A mania da bitcoin alastra como um surto epidémico. Os meus alunos, amigos e simples conhecidos não querem falar de outra coisa; talvez por eu ser professor de economia e finanças, bombardeiam-me febrilmente com questões: a cotação vai continuar a subir? Devo vender agora? Como devo avaliar uma bitcoin? Para os interessados numa apreciação fria a racional dos fundamentos económicos da bitcoin, remeto-os para o artigo de Jean Tirole no Financial Times.

Hoje, a minha vontade é abordar o tema das manias de investimento numa perspectiva histórica, em particular, como é ele tratado e abordado na ficção literária. Esta vontade, resulta da leitura recente do livro de Emile Zola, L’Argent, obra de referência da literatura francesa da segunda metade do século XIX, que narra a apoteose social do dinheiro e da especulação no segundo império de Napoleão III. Como livros sérios de estudo sobre o fenómeno, com narrativas detalhadas sobre os principais episódios históricos e uma análise económica e psicológica dos seus mecanismos, sugiro a leitura das duas obras de referência: Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds, de Charles Mackay, publicado em 1841 e Manias, Panics and Crashes, de Charles Kindelberger, saído do prelo em 1978 . O primeiro, escrito por um jornalista, mais superficial e sensacionalista, aborda as três bolhas clássicas – o esquema do Mississipi de Jonh Law, a bolha dos Mares do Sul (South Sea Bubble) e a Tulipomania; o segundo, da autoria de um historiador económico consagrado, tem uma cobertura histórica mais vasta – inclui o crash bolsista de 1929 e a grande depressão – é mais rigoroso e sistemático, mas, em contrapartida, mais aborrecido de ler.

O que me interessa neste momento, todavia, é saber como a grande literatura, com sua intensidade dramática, os seus grandes personagens e os seus enredos de cortar a respiração, se ocupou do tema da especulação financeira. A leitura do L’Argent aguçou-me a curiosidade em saber se outros escritores clássicos tinham pegado no tema. Afinal, as manias de investimento e as euforias bolsistas são assuntos que arrastam multidões, que perturbam o equilíbrio social, que espicaçam as grandes paixões humanas, como a ganância, a inveja e o medo, colocando-as, em vívido contraste, com as virtudes da prudência e da temperança; tudo, matéria-prima de primeira para a criação de uma obra literária.

Mas o meu desapontamento foi grande. Na literatura de língua inglesa, a minha pesquisa identificou o irlandês Jonatham Swift (autor das Viagens de Gulliver), e os seus poemas epigramáticos The Bubble e The Ruin of the Bankers, referentes à bolha dos Mares do Sul; na ficção, Antony Trollope e a obra The way we live now, que aborda a especulação e a fraude financeira em empresas ferroviárias da época vitoriana; e entre os clássicos norte-americanos, The Money Changers, de Upton Sinclair, sobre o pânico financeiro de 1907, onde se destacou J.Pierpont Morgan, fundador do banco epónimo; The Financiers, de Theodore Drieser, sobre o pânico bolsista resultante do grande fogo de Chicago de 1871 e The Pit, de Frank Norris, que tem como pano de fundo a especulação em contratos sobre trigo nas bolsas de futuros de Chicago no fim do século XIX. Curiosamente, alguns destes títulos fazem parte da bibliografia obrigatória em algumas das licenciaturas de Gestão e em Economia lecionadas em universidades norte-americanas.

Contam-se, pois, pelos dedos da mão os resultados desta pesquisa. Embora escassas, as obras citadas têm um denominador comum: espelham um sentimento popular difuso sobre estes fenómenos, impregnado de influências socialistas, a noção de que o investimento em ações é um jogo, de que a bolsa é um casino onde o capitalismo se revela no seu estado mórbido, uma máquina trituradora de ilusões de grandeza e de riqueza, um fole de ferreiro que atiça até ao rubro a cobiça, a cupidez e a ganância. Não espanta que tanto Upton Sinclair como Theodore Drieser fossem declarados esquerdistas, entendendo o mercado de capitais como algo destrutivo e negro e as crises bolsistas como um sintoma da fase terminal do sistema capitalista. Zola, embora mantendo um registo geral estigmatizante da atividade bolsista, vislumbra no mercado de capitais pelo menos uma grande virtude: nas refregas entre especuladores, nos confrontos entre bears e bulls, no cruzamento entre ordens de compras e ordens de vendas, a verdade sobre o valor económico dos títulos acaba por vir ao de cima.

No L’Argent, uma obra inspirada num caso real – o crash de bolsa do Banco União Geral ocorrido em 1882 – os bons da história são um rapaz intelectual marxista que vive na miséria e sonha com um mundo utópico de harmonia social, um casal modesto da pequena burguesia que se recusa a participar na euforia coletiva comprando ações e os dois irmão Hamelin, ela um expoente dos valores do trabalho, da honestidade e da prudência, ele um engenheiro desligado da realidade, que habita o mundo das ideias abstratas. Os maus são os administradores do Banco Universal, uma nova instituição de crédito que se quer implantar contra a domínio da banca judia, representada pelo banqueiro Gundermann, numa alusão pouco subtil a Rothschild (já o Barão de Nucingen, personagem emblemática de Balzac, fora inspirado nessa família de banqueiros). O mais ruim de todos é Saccard, o fundador e principal promotor do Banco Universal. Este personagem, que podia bem ser Oliveira e Costa do BPN, é um provinciano deslumbrado com a riqueza e opulência de Paris, um megalómano que quer triunfar socialmente a todo o custo e para quem tudo e todos têm um preço. No zénite da sua carreira, quando as ações do banco atingem um valor estratosférico, paga 200000 fracos à cortesã mais cara de Paris para passar com ele uma noite – cortesã célebre pois o imperador tinha já pago 100000 francos pelo mesmo privilégio – fazendo parte do negócio a exibição da relação íntima entre ambos num baile nas Tulherias, de modo a revelar Urbi et Orbi o seu troféu de caça grossa.

Há também uma plêiade de personagens secundários, jogadores compulsivos decalcados do Alexei Ivánovitch de Dostoiévski, cortesãs debochadas e cúpidas por dinheiro, políticos corruptos, jornalistas venais, toda a fauna decadente do fim do segundo império francês retratada com crueza por Zola. Para estimular a procura de ações do banco, Saccard compra jornais e jornalistas que inundam a imprensa de panegíricos sobre o banco e os seus grandes projetos. Um jornalista mais obsequioso e imaginativo tem mesmo a ideia brilhante de tatuar anúncios a promover as ações do banco nas partes mais íntimas das prostitutas elegantes de Paris. Tudo serve de engodo para levar os aforradores, pequenos e grandes, a separarem-se das suas poupanças, aplicando-as em ações do Banco Universal, de modo a criar uma espiral de valorização dos títulos.

Na peugada do êxito de Saccard e do seu Banco Universal, o banqueiro judeu Gundermann, frio e calculista, espreita a sua oportunidade. Ele sabe que o valor dos títulos está absurdamente inflacionado, que o banco é um gigante com pés de barro que irá, mais cedo ou mais tarde, colapsar. Gundermann vende ações do banco em grandes quantidades aguentando estoicamente perdas colossais, na absoluta convicção de que a maré altista na cotação da ação irá eventualmente virar e a sua estratégia produzir avultados ganhos.

Em suma, os dois personagens, Saccard e Gundermann, representam com grande modernidade, os dois polos humanos do mercado, o seu yin e o seu yang, presentes em todas as bolhas especulativas, desde a tulipomania do seculo XVII ao bitcoin da atualidade. Por um lado, o investidor que crê que a psicologia de massas governa o comportamento dos mercados, que acredita, tal como Keynes, que a bolsa é um concurso de beleza em que ganha, não a candidata mais bonita, mas a candidata que os outros participantes julgam ser a mais bonita e, por outro lado, o investidor que se guia pelo valor intrínseco dos títulos, que ancora as suas decisões de investimento na análise dos fundamentos económicos, comprando títulos quando estes estão baratos relativamente ao seu valor intrínseco e vendendo quando estão caros.

Voltando, por fim, à bitcoin, parece-me que há neste momento no mercado mais Saccards do que Gundermanns. Mas não se enganem: os Gundermann estão à espreita, prontos para vender assim que o vento mude feição.

Católica-Lisbon School of Business and Economics, Universidade Católica Portuguesa