Nestes tempos adversos à evocação da memória, de segregação e até apagamento do passado, o “bom” e o “mau” carecem de resposta fundada. Os antigos viam os valores como estruturas objetivas e segundo uma ordem de procedência. Hoje, nas sociedades contemporâneas, eles não passam de estruturas subjetivas dependentes da cultura. O universal como horizonte, como aquilo que é comum a todos, de direito ou como possibilidade real, parece caducado ou mera projeção ilusória, insuscetível de efetividade. Nos debates na esfera pública perpassa uma experiência difusa de desintegração, uma fragilização extrema de argumentos, uma fragilidade essencial de convicções.  A ambiguidade e a indeterminação vão crescendo sem medida, numa espécie de commixtio generum indiferenciante.

O paradoxo da situação é que as fronteiras representam cada vez mais barreiras enclausurantes e ameaças de segregação, e não ocasiões de proximidade como mais facilmente se preveria. Mostra-se pertinente o diagnóstico feito por Byung-Chul Han, filósofo de origem sul-coreana, radicado na Alemanha. Verifica-se na sociedade um processo de “ex-propriação” do humano, de expulsão de todas as diferenças, de rasura normalizadora, que vai amalgamando e desfazendo a irredutibilidade dos indivíduos. Esta tentativa de expulsão vinha de há muito no pensamento do século XX. O próprio Freud inventaria-a, num texto de 1919 sobre as ‘ofensas’ ao narcisismo. Mas o acontecimento do digital prolongou e intensificou esse nivelamento social e psicológico até à coincidência, que a pandemia tornou ainda mais visível. O que temos, agora, é uma sociedade sem sociabilidade, marcada pela solidão e pelo cansaço, polarizada pela absolutização do igual. O nome “transparência” é apenas mais um eufemismo para descrever o vazio ontológico dominante.

Reina, então, uma espécie de niilismo pessimista, desmobilizador da vontade («para quê?», repete-se). Terreno fácil para o surgimento de crenças fatalistas e deterministas, profecias e projeções de iminentes crises, perigos espirais descendentes e difusos.

Hoje, quem visa o poder, estabelece valores. A luta pelos valores é assim uma luta escondida pelo poder. Mas uma razão estratégica ocupada simplesmente com a administração eficaz do poder transforma todos os valores em soluções imediatas (ideológicas) para os problemas da vida. Lembre-se que sob a cobertura do maior dos bens, já se cometeram os maiores males. É que os valores não podem ser tomados globalmente, a não ser por quem vive permanentemente ao espelho do imediatismo. Utilizando o exemplo dado por um filósofo, imagine-se que viajamos de comboio. A paisagem mais próxima desfila muito depressa, a mais distante passa mais devagar e a que emerge no horizonte não se move. Entre a atualidade mais próxima e a geografia mais remota, há movimentos de longo fôlego, deslocações tectónicas da transumância da humanidade, longos tempos de derivas culturais. Ou seja, há evoluções rápidas, mas também de grande duração e de velocidade fraca. Os valores são assim. Não resultam de uma necessidade externa. Se erigirmos a atualidade como critério supremo, resta-nos o ruído veemente do efémero, conferindo permanência àquilo que não passa de vibração fortuita.

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Em termos históricos, sabemos que a democracia representa uma vitória sobre os totalitarismos. Mais, a filosofia democrática não pretende instaurar nem o bem nem mesmo a justiça, vive da permanente crítica de si num debate tão aberto quanto possível. A democracia desconfia de todos os poderes, limitando-os, opondo-se-lhes. Só a democracia pode conter o crescimento das ideologias.

Evocando a memória, vale a pena lembrar a lição dos primeiríssimos politólogos. A democracia pode degenerar em tirania, ao promover um discurso pragmático e eficaz, a partir de regras simples, de acolhimento fácil. Escreve Tucídides acerca de Péricles: «Quando os via [Atenienses] confiantes e cheios de arrogância não justificada, com uma palavra incutia-lhes medo mas, por outro lado, se estavam em pânico, restaurava-lhes a confiança. E assim Atenas de nome uma democracia, era na realidade governada pelo seu cidadão mais importante.  Os sucessores de Péricles, uma vez que eram mais iguais uns aos outros, mas cada um tentava tornar-se no cidadão mais importante, mudaram a conduta dos negócios da cidade e entregaram-na à populaça e seus caprichos» (História da Guerra do Peloponeso, II, 65-9).

Também Platão e Aristóteles advertem contra os impulsos de diástole da maioria, falando aquele pela boca e pela vida de Sócrates, que não anuía sem se interrogar e sem interrogar os outros. A partir de então, o que sempre estará em causa é a possibilitação da vida social de modo a que não possa ser arbitrariamente anulada ou deformada. Impor-se-á o reconhecimento do valor da norma e da lei enquanto vínculo e fator de igualdade. A democracia não tem garantia de perenidade. Precisamos de valores de longa duração e não adormecer sobre ilusões. O efémero cansa, desgasta, corrói o laço social. Pode ser indolor e menos violento que as tiranias, mas, impercetível, impalpável, intangível, alastra e corrompe as vontades, impedindo a formação de uma “negatividade”, a oposição frontal. A política do efémero é o efémero da política.