Em tempo de emergência nacional, devido à rapidez do surto pandémico da Covid-19, Portugal e o mundo veem-se a braços com a necessidade imediata de criarem alternativas ao paradigma educativo presencial, para todos os níveis de ensino. Não é novidade para ninguém que a evolução das tecnologias e das redes de comunicação tem provocado mudanças acentuadas na sociedade, impulsionando o nascimento de novos processos de comunicação e de novos cenários de ensino e de aprendizagem. Mas nenhum de nós, mesmo aqueles que somos professores e já adotávamos ambientes online nas nossas práticas, imaginava que a educação digital chegaria tão rápido, de uma hora para a outra, e de forma praticamente obrigatória, devido à expansão da pandemia. Enquanto a doença avançava em Portugal, no dia 16 de março, cerca de dois milhões de estudantes ficaram afastados de escolas e universidades. No entanto, isso não significou aulas canceladas, mas sim suspensas ou adaptadas a uma nova realidade online, realidade essa para a qual a maior parte dos educadores e professores não estava preparada.

O facto é reconhecido por Nuno Crato num artigo publicado no Observador no passado dia 23 de março, intitulado “Universidade fechada, universidade aberta”, que é uma reflexão honesta sobre a forma como as instituições de ensino superior estão a reagir ao facto de estarem fechadas, oferecendo cursos online, mas em que estão a ter muitas dificuldades.

Segundo o autor, as universidades presenciais não estão preparadas para manter práticas online, ao contrário das universidades abertas, que praticam “ensino à distância”, mas que se dirigem a um público muito específico. Ainda segundo Nuno Crato, o problema é das instituições e dos professores, que, como ele próprio, embora julgando-se evoluídos tecnologicamente e capazes de dominar plataformas de ensino e métodos de comunicação, estão a falhar. E conclui afirmando que, embora muitos dissessem que o ensino online seria o futuro do ensino, nada substitui uma boa aula presencial. Como forma de procurar minimizar o problema existente, Nuno Crato faz um conjunto de sugestões aos professores do ensino presencial relativamente aos cuidados que devem ter na lecionação, que, basicamente, repetem o que há muito é sabido por quem ensina no regime de ensino a distância. Para dar dois exemplos, as aulas gravadas e as aulas síncronas de longa duração (leia-se: de duração normal, nas universidades presenciais) não são solução.

É relevante que Nuno Crato tenha publicado o artigo no Observador, que é um jornal exclusivamente online e que é lido por pessoas que fazem uso habitual da internet. É relevante porque Nuno Crato vem falar da utilização do “ensino à distância” pelas universidades presenciais para suprir as dificuldades de oferta de ensino presencial. É relevante ainda porque, ao contrário das universidades presenciais, o Observador não fechou por causa da pandemia. Pelo contrário, a cobertura da pandemia reforça a sua existência como jornal online, não só porque é um assunto de interesse geral, mas porque as pessoas, mesmo confinadas em casa, podem aceder aos conteúdos do jornal, da mesma forma que muitas delas trabalham a partir de casa usando a internet.

Estes factos mostram que as pessoas vivem hoje diferentemente do passado. O acesso à informação através de um jornal online é mais fácil e eficiente do que através de um jornal em papel, como se percebe pela leitura de um qualquer artigo, com múltiplas ligações para tópicos relacionados.

Porque não é assim nas instituições presenciais de ensino superior? Porque estarão a falhar? Que relevância tem afinal o ensino a distância (não “à distância”, como referem Nuno Crato e muitos outros, mas já lá vamos) nas ofertas atuais de ensino superior?

Conta-se que Bjorn Borg, quando era o n.º 1 no ranking ATP, se lesionou e, tendo recuperado da lesão, insistiu em usar as raquetes de madeira que usava antes da lesão, embora, entretanto, houvesse já raquetes mais evoluídas, que eram usadas por outros atletas. Porventura não foi só por isso, mas o sueco não voltou a ser o n.º 1 do mundo. Não consta também que haja advogado, por mais velho ou tradicional que seja, cuja secretária continue a usar máquina de escrever para o trabalho diário, não só porque os computadores são mais eficientes, mas porque as peças processuais têm de ser entregues num sistema digitalizado. A opção não está entre usar ou não usar novas tecnologias, mas em ser suficientemente eficiente para se ser bem-sucedido, o que, no caso do ensino a distância, decorre necessariamente de relações entre pessoas e entre pessoas e máquinas, mas sempre no contexto de um relacionamento pessoal.

Três notas breves sobre a confissão de Nuno Crato relativamente à falta de preparação das instituições presenciais para enfrentarem a situação atual. Em primeiro lugar, Nuno Crato fala de “ensino à distância”, mas deveria saber que o conceito correto é “ensino a distância”, dado que foi ministro da Educação e Ciência, trabalhou com a Universidade Aberta e conhece pessoas na Universidade Aberta. A segunda nota é precisamente para destacar a omissão no artigo de qualquer referência à Universidade Aberta, que foi criada em 1988 pelo ministro Roberto Carneiro e que tem um trabalho único na área do ensino a distância em Portugal. Em terceiro lugar, é preciso dizer que para fazer ensino a distância não basta usar tecnologia. O ensino a distância pressupõe uma relação entre professor e estudante consubstanciada numa pedagogia adequada. A Universidade Aberta tem um modelo pedagógico próprio, reconhecido internacionalmente, que aplica diariamente. As suas atividades letivas decorrem ininterruptamente 24 horas por dia, ou seja, dada a sua natureza, a Universidade Aberta não fechou por causa da pandemia.

É preciso lembrar ainda que o DL n.º 133/2019, de 3 de setembro, que aprovou o regime jurídico do ensino a distância, estabelece regras claras para as instituições que querem oferecer ensino a distância, por forma a garantir a qualidade das ofertas. Com efeito, o ensino a distância tem o mesmo valor legal do ensino presencial, mas é diferente. Assim, entre outras coisas, as instituições interessadas em oferecer ensino a distância devem dispor de professores com formação específica na área e ter um modelo pedagógico próprio, para além de deverem dispor de uma infraestrutura tecnológica e de pessoal técnico especializado.

O ensino a distância diferencia-se do ensino presencial pelas aprendizagens, conteúdos e forma como as pessoas se relacionam. Esta realidade do ensino a distância exige que se pense em criar e desenvolver estruturas e programas que respondam às mudanças na sociedade e às necessidades de formação das pessoas, incluindo a formação dos docentes das instituições presenciais, assim como a articulação dos saberes que é suposto terem os membros sociedade digital em rede em que vivemos.

Assim como o combate ao novo coronavírus exige uma intensa cooperação entre instituições e pessoas, também o desenvolvimento do ensino a distância exige uma intensa cooperação de instituições e pessoas, a fim de que se possa expandir como forma alternativa de qualidade ao ensino presencial.