Fechado em casa nestes tempos de peste, ocupado entre a preparação de aulas online e a revisão de artigos científicos, deparo-me com a surpresa agradável de uma demasia de tempo livre; uma oportunidade de reler os clássicos, ociosamente e sem sentimento de culpa pelo tempo roubado a deveres profissionais. Percorro vagarosamente as páginas da História da Guerra do Peloponeso, embebido na prosa do velho Tucídides, o pai da história e dos historiadores (uma honra partilhada com Heródoto). É uma prosa clínica, fria como uma lâmina de aço, que descreve com objetividade e sem contaminação por opiniões ou julgamentos pessoais, a paz e a guerra, a sórdida política, a cegueira dos povos, a conflitualidade entre os interesses coletivos e pessoais, as paixões desordenadas das multidões, enfim, a trama complexa da vasta e rica tapeçaria que é a experiência humana, a sua sede pelo poder e desafios morais. As frases são incisivas e concisas, o estilo é sempre contido. Os episódios mais violentos e desapiedados – como o massacre das crianças que acabavam de entrar na escola, pelos Trácios, aliados de Atenas, no saque a Micalesso (livro III) – são descritos com o frio distanciamento de um experimentado jornalista de guerra.

Há hoje quem estabeleça um paralelo entre a ascensão da China — e o desafio que isso representa à hegemonia dos USA — e os papéis desempenhados pelos protagonistas centrais da Guerra do Peloponeso, Atenas e Esparta. O Professor da Universidade de Harvard, Graham Allison, que lançou esta ideia, chama-lhe mesmo como a armadilha de Tucídides.

Depois das guerras médicas, Atenas emergiu com um poder e uma ambição que deixou inquietas os cidades estado continentais da Grécia, a começar por Esparta. Enquanto Esparta representava o poder estabelecido e consagrado pela tradição, alicerçado numa demo composta por cidadãos-soldados livres e com direitos iguais, dedicados exclusivamente ao treino militar e à participação cívica (sustentada em termos produtivos por uma massa de periecos e hilotas desprovidos de direitos cívicos), Atenas era um poder marítimo, comercial e financeiro, o centro de uma extensa rede de prósperas relações comerciais que explorava através da sua poderosa frota mercante e militar, numa lógica imperialista de continua expansão. Atenas era uma cidade-estado virada para o exterior – um expoente da globalização na linguagem dos dias de hoje – enquanto Esparta era um poder continental, de base agrária, ensimesmado nas suas tradições arcaicas. A guerra do Peloponeso de Tucídides descreve o embate entre estas duas mundivisões da Grécia clássica.

Por esta breve descrição vemos que a comparação com a competição geoestratégica entre os USA e a China não cola. O poder estabelecido, no caso atual, é uma democracia com um regime económico capitalista,  do tipo laissez-faire; o poder desafiador é uma autocracia com uma economia também capitalista, mas tutelada por um Estado paternalista, sempre receoso de desafios à sua suprema autoridade.  No primeiro caso, vigora o primado dos direitos individuais dos cidadãos; no segundo, impera o primado do interesse coletivo, interpretado pelos supremos líderes. Como se pode ver, situação muito diversa da de Atenas e de Esparta.

Também os líderes dos EUA e da China são muito diferentes dos líderes das duas potências em confronto na guerra do Peloponeso. Nenhum dos líderes atuais tem a eloquência de Péricles ou do rei Arquidamos de Esparta, e muito menos a sua gravitas. Mais próximo de Trump, talvez Cleon, o demagogo que arrastava as multidões, manipulando as suas paixões. Mais próximo de Xi Jiping, talvez Alcibíades, o talentoso político, calculista cínico e sem escrúpulos que imprudentemente arrastou Atenas para a funesta expedição à Sicília. Comparações, mesmo assim, bastante forçadas.

Há, contudo, uma lição da guerra do Peloponeso importante para os dias de peste em que vivemos. Depois de cerca de um ano de guerra, quando as coisas corriam bem para Atenas, quando o seu poder marítimo e recursos financeiros lhe permitiam encarar com otimismo o desenrolar da guerra, o imprevisto aconteceu: uma súbita e mortífera epidemia tomou conta da cidade. A epidemia grassou inexoravelmente entre a densa população da cidade, inchada por um grande número de refugiados, dizimando cidadãos a torto e a direito, vitimando ricos e pobres, novos e velhos, tementes aos deuses e ímpios. Tucídides descreve em pormenor a evolução dos sintomas ao longo da progressão da doença até à morte do paciente. Baseado nesta descrição, os historiadores inclinam-se para um diagnóstico de tifo embora muitas dúvidas subsistam. A epidemia matou cerca de um quarto da população – inclusivo Péricles e a sua mulher Aspásia — e desmoralizou a sociedade: os cidadãos entregavam-se livremente aos prazeres sem qualquer pudor ou contenção, pondo de parte qualquer esforço para atingir fins honestos, sabendo que a qualquer hora a doença os podia atingir. Foi o ponto de viragem na guerra do Peloponeso. A riqueza de Atenas, a sua esquadra de 300 trirremes, a sua extensa rede de alianças e cidades tributárias, a sua estratégia de guerra inteligentemente gizada por Péricles, tudo fatores que faziam de Atenas favorita para vencer a guerra, revelaram-se impotentes perante o enfraquecimento físico e moral causado pela epidemia. Os melhores planos, a melhor preparação, os recursos mais abundantes, cederam perante uma súbita e poderosa manifestação da natureza.

Hoje, a tecnologia de ponta, os vastos conhecimentos de medicina, de genética e de farmacologia, os sistemas de saúde bem organizados e equipados, levam-nos a, tal como os Atenienses de antanho, à hubris. Como numa tragédia grega, verificamos que, afinal, apesar de todo o nosso progresso científico e tecnológico, estamos também nas mãos dos deuses.