Portugal tem mais mar do que terra. Esta realidade geográfica, tantas vezes evocada em discursos políticos e manuais escolares, esconde uma pergunta incómoda: o que fizemos, realmente, com esta vantagem? A chamada Economia Azul promete transformar os recursos marinhos em motor de desenvolvimento sustentável, mas Portugal continua a navegar entre o potencial e a concretização.
Neste artigo, fazemos uma viagem pelo estado atual da Economia Azul em Portugal, destacando o papel das Pequenas e Médias Empresas (PME) e questionando se estamos perante uma oportunidade por desbravar ou um sonho reciclado.
O que é, afinal, a Economia Azul?
A Economia Azul não é apenas uma moda ou um slogan. Trata-se de um conceito que integra todas as atividades económicas relacionadas com os oceanos, mares e zonas costeiras, desde os setores tradicionais (pesca, transporte marítimo, turismo) a setores emergentes (biotecnologia marinha, energias renováveis offshore, aquicultura sustentável).
O objetivo é claro: separar o crescimento económico da degradação ambiental. Em vez de explorar o mar como um recurso finito, a Economia Azul propõe um modelo regenerativo e circular. E Portugal, com uma das maiores zonas económicas exclusivas da União Europeia, tem aqui uma posição estratégica privilegiada.
Os números que importam
Segundo o Relatório de Monitorização da Estratégia Nacional para o Mar (DGPM, 2022), em 2021:
Existiam cerca de 40 mil empresas diretamente ligadas à Economia do Mar (cerca de 3% do total nacional). Estas empresas empregavam mais de 120 mil pessoas. O volume de negócios ultrapassava os 8 mil milhões de euros, representando 1,88% da economia nacional. O valor acrescentado bruto (VAB) gerado foi de 2,5 mil milhões de euros. Estes dados são encorajadores, mas deixam também entrever um problema: não obstante o discurso otimista, o peso da Economia Azul no tecido económico ainda é muto limitado.
O papel (in)visível das PME
As PME representam a esmagadora maioria das empresas neste setor. São responsáveis por gerar emprego local, introduzir inovação e responder com agilidade a novos desafios ambientais e de mercado. No entanto, enfrentam constrangimentos bem conhecidos: dificuldades de acesso a financiamento, baixa ligação com centros de I&D, falta de ecossistemas de inovação costeiros, burocracia e programas pouco adaptados à sua realidade.
Esta realidade levanta uma questão essencial: se são estas empresas que estão na linha da frente, porque continuam tão desprotegidas no desenho das políticas públicas?
O paradoxo da Conta Satélite do Mar
A criação da Conta Satélite do Mar em 2017 foi um passo importante para dar visibilidade estatística ao setor. No entanto, os dados têm sido escassos e pouco atualizados, limitando o diagnóstico científico e a formulação de estratégias baseadas em evidências. Como podemos promover um setor se não o conseguimos medir corretamente? Esta é uma das falhas estruturais que urge corrigir.
Um oceano de potencial
Apesar das fragilidades, o setor apresenta sinais de vitalidade e potencial: o turismo costeiro está em expansão, com uma contribuição crescente para o VAB do setor, a aquicultura e a biotecnologia marinha começam a ganhar relevância, embora careçam de apoio estratégico, a energia renovável offshore surge como uma grande oportunidade, ainda em fase de maturidade.
Mas tudo isto exige visão, planeamento e, sobretudo, articulação entre agentes: empresas, universidades, administração pública e comunidades locais.
Sonhar não chega
Portugal tem, no mar, um ativo geoestratégico, económico e simbólico de valor incalculável. Mas não basta proclamar o seu potencial. É preciso investir, coordenar e inovar. Neste artigo abrimos o leque de temas e lançamos um desafio: olhar para o mar com a coragem de o transformar num verdadeiro motor de inovação e prosperidade. Em próximos artigos, aprofundaremos como a inovação pode ser a chave para esta transformação e que modelos e parcerias podem fazer a diferença.
Afinal, estamos perante uma oportunidade por desbravar ou um sonho que teimamos em reciclar sem concretizar?