A necessidade crescente de aumentar a performance das telecomunicações assenta na possibilidade do fazer de modo rápido e seguro. Os cabos submarinos – uma espécie de satélites dos mares – são porventura os mais importantes esteios da revolução digital presente. Usando o princípio das fibras óticas, eles são a tecnologia primária ao abastecimento das data networks internacionais. Bases militares, universidades, escolas, hospitais, empresas, data centers, administrações, todos estamos expostos a estas artérias da ordem digital, a que as sociedades modernas estão cada vez mais expostas.

Até então um tema discreto, os cabos submarinos têm ganho relevo – sobretudo desde o episódio de sabotagem no mar Báltico, a 18 de novembro último, em que o cabo C-Lion1, que une a Alemanha e a Finlândia, foi danificado por um alegado ataque russo. Desde lá para cá, o número de referências a cabos submarinos na imprensa internacional não tem parado de crescer. Importa assim perguntar, se estes não serão os primeiros sinais de que algo está a mudar nas estratégias navais contemporâneas. E se os discretos fundos marinhos vierem a ser os novos palcos de confrontos entre Estados. E no caso do mar Mediterrâneo? – um dos pontos de maior concentração de cabos no planeta. Estarão já reunidas as condições para que estes cabos possam desencadear uma mudança no paradigma militar da região?

Fonte: TeleGeography (2025). Submarine Cable Map. Consultado em 16 de janeiro de 2025.

O negócio dos cabos submarinos tem estado, desde os anos 90, maioritariamente nas mãos de empresas e consórcios internacionais de telecomunicações. Mas nas últimas duas décadas são os GAFAM que se têm tornado os novos investidores desta tecnologia.

Para além de serem um elemento chave a este tipo de empresas, os cabos submarinos estão também a tornar-se num negócio muito lucrativo. No espaço duma década o seu valor de mercado quase que triplicou – com estimativas a apontar um crescimento de $7 biliões em 2022 para $21 biliões em 2031 [*].

No entanto, a regulação desta atividade é praticamente inexistente na Europa em matéria de construção, gestão e segurança dos cabos que passam em águas territoriais dos vários Estados-membros. E o investimento público é praticamente negligente quando comparado com as necessidades, e os investimentos privados.

A título de exemplo, a Meta financiou, juntamente com a China Mobile, o recente cabo 2Africa – um mega projecto que contorna todo o continente africano, e ligando-o a vários países da Europa e do Médio Oriente. Foi concebido para ser o maior cabo submarino do mundo, com um comprimento de 45000 km, e servir até cerca de 3 mil milhões de utilizadores.

Em sentido oposto, umas das poucas iniciativas europeias – pela via do Banco Europeu de Investimento – ficou-se por um financiamento parcial duns modestos €40 milhões para construir o Medusa – um cabo que conecta países do sul europeu (passando por Sines e Lisboa) a países do norte de África. Este projecto, diametralmente oposto à dimensão do 2Africa, terá uma extensão de apenas 8700 km. Diferentes números para diferentes ambições, para aquela que é a tecnologia essencial à circulação e segurança dos dados dos europeus – deixada quase na sua totalidade nas mãos de privados americanos e chineses.

Figura 1: Cabo 2Africa, consultado em 16 de janeiro de 2025.

Figura 2: Medusa (2020). Submarine Cable System: map. Consultado em 16 de janeiro de 2025

É de lembrar ainda que o Mediterrâneo é um ponto nevrálgico para as telecomunicações internacionais, com uma das maiores concentrações da passagem de cabos submarinos por km2, e por isso sujeita a: (i) menor profundidade média (quando comparada com o Atlântico), e por isso mais exposta a ataques; (ii) maior densidade de atividade naval por milha náutica; (iii) conflito potencial de varias juridições marítimas concorrentes: europeias, africanas e levantinas.

Por outro lado, estes factores devem ser colocado lado a lado com os indícios duma atividade naval crescente no Mediterrâneo nos últimos vinte anos, e envolvendo quatro novos atores militares.

Do lado russo, a anexação da Crimeia reimpôs a sua agenda naval, juntamente com o anterior acesso às bases sírias, como recompensa pelo apoio político-militar ao regime de Assad. Com uma marinha dividida entre o Pacífico e o mar do Norte (blue-waters), a Rússia vê no Mediterrâneo não só uma janela de pressão geopolítica na região de influência da NATO, como uma forma de operar parte da sua fronta em green-waters – tecnologia naval adaptada a águas quentes (green faz alusão à presença de algas).

Já do lado de Ancara, o paternalismo turco sobre o (in)existente regime líbio desde 2011 tem servido de alimento à nostalgia otomana de ser uma presença constante no Mediterrâneo. E a maior prova disso foi o acordo de 2019 entre a Turquia e a Líbia para a partilha respetiva das suas zonas económicas exclusivas. Nos últimos anos, este acordo tem permitido ao governo de Erdogan lançar incursões científicas e militares em águas soberanas gregas e cipriotas. E o motivo não é para menos, já que os fundos marinhos na bacia leste mediterrânica – conhecida como Triângulo da Energia – tem ganho consenso científico da presença de grandes reservas de gás natural nas zonas económicas exclusivas da Grécia, do Chipre e de Israel – com grande potencial de exploração e comercialização.

Figura 4: Acordo marítimo entre a Turquia e a Líbia para uso partilhado das suas zonas económicas exclusivas. Fonte: Anadolu Agency (2019). Strategic, legal aspects of Turkey-Libya deal. Consultado em 16 de janeiro de 2025.

Figura 5: o El-Moutassadi, a primeira corveta chinesa classe-Type 56 da marinha argelina. Fonte: Fonte Figura 5: Algerian Ministry of National Defence (2023). Consultado em 16 de janeiro de 2025.

Por fim, a Argélia e o Egipto têm aumentado consideravelmente o seu investimento militar – particularmente na modernização das suas marinhas – multiplicando os programas de compra de embarcações médias polivalentes, maioritariamente chinesas. De acordo com a Bloomberg, em 2025, a despesa do Ministério da Defesa argelino prevê atingir o seu máximo histórico de $25 biliões – consolidando a tendência crescente, desde a pandemia. Em 2023, o peso da despesa militar argelina atingiu cerca de 9% do seu PIB – o segundo maior rácio de despesa militar no mundo – de acordo com a CIA.

As relações sino-argelinas nunca foram tão fortes como nos últimos 10 anos, sobretudo em cooperação militar e transportes. E, depois de se ter tornado cliente de corvetas chinesas em 2015, com navios da classe-Adhafer, a Argélia voltou a reforçar a sua marinha com corvetas da classe-Type 56, que têm sido entregues desde 2022 [6]. Embora não seja oficial, o Ministério da Defesa argelino já anunciou a possibilidade de vir a obter uma licença de produção de corvetas Type 56 por parte da China State Shipbuilding Corporation, um dos maiores grupos de armamento chineses.

A relevância dos cabos submarinos é inquestionável no abastecimento de dados às sociedades digitais. E por isso, não é de estranhar que as estruturas militares se adaptem proporcionalmente aos novos planos em que possam vir a ser mobilizadas.

A definição de confronto militar já está a mudar. E já não será um ato físico, mas antes sim um mecanismo limpo e silencioso de imobilizar o adversário. Consequentemente, numa sociedade digital, a sabotagem dos cabos submarinos será a tática mais eficiente, por ser a mais rápida, a mais barata e a que afeta um maior número de pessoas e de organizações simultaneamente.

Seja pela via da espionagem ou da sabotagem, um conflito envolvendo cabos submarinos terá a mesma lógica que um dilema nuclear. A força de dissuasão é o trunfo pelo qual nunca houve um conflito nuclear, visto que o país que lançar o primeiro ataque vai desencadear uma reação em cadeia. Ora, o mesmo se aplicará aos cabos submarinos. O país que lançasse um ataque em massa aos cabos de outro desencadearia uma sucessão de retaliações à qual o primeiro país não poderia escapar. Isto porque todos os países estarão cada vez mais expostos a milhares de km de cabos e nunca conseguiriam defender a totalidade das suas redes.

À semelhança das armas nucleares, os cabos submarinos terão que ser alvo de uma estratégia de dissuasão, que só poderá vir do desenvolvimento de nova tecnologia militar que permita criar armas de IA, anfíbias e robóticas – algo como drones submarinos – que se tornem os melhores defensores e atacantes das redes de cabos. A primeira metade do século XXI ainda não é o tempo da guerra das estrelas. E por isso, não será inesperado que o ramo naval das forças armadas venha a ser o mais relevante e citado em matérias de segurança e defesa internacionais.

[*] Transparency Market Research. Submarine Power Cable Market. “Global Industry Analysis, Size, Share, Growth, Trends, and Forecast, 2022-2031”. Report TMRGL26633, May 2022. [Consultado em 7 janeiro de 2025]