Todos queremos e temos de fazer pela retoma económica.

É urgente. É crítica. É uma questão de sobrevivência mesmo ainda durante a crise sanitária e assim que tivermos como mais seguro que temos a disseminação do vírus como controlado.

Não esqueçamos, porém, que cerca de 65% do PIB vem do consumo privado. E isso deve dizer quase tudo no que à retoma da economia diz respeito.

Ora podemos desenhar todo o tipo de estratégias para recolocar a economia a funcionar. Podemos definir os princípios básicos para mantermos a velocidade de propagação do vírus inferior a 1. Podemos dizer que os restaurantes podem funcionar, os hotéis, as viagens, os espaços públicos, com limitações, e por aí fora. Podemos abrir as portas dos centros comerciais. Podemos abrir as portas dos aeroportos e pôr aviões no ar (se tiverem onde aterrar). Podemos abrir ginásios. Podemos abrir, abrir, abrir. Abrir tudo. Até podemos começar a achar que a indústria que temos recomeçará amanhã a produzir calçado, a produzir vestuário, a produzir moldes, a produzir automóveis. Sem consumo privado, e neste caso adicional sem exportações, podemos esquecer a abertura do que for.

O que se tem verificado noutros contextos, China por exemplo, é que a retoma nos serviços tem sido muitíssimo ténue. Ora nós somos uma economia de serviços aberta ao exterior. Os centros comerciais, na China, continuam vazios, os restaurantes idem e as pessoas fogem umas das outras. A realidade é esta. Portanto, abrir, podemos abrir. Aliás, devemos abrir tudo desde que cumpridos um conjunto de regras básicas, como já foi dito por inúmeros comentadores.

Porém, há uma coisa que não conseguimos fazer. Retirar o medo que as pessoas já acumularam. O medo instaurado não se retira carregando num botão.

Houve muita interpretação, muita imaginação e sobretudo muita crença criada à força nestes últimos tempos. Houve muita desinformação. Houve muita infantilidade propagada pelas redes sociais. A dessensibilização sistemática do medo não se faz de Abril para Maio nem de Maio para Junho. O bloqueamento ou inibição das memórias do medo não se faz de um dia para o outro nem de um mês para outro. Não é possível. Não é uma questão económica. É uma questão humana. É a forma como o cérebro funciona. Ponto.

Podemos tentar pelo discurso eloquente e mobilizador das massas incentivar e galvanizar as pessoas. Podemos pela comunicação estimulá-las a desinibirem-se e a tentarem deixar o medo de lado. Não será fácil.

Porquê?

Porque são dois discursos opostos. O fique em casa e a dramatização criada, e bem, é um discurso radicalmente oposto ao discurso da confiança. Não se pode ao mesmo tempo dramatizar e pedir confiança. Não são discursos compatíveis. Podem apenas ser sequenciais. E, mesmo assim, temos de acreditar que o segundo, daqui a uns dias, será credível. Pior, a fazer-se, não trará seguramente consensos e dividirá a sociedade e, mais ainda, colocará os profissionais de saúde (entre outros) quase por certo em desacordo. E não podemos esquecer que são eles os grandes heróis que temos na linha da frente.

É por isso que por mais estratégias que existam para retomar a economia, por mais interessantes que sejam (e, atenção, eu sou dos que estão totalmente a favor da reabertura da economia), bem como as medidas associadas, todo o plano estratégico para a retoma tem de ter início num plano de comunicação à cabeça, a uma só voz (o que não será fácil), a um só comando, o que também não vai ser fácil, para redirecionar a população para novas medidas e, tão rápido quanto possível, dessensibilizar sistematicamente o medo.

Infelizmente, o medo não é uma variável direta do PIB. O medo, porém, terá um impacto mais duradouro do que suposto no consumo privado. Pelo menos até que haja um remédio ou uma vacina credíveis. Podemos estar a falar de meses ou mais de um ano.

O tempo para voltarmos a acreditar não será, pois, curto. E é bom que saibamos que o país vai ficar (espero que remediavelmente) completamente dividido.