Hoje venho contar-vos uma história. A ação desenrola-se em Sevilha, na época mais terrível da Inquisição, quando, na praça da cidade, ardiam fogueiras para a glória de Deus. Cristo terá, por este tempo, decidido regressar à Terra para visitar de novo os seus filhos no lugar onde crepitavam as fogueiras dos heréticos. Depois de curar um cego e ressuscitar uma filha a pedido da sua mãe lacrimosa, Cristo foi empurrado para o velho edifício do Santo Ofício, onde o encerraram numa estreita cela abobadada. Quando o dia chegou ao fim e caiu a noite, abriram-se as masmorras e apareceu, no meio das trevas, com um facho na mão, o grande Inquisidor. Dirigiu-se a Cristo e disse-lhe: “Jovem, levanta-te! Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Amanhã serás queimado como o pior dos heréticos”.
Quem esteja mais familiarizado com os grandes clássicos da literatura já terá, por esta altura, identificado a parábola que acima me aproprio, O grande Inquisidor, o momento mais alto da obra de Dostoievski, Os Irmãos Karamazov. Lembrei-me deste episódio, por estes dias, ao assistir ao debate presidencial em que Marques Mendes decidiu vestir-se de grande Inquisidor, lançando João Cotrim à fogueira, enquanto se ungia e se apresentava como “vítima”, defensor da “transparência” e da “verdade”. Perante tão estridente rasgar de vestes, Cotrim escolheu, como Cristo, remeter-se ao mais absoluto silêncio.
A verdade é que muito haveria a questionar sobre a atividade de Marques Mendes em várias geografias, e isso seria importante, porque não podemos arriscar-nos a ter um presidente que transporta consigo para o cargo as suas inúmeras opacidades. Claro que Marques Mendes e os seus apoiantes podem sempre alegar, em sua defesa, que o que dele se diz e “circula” em surdina não passa de más-línguas e difamações. E que o escrutínio é mais complicado quando é feito em contexto eleitoral.
O que se conhece, porém, sobre o percurso de Marques Mendes, o que já se sabe, o que é certo, conhecido, e já não refutável, o que não se está a discutir, são os trinta anos de episódios sucessivos, cada qual com tonalidades próprias, mas com um elemento constante: ele está sempre lá, sempre próximo, sempre íntimo, sempre solícito a comentar e colher o fruto do seu próprio comentário, sempre, sempre tangencial a muitas das figuras mais sinistras que nas últimas décadas faliram ou descapitalizaram bancos, empresas, obtiveram favores, informação privilegiada, depauperaram o fisco, tornaram-se insolventes apesar de acumularem riquezas e património fora do país. Da SLN ao BPN, do BESA ao BES, do Montepio à Santa Casa, com paragem na Caixa Geral de Depósitos, dos negócios opacos das energias renováveis aos labirintos angolanos onde abre corredores no Lobito enquanto reclama, na sua dupla categoria de “presidente do conselho consultivo e membro do conselho de Estado de Portugal”, privatizações e parcerias público-privadas, passando pelo episódio grotesco dos feridos da Líbia – “venham tortos, mas não mortos” –, tanta proximidade e fraternidade com vários eixos do Mal é uma constante demasiado persistente para ser descartada como coincidência na hora do voto.
O juízo que aqui faço, que fique claro, é político, não criminal. Tem a ver com o perfil que queremos para a Presidência da República. Seguramente Marques Mendes terá explicações para tudo e, aliás, explicações irrepreensíveis, limpas, quase hagiográficas. Marques Mendes não irá deixar de reclamar para si a ética, e não faltarão pessoas disponíveis para lhe segurar a cortina que oculta as suas eventuais sombras. O problema é que o país não está num momento em que possa acomodar toda esta ligeireza moral. O prestígio das instituições encontra-se perigosamente diminuído, vive-se num estado de anemia cívica e a confiança pública evapora-se ao ritmo de um desencanto que já não é episódico, mas estrutural. A verdade inconveniente e que Marques Mendes e os seus apoiantes não querem ouvir é que o Regime não aguentará os problemas e os conflitos de interesse decorrentes de tê-lo na presidência da República.
Termino, como comecei, socorrendo-me da obra de Dostoievski. Como bem decorre da longa conversa entre Iván Karamazov e o seu irmão Aliócha, na gestão da polis não há deuses providenciais. Cabe-nos assumir a responsabilidade: “Cada um de nós é culpado por tudo, em relação a todos”. E se ter de escolher, por vezes, é uma angústia, importa que sejamos exigentes na hora de votar, tenhamos critério, escolhamos quem, para lá do que nos diz o nosso ego, se nos apresenta com percurso de vida e autoridade moral inquestionáveis, porque só assim conseguiremos inverter a degradação em curso.
Esta eleição pode ser a última oportunidade.