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É muito o que separa Alexis Tsipras de Donald Trump. Não se pretende por isso com este artigo fazer um exercício de equivalência forçada entre os dois mas, ao mesmo tempo, é impossível ignorar que há uma característica importante que os une: o populismo.

Tanto Tsipras como Trump conquistaram vitórias eleitorais apelando à revolta popular contra um sistema percepcionado como injusto e corrupto. Tanto Tsipras como Trump se apresentaram como heróis (improváveis) do cidadão comum no combate aos meios privilegiados de onde ambos emergiram. Tanto Tsipras como Trump apresentaram promessas pouco realistas e por vezes contraditórias para conseguirem capitalizar a seu favor um vasto leque de factores de descontentamento.

A constatação deste paralelismo pode parecer algo excêntrica em contextos político-mediáticos, como o português, nos quais a duplicidade de critérios é gritante. Pode ser difícil verificar esse paralelismo num país onde se encara (correctamente) a retórica proteccionista de Trump como uma ameaça à economia global ao mesmo tempo que quase todos minimizam a gravidade do programa económico extremista de algumas das forças que constituem a “geringonça”. Mas isso não faz com que o paralelismo seja menos verdadeiro.

A referida duplicidade ficou recentemente bem patente também na avaliação do legado do brutal ditador cubano Fidel Castro. Uma duplicidade que teve ainda esta semana novos desenvolvimentos com o Partido Comunista Português a votar contra um protesto pela detenção de jornalistas portugueses em Cuba apresentado pelo PSD na Assembleia da República e, num plano mais caricatural, com as esforçadas piruetas retóricas de Francisco Louçã – líder histórico do PSR e do Bloco de Esquerda – para branquear a ditadura cubana e os hediondos crimes de Fidel Castro.

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Como os exemplos de Tsipras e Trump demonstram, o crescente sucesso das estratégicas retóricas populistas não é exclusivo nem da esquerda nem da direita do espectro partidário. Para compreender esse sucesso é preciso procurar raízes mais profundas. Como explica Rui Ramos:

“O chamado “modelo social” já não é sustentado pela economia. O estilo “populista” é um meio fácil de as elites políticas escaparem às responsabilidades. Até agora, estiveram organizadas em turnos de alternância, uns à direita e outros à esquerda. Não é impossível que, perante as aflições, evoluam para um sistema de polarização à volta de homens fortes, capazes de apelar transversalmente ao eleitorado em nome da nação.”

O populismo pode assim ser visto como um sintoma da falência dos modelos sociais correspondentes e, muito em particular, da sua incapacidade para proporcionarem os resultados prometidos. Como eloquentemente explicou há mais de sete décadas Friedrich Hayek na sua obra The Road to Serfdom, os sucessivos fracassos das políticas intervencionistas conduzem a um gradual aumento das frustrações do eleitorado. Frustrações essas que abrem espaço para figuras carismáticas que se apresentem como líderes “fortes”, com um discurso agressivo centrado no enfrentamento do “sistema” e na suposta defesa dos interesses e aspirações do “cidadão comum”.

No contexto deste enquadramento mais geral, os sinais disponíveis apontam para que Tsipras e Trump sejam, apesar de tudo, relativamente inofensivos. Mas, caso a espiral degenerativa apontada por Hayek não seja travada a tempo no plano das ideias, chegará um dia em que os populistas eleitos já não se acomodarão ao sistema após a sua eleição.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa