Alguém, um dia, fará o filme e parecerá irreal, mal contado: a história de um primeiro-ministro, outrora todo-poderoso, que termina a gritar com um cão que passa, os pombos, as árvores, as pedras da calçada, e já nada lhe obedece. Nada lhe responde.
No Brasil, o julgamento de Jair Bolsonaro divide o país; nos Estados Unidos, só a dimensão da vitória eleitoral teve o discutível condão de fazer esquecer os múltiplos processos envolvendo Donald Trump. Em Portugal, o julgamento de um antigo chefe de governo acusado de corrupção parece já não motivar o apoio ou escândalo sequer daquele saudoso movimento cívico “José Sócrates Sempre” (lembram-se?). Coisas talvez de nação velha e melancólica – como não lhe achar uma estranha beleza?
Será do timing? Do tempo passado sobre os factos? José Sócrates costumava suscitar toda a espécie de paixão. Nunca era discutido em debates mornos; sempre em lume alto, entre críticos ferozes e fanáticos fiéis. Deu a primeira maioria absoluta da história ao Partido Socialista, foi bandeira de uma suposta modernidade do país e da esquerda democrática para o século XXI, alimentou um culto à liderança que colocou o seu nome acima do do partido. Fez e desfez administrações de bancos, das maiores empresas do país, direcções de rádios, jornais e televisões. Teve a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal a não verem mal algum nas suspeitas que já então o envolviam, e meio Portugal, entre partido, simpatizantes e comentadores, durante anos em respeitoso silêncio ou a ir ainda ao beija-mão à cadeia, quem sabe à espera do quê. Até ao dia em que alguém decretou o fim do luto, ou da esperança numa qualquer reviravolta de filme. E um a um, antigos amigos, aliados e devotos começaram a demarcar-se, a desaparecer, até a arriscar uma crítica em público, a fingir que o outrora magnético líder não passava afinal de um parente tóxico muito afastado, com quem mal se tinham chegado a cruzar.
“Pornografia”, acusou ontem no tribunal. O que o procurador e o tribunal queriam era pornografia; ouvir mais uma escuta, fazer mais uma pergunta indecente, devassar-lhe mais a vida privada. A pausa para as férias de Verão nada mudou. Tentou talvez aparecer um pouco mais sorridente, ter mais três segundos de calma e simpatia para as câmaras de televisão, mas, simplesmente, não consegue. Revolta-se contra os jornalistas, contra o procurador, contra a juíza – no outro dia, até contra o sol que estava de frente. Mas quem é toda esta gente e o que querem dele? Porque é que querem saber de onde é que veio o dinheiro? Com quem falou quando era primeiro-ministro? E quando deixou de ser? E com que empresas reuniu? E com quem jantou? “Fui a casa de Ricardo Salgado, mas não jantei” é o novo “fumei, mas não inalei” versão política portuguesa. Ele não compreende, genuinamente. É um homem contra o mundo. Nem com o melhor amigo, que para tudo lhe emprestou dinheiro e que está a ser julgado no mesmo caso e que talvez lhe continue a emprestar, porque, doutro modo, não se percebe como conseguiria ele pagar tantos recursos, incidentes e anos de trabalho dos advogados, chega ao tribunal. Mas será que foi ele que mudou?
Houve um tempo em que procuradores e juízes decidiram a favor de José Sócrates. Em que banqueiros e grandes empresários gostavam de aparecer ao seu lado. Em que jornalistas e câmaras de televisão disseram e mostraram o que José Sócrates queria. José Sócrates sempre gostou de gritar e ser obedecido – e sente agora como verdadeiramente cruel e incompreensível que lhe tenha sido tirado esse poder, que já não lhe obedeçam; que, pelo contrário, o queiram obrigar a ele a cumprir ordens, respeitar o tribunal, não sair sem pedir autorização, responder ao que lhe é perguntado. Com que empresas reuniu? Com quem falou ao telefone? Que banqueiros visitou? Era o que faltava. Indecência. Pornografia. Tudo vida privada ou estritas missões de um ex-primeiro-ministro. O que vocês devem perguntar é o que eu vos disser que devem perguntar.
E no fim do dia, paira no ar a dúvida desconfortável: como teria sido se a justiça tivesse sido rápida? Se o julgamento tivesse ocorrido ainda sob o calor dos acontecimentos, no tempo em que os fiéis ainda não tinham corrido a pôr-se a salvo, quando o julgamento de um ex-primeiro-ministro teria, como em princípio deveria, feito parar o país? Ou haverá, afinal, alguma espécie de justiça perversa na lentidão?
Pornografia, disse ele. E de tão óbvia, repetida, desajustada, qualquer dia já ninguém pára sequer para olhar.