, em termos ideológicos, implica uma orientação socializante da população, ele não supõe zelo pela força e harmonia do coletivo? O povo português não tem direito a coesão, estabilidade e ordem? Ora, os portugueses estão cá — muitos estão a ir embora — e veem-se a receber estrangeiros em desmedida, chegados num estalar de dedos, de forma repentina, como se a coexistência com imensas pessoas que lhes são estranhas e não convidaram fosse como abotoar uma camisa. Os doutores socialistas não deveriam ignorar a psicologia social. No entanto, não é de admirar: é muito bonito armarem-se em bonzinhos, achando que dar lições de moral se sobrepõe a desequilíbrios sociais óbvios suscitados pelo seu modelo de imigração, aos quais por conveniência fecham os olhos (ou por ilusão não constatam).
Não se espera que os decisores políticos sejam desrespeitadores de alguém por ser forasteiro, mas que haja conta, peso e medida, monitorização e controlo. São essas as expectativas dos nacionais. Posso calcular que haverá quem interprete este texto como uma atentado à dignidade da pessoa humana que vem de fora e não como uma crítica com foco sistémico às políticas desestabilizadoras do tecido social e das vidas individuais. No que tange a alguns desses intérpretes, desconfio que têm maldade reprimida, pelo que assumem a personagem da sinalização da virtude que teimam em fingir, talvez até a si mesmos, que possuem.