Graças à televisão e às plataformas sociais, temos assistido na primeira fila aos acontecimentos dramáticos que colocam em causa os valores que aprendemos a respeitar e que põem mesmo em risco a nossa própria vida. Para os amantes da História, para quem é conhecedor das voltas que o mundo já deu, por terrível que seja tudo o que está a acontecer, esta é uma oportunidade única para enfrentar ao vivo e a cores os acontecimentos transformadores, as rupturas históricas que estabelecem as grandes marcas no calendário. Mas também para reflectir sobre o que o futuro nos pode reservar, tentando não só perceber o que se passa, mas também estimular o nosso comportamento para melhor enfrentar a mudança.
Não é certamente a primeira vez que o mundo se desfaz. Inúmeras foram as vezes ao longo do tempo e da geografia em que a ordem estabelecida foi destruída e que o caos se instalou, enquanto uma distribuição renovada da autoridade política se impunha pela mão de novos líderes, com outras regras e valores. Como bem sabemos, uma das funções da História é preservar o conhecimento do que os homens foram capazes de fazer, pelo que comentadores, políticos e jornalistas não se têm cansado de falar agora da Alemanha dos anos 30 do século passado, quando um homem surgido do nada, propulsou uma corrente política com ideias e preconceitos simples que estavam mesmo à margem do que era considerado civilização. Esse movimento conquistou os espíritos e tomou conta da sociedade alemã, porventura a mais culta e sofisticada do seu tempo, levando-a a um estado de loucura assassina, que, sem desculpa para ninguém, foi amplamente assumido e participado pela população em geral. Nunca esquecer que o inesperado também faz parte do destino. Prosseguindo os ensinamentos da História, não se passa hoje um dia sem que não se fale de Munique em 1938, quando as supostas potências da força, da razão, da economia ou mesmo da guerra, se ajoelharam por medo e cobardia perante esse fenómeno inesperado que já galvanizara os espíritos para além da própria Alemanha. Ingleses e Franceses, senhores da guerra e da paz no mundo, tomaram mesmo a iniciativa, nessa altura, de tentar convencer as pobres vítimas do predador nazi, a Checoslováquia e a Polónia, que o melhor era mesmo consentir no suicídio. Munique 1938 foi uma vergonha amarga que Churchill lavou com sangue, suor e lágrimas. Com estas referências, parecia que os paralelos desse período com o que se passava hoje, se assemelhavam de tal modo que a possibilidade de a História se repetir era mesmo uma fatalidade. Mas afinal a repetição nunca é perfeita e Trump veio misturar os géneros, já que no século passado os EUA não alinharam com Hitler para conquistar a Europa e destruir o mundo democrático. Neste início do século XXI, os historiadores vão ter de acumular mais matéria de facto no seu esforço para compreender o que a espécie humana pode fazer.
Neste vórtice global, em que as crateras dos vulcões se preparam para nos engolir a todos, que podemos fazer nós, os Portugueses, um povo cuja grandeza, embora incrustada num canto discreto do nosso ADN, já não é uma realidade há muito, muito tempo? Seremos, hoje, apenas pequenos e pobres sem meios e sem voz? E se a História é uma ferramenta poderosa para vencer o presente, será que nós não temos nada a dizer, nós que abrimos o mundo ao mundo, nós que quebrámos uma realidade europeia que vivia fechada sobre a sepultura do Império Romano e que ajudámos a criar o mundo moderno? Nós, que com recursos limitados fomos capazes construir diálogo e relações económicas duradouras com potências do outro lado do planeta? Nós, que, de algum modo, conseguimos limitar o ódio do colonizado, ao contrário do que aconteceu com as potências coloniais que nos sucederam, nomeadamente os Ingleses e Franceses? Não seremos nós testemunhos de relacionamentos que possam inspirar quem anda agora de bússola perdida?
Esta não é uma questão de retórica ou de nacionalismo bacoco. Temos uma longa História, e seria nossa obrigação tirar dela o devido conhecimento e aproveitar os ensinamentos úteis. Queremos, naturalmente, como qualquer outro povo, sobreviver num mundo que seja amigo, não só da Terra, mas sobretudo do Homem. E quando por esse mundo se opina sobre o que se passa — perorando sobre riscos imaginados ou os ensinados pela História, adiantando pródigos conselhos para as soluções necessárias – onde está o contributo Português?
Incompreensível é o nosso afastamento de um debate público de algo que vai mudar a vida das próximas gerações. Um debate para o qual, até pela nossa memória colectiva, estaremos provavelmente mais bem preparados do que pensamos. Por onde podemos começar? Porque não nos preocupamos em definir o que entendemos por protecção? Onde está a política de defesa nacional? O que esperamos da Europa? O que devemos fazer na Europa? O que nos espera se a Europa se desfaz? Viveremos felizes governados por Moscovo ou Pequim? O que podemos e devemos fazer em nome de uma soberania quase milenar? O que poderá acontecer no futuro aos nossos cidadãos e aos que vieram até aqui em busca de abrigo ou sustento? Que testemunhos, acções ou apenas palavras sensatas poderemos partilhar com o mundo? Será que Portugal ainda existe?
Enquanto vamos andando desamparados a caminho do desconhecido – que assume insistentemente conotações apocalípticas –, os meios de comunicação e os partidos do burgo enchem alegremente as nossas cabeças com desafios e fantasmas que se esgotam nas escadarias de S. Bento. Na realidade, alimentamos emocionados fogueiras que só servem para consumir o tempo que já não temos.
Podíamos, e devíamos, fazer melhor.