Rádio Observador

França

Os “coletes amarelos” dos outros são óptimos /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
165

As reivindicações dos "coletes amarelos" oscilam entre o absurdo e o perigoso. Mas há muitos em Portugal que olham para eles com a mesma volúpia que Soares reservava aos comunistas em 1974. Porquê?

Esqueçam as poesias retóricas e as fantasias políticas: os “coletes amarelos” não são uma saudável revolta do “homem comum”. Vamos ver se nos entendemos: o “homem comum” não incendeia carros, não destrói estátuas e não bate em polícias. O “homem comum”, numa democracia liberal, argumenta, protesta e, num momento de solenidade e respeito, vota.

Pode parecer pouco para aqueles que em Portugal sonham com a tomada da Bastilha ou, mais patrioticamente, com o PREC — mas é muito para quem aspira a, simplesmente, viver num país normal, onde a política não é uma sucursal da violência. Os extremistas acham que a política aborrecida é um vício; os moderados acham que é uma virtude.

Há outra coisa que os “coletes amarelos” não são: eles não são o despertar do “povo” sensato que enfrenta uma elite desligada da realidade. Se há alguém a viver em Marte não é Macron, são os “coletes amarelos”. O movimento é convenientemente inorgânico e, portanto, impossível de responsabilizar, mas vários documentos mostram o que está naquelas cabeças. E o que lá está é um país que oscila entre o absurdo e o perigoso.

Primeiro, os “coletes amarelos” refugiam-se num clássico da extrema-esquerda e da extrema-direita: transpirando irresponsabilidade, querem que França saia da União Europeia e da NATO, como se todos os problemas do país resultassem do mero ato de falar com estrangeiros, criar alianças e abrir fronteiras.

Depois, vem a tentação de tratar a economia como um conto de fadas. O plano dos “coletes amarelos” é simples: se chegarem ao poder começam, heroicamente, por dar um calote no pagamento da dívida; e a seguir, necessitando de dinheiro, pretendem “reconquistar o direito a emitir moeda”, como se essa louvável atividade fosse gratuita ou inconsequente.

Por fim, usando uma forma peculiar de pensamento mágico, os “coletes amarelos” acham que podem aumentar descontroladamente as despesas (com a “contratação massiva” de funcionários públicos, com a quadruplicação do orçamento da justiça, com a criação de trabalhos para os desempregados e com a fixação da idade da reforma nos 60 anos) e, ao mesmo tempo, baixar dramaticamente as receitas, com a proibição de que os impostos retirem mais de 25% do rendimento dos contribuintes. Vamos repetir e simplificar: de um lado, passa a sair mais dinheiro; e, do outro, passa a entrar menos dinheiro.

Com tudo isto, uma pessoa só fica espantada ao ver políticos portugueses respeitáveis a falarem dos “coletes amarelos” com volúpia e admiração. Mas há uma história que talvez ajude a explicar essa estranha forma de pensar. Em 1974, o PS organizou o seu primeiro congresso e, no meio dos entusiasmos revolucionários, Mário Soares convidou Felipe González, do PSOE, e Santiago Carrillo, do PC espanhol, a virem a Lisboa. Mas não os tratou da mesma maneira: só o comunista é que teve direito a discursar. Furioso, o socialista Gonzaléz foi ter com o líder do PS e disse-lhe que, se não pudesse falar também, abandonaria o congresso em protesto. Quando Soares se manteve inflexível, invocando a necessidade de ter o apoio dos comunistas em plena revolução, González avisou-o, ominoso: “Pois é, os comunistas dos outros são sempre melhores do que os nossos”. Os “coletes amarelos” também.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mpinheiro@observador.pt
Eleições Europeias

O vazio que alimenta o PAN /premium

Miguel Pinheiro
755

Os 5,1% que o PAN teve este domingo nas eleições europeias são um aviso. E um aviso sério. Os partidos do sistema estão a ignorar um dos temas que mais preocupa os eleitores jovens: o ambiente.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)