Marcelo Rebelo de Sousa sabe pouco do que faz ou deixa de fazer Luís Montenegro (e o seu Executivo). E o que sabe vem tarde amiúde, ficando talvez nem pela missa a metade. Montenegro comunica com o país de maneira diferente de Costa — isso nota-se. Todavia, Marcelo não aceita que o atual primeiro-ministro também se articule consigo de forma distinta do jeito costista. O líder social-democrata sabe o que a casa gasta (as tradicionais peculiaridades pouco recomendáveis de Marcelo com companheiros da sua família política) e não tem paciência para dar abébias ao “comentador-mor do reino”, como lhe chamou um dia José Miguel Júdice. Os lamentos do chefe de Estado já foram vários. “O primeiro-ministro tem direito de não ligar, mas podia ouvir a minha opinião”, desabafou por não ter sido consultado antes do comunicado do governante ao país, na residência oficial, em março deste ano, a propósito da polémica da empresa da família. Por essa altura, a SIC Notícias chegou mesmo a enumerar episódios-chave do modo como Montenegro informa Marcelo, desconsiderando-o, para sua lamúria: a composição do Governo, a escolha da comissária europeia, a nomeação do PGR e a sucessão de Gouveia e Melo na Armada.
O que resta fazer a Marcelo, a quem está entranhada a necessidade de saber tudo — os assuntos de Estado e o estado dos assuntinhos —, a quem urge sentir-se achado pelo Executivo para trocar umas palavrinhas — não importa se mais performativas do que pertinentes? Entretém-se a olhar pela janela como uma senhora de idade avançada em zona “rural” (a contragosto do próprio) para, com empenho, espiar, escarafunchar, matutar hipóteses e, claro, cochichar. O presidente vislumbra o que se apresenta através da sua caixilharia, tende a magicar o que está por trás e vai dando duas de treta com quem calha, tendo conversas com os outros partidos, com os jornalistas (portugueses ou estrangeiros) e com o país sobre a vida airada do espinhense (e do seu elenco ministerial).
Com Montenegro no Palacete de São Bento, Marcelo leva a sua presidência no encalço de “Rear Window”, filme realizado por Alfred Hitchcock, de 1954. No cerne desta “Janela Indiscreta” — com que Mário Augusto batizou o seu programa sobre cinema —, L.B. “Jeff” Jeffries (James Stewart), um repórter fotográfico confinado devido a uma perna partida, entretém-se a espiar com binóculos os seus vizinhos pela janela do seu apartamento. Rendido à bisbilhotice, o protagonista observa fragmentos das vidas alheias e imagina o desenvolvimento de inúmeros cenários. “O que vai acontecer, por exemplo, com a solteirona que finge ter convidados para o jantar e bebe por dois? (…) Num outro apartamento, um casal em lua-de-mel não sai do quarto, mas passa da paixão diretamente para a recriminação (…). À frente, uma bailarina se deixa cortejar por vários homens — um sinal de encrenca? E, claro, há o caixeiro-viajante que cuida da mulher doente e se exaspera com suas queixas intermináveis” (Isabela Boscov, 21.08.2019).
Sucede que o que não passaria de uma ocupação de voyeurismo banal se configura num posto de vigilância graças ao qual Jeff, que vê uma movimentação suspeita, começa a deslindar um homicídio — com a ajuda da sua namorada e da sua enfermeira. Também Marcelo, embora mais solitário, quando quer, encontra ou congemina o que lhe parece quase criminoso de tão inadmissível; desde logo, o que lhe soa a inconstitucional: foi o caso da lei dos estrangeiros. Depois de fazer um valente relatório de reparos à AD, enviou o diploma para análise ao Tribunal Constitucional. Quanto à extinção da FCT, também incumbido de investigar as pistas, anunciou: se encontrar “um ponto que seja” que lhe suscite dúvidas, bloqueia o decreto. É um veto nada discreto, anunciado (que pode consumar-se ou não). Mais do que sobre alguma matéria específica, é um veto do beto de Cascais ao indivíduo com “comportamentos rurais”, com o qual Marcelo mantém atritos cínicos — à semelhança da relação atribulada que teve, a dados momentos, com todos os anteriores líderes do PSD, mas não do PS.
Assim, nas réstias do seu mandato, a primeira figura do país, acabando por arranjar uma missão, faz como a personagem fílmica: tenta passar de um espetador que se intriga a um ativo da justeza. Sem que se incorra em spoiler, pode-se calcular que a diligência de um seja mais meritória do que a do outro.