Por vezes olhamos para os problemas do sistema de saúde português e pensamos que “isto só no nosso país”. Nada de mais errado: muitos dos desafios da saúde, nomeadamente para dar aos doentes o acesso aos cuidados de que necessitam em termos sustentáveis, são transversais aos sistemas, desde a questão da falta de profissionais de saúde, às transições demográfica, digital e ambiental, etc.

Em Portugal sempre olhámos o sistema de saúde inglês (NHS) como o modelo e, cá como lá, identificamo-nos com a inspiração beveridgiana. A atual situação do NHS é consensualmente reconhecida como muito difícil, e os sintomas mais óbvios são o aumento das listas de espera, a escassez de investimentos e o elevado número de cidadãos sem acompanhamento nos cuidados de saúde primários.

É neste contexto que as recentes tomadas de posição do Governo inglês são muito interessantes e merecem uma reflexão.

O primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer começou por dizer que a situação do NHS estava a causar muitas dificuldades aos britânicos e que a reforma era urgente e inadiável. O objetivo é disponibilizar mais consultas e cirurgias, motivar os profissionais de saúde (que fazem um trabalho extraordinário) e dar segurança aos cidadãos. Nesse sentido, uma linha essencial das medidas assumidas é envolver os cidadãos, valorizar as suas questões e perspetivas, ou seja, colocar verdadeiramente as pessoas no centro do sistema.

Starmer é um defensor acérrimo do SNS inglês e da gratuitidade dos cuidados no momento da prestação, mas também sabe que para manter os objetivos tem de mudar os instrumentos. Nas suas palavras, não é aceitável dar prioridade à ideologia em vez do interesse dos pacientes (“I’m not interested in putting ideology before patients and I’m not interested in moving at the pace of excuses.”)

No âmbito das reformas assumidas, o governo britânico lançou um novo acordo para alargar a relação entre o NHS e o setor privado da saúde, para que mais meios e a capacidade dos hospitais privados (em termos de camas, cirurgias, consultas e acompanhamento dos doentes) possam estar disponíveis para quem deles precisa e o sistema público não tem condições de oferecer.

O primeiro-ministro crismou esta iniciativa como uma “parceria de interesse nacional”, para aumentar o acesso e reduzir as listas de espera. Nos documentos disponibilizados no site do NSH fala-se mesmo de uma “Concordata” com o setor privado de prestação de cuidados de saúde.

A designação e a terminologia não serão aqui o mais importante. Apetece citar o episódio histórico em que Deng Xiao Ping terá dito que “o que importa não é se o gato é preto ou se é branco, mas se apanha o rato”.

Relevante mesmo é a procura de soluções para problemas que todos vemos que são muito graves. Determinante é a vontade política de enveredar pelas reformas que atinjam os resultados.