Extrema Esquerda

Para que servem o BE e o PCP? /premium

Autor
  • André Abrantes Amaral
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O país anda à procura de onde surgirão os 'coletes amarelos' à francesa, mas estes podem aparecer onde menos se espera: entre o próprio eleitorado da esquerda.

O Partido Comunista Português, como comunista que é defende uma ideologia atroz. Não sou eu que o digo, mas a história de milhões que morreram, sofreram, foram perseguidos, passaram fome, estiveram presos, sofreram torturas e mil e um outros horrores, que o contam e o comprovam.

Mas, e apesar de tudo isso, o PCP é encarado pela maioria das pessoas em Portugal como um partido inofensivo. Para alguns, até mesmo simpático. Presumo que a grande maioria dos militantes do PCP nem sejam verdadeiramente comunistas. São do PCP porque, em certas zonas do país, vale a pena ou é mesmo indispensável ser ‘comunista’, nem que seja de carteira. Na verdade, e como bem referiu Rui Ramos, o PCP tem sido um partido onde é possível arranjar colocação no Estado. Ora, ao tornar-se num centro de emprego, o PCP domesticou-se. Passado o tempo do PREC, durante o qual uma parte da natureza do PCP se revelou, o partido comunista foi servindo para aplacar as exigências de parte do país através de empregos públicos nas autarquias. Para apagar a mancha em que se tornou a essência do PCP, espalhou-se a ideia, peregrina, de que um comunista é honrado só por ser comunista. Entre os comunistas não haveria corrupção, nem compadrios. Apenas empregos e honra. Era ouro sobre azul. A mesma ficção, agora diz-se narrativa, foi contada relativamente ao BE. Um partido de causas fracturantes, que apenas deseja o bem, a igualdade, o respeito das minorias e o fim da especulação (essa coisa horrível) seja esta financeira ou imobiliária.

Vivemos, no entanto, um outro tempo moldado não apenas pela crise financeira iniciada em 2008 ou pelos os sacrifícios impostos pela troika. Para este novo tempo que vivemos foi indispensável descoberta da rede liderada por José Sócrates que, enquanto primeiro-ministro desfalcou o país em proveito próprio e de alguns comparsas, como também o sentimento real de que a impunidade de alguns terminou com uma Justiça a funcionar de forma cada vez mais eficaz. Na verdade, com estes acontecimentos os cidadãos chegaram mesmo a desapegar-se dos partidos e de certas instituições (o caso do futebol é exemplificativo, com muitos adeptos a distanciarem-se de comportamentos ilegais de certos dirigentes desportivos) e estão mais intolerantes para novas desilusões.

É neste ponto que vem à baila o caso do genro de Jerónimo de Sousa e da Câmara Municipal de Loures. Em virtude do desapego referido em cima, o grau de intolerância demonstrado para com os outros partidos e instituições aplica-se também ao PCP. Até podem restar os empregos, mas a honra desaparece e com ela a ideia de brio e de valor. O mesmo se diga quanto ao BE que elegeu como vereador em Lisboa alguém que prometeu combater o bullying imobiliário ao mesmo tempo que se rendia ao capitalismo mais selvagem. Também desta forma o Bloco foi domesticado pelo regime.

No entanto, tanto o PCP como o BE têm servido para muito mais que dar emprego e gritar mentiras. Têm servido para direccionar o sentimento de frustração social que, com certa ironia, é explorado por ambos. É que ao tirarem proveito deste sentimento, PCP e BE também o controlam, canalizando-o para as lutas sindicais e para os protestos partidários. Um jogo de cintura que já não será possível com um PCP enfraquecido ou com um BE descredibilizado. E ao não ser possível, há o risco do eleitorado de esquerda procurar outros agentes políticos onde desabafar as suas frustrações. Outras forças políticas não domesticadas e, porque aparentemente mais livres que o PCP e que o Bloco para alterarem o ‘status quo’ que os atrofia, mais violentas também. O que sucedeu esta semana na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e em Odivelas e Setúbal, como protesto contra a violência policial no Bairro Jamaica, no Seixal, pode ser um sinal disso mesmo. Um primeiro sinal da incapacidade destes dois partidos representarem convenientemente quem até ao presente neles se revia. O país anda à procura de onde surgirão os ‘coletes amarelos’ à francesa, com a esquerda desejosa de algo que justifique um voto de protesto contra a violência, mas a revolta pode surgir onde menos se espera: entre o próprio eleitorado da esquerda.

Advogado

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