Numa altura em que metade do país já só quer sair da fila das urgências ou da repartição de Finanças, a Iniciativa Liberal decidiu atacar o preâmbulo da Constituição. Reformismo à flor da pele, versão PowerPoint.
Quando o país pede reformas, não basta parecer moderno. É preciso liderar.
É certo que a IL tem o eleitorado mais qualificado, urbano e economicamente activo. Vence nos gráficos, nas universidades e nos grupos de WhatsApp com gente que lê o Orçamento. Mas se olharmos distrito a distrito, a realidade é dura: fora de Lisboa, Porto e Braga, a IL vale o mesmo que uma boa TED Talk partilhada entre amigos.
O problema não está nas ideias. O programa de 2025 é o mais sério e coerente que o partido já apresentou. Reformas realistas na saúde, educação, justiça e habitação. A obsessão pela flat tax ficou no passado. Entrou a exigência, a literacia digital, a reabilitação urbana.
A IL deixou de ser um think tank com boletim de voto.
Mas ideias boas não bastam. É preciso saber aplicá-las, e para isso é preciso disputar o poder. E aqui está o verdadeiro bloqueio: a IL continua a comportar-se como um partido que tem medo de sujar os sapatos. Recusa o Chega, ignora o PS e não sabe o que pedir à AD. Resultado: nem governo, nem influência. Um partido neutro em campo com a camisola dobrada na bancada.
A tentativa de revisão constitucional é o caso perfeito. A IL podia usar a rara maioria de 2/3 para lançar um debate sério sobre a reforma do Estado — menos burocracia, sistema eleitoral mais justo, justiça mais rápida. Mas preferiu começar pelo preâmbulo. Literalmente pela primeira linha da Constituição.
Trocar a oportunidade histórica por guerra simbólica é política à TikTok.
E os media reagiram como seria de esperar. Uns apontaram a novidade da maioria à direita. Outros soaram o alarme sobre “aventuras revisionistas” e alertaram para a proximidade indesejada do Chega. Resultado: Ventura manda cartas, os jornais fazem títulos, e a IL aparece como figurante num processo que podia — e devia — liderar.
O eleitor que a IL precisa de atrair não quer revoluções nem nostalgias. Quer um Estado funcional, uma justiça eficaz, menos impostos escondidos e mais transparência. Quer que alguém diga: “Sim, estamos aqui para reformar, com quem for preciso, sem perder a bússola”.
Quem tem medo de governar não pode querer mudar o país.
A IL não precisa de fazer alianças com o Chega — basta que se deixe colar a ele, e perde metade dos votos que ganhou nos centros urbanos. Também não precisa de se render ao PS — mas podia, por exemplo, convidar todos os partidos a discutir os artigos onde há consenso técnico. Mostraria maturidade, visão institucional e verdadeiro serviço público.
A política não é uma luta entre puros e impuros. É negociação com propósito. A IL pode liderar uma revisão constitucional que simplifique o Estado e reforce liberdades. Mas tem de sair do conforto digital e começar a actuar como partido com ambição de governar — e não como grupo de estudos que espera que alguém implemente as suas ideias.
Portugal está farto de partidos que prometem mundos e fundos, e depois se escondem atrás de barricadas ideológicas. Está cansado da retórica dos indignados e da inércia dos resignados.
Está à espera de quem entre para mudar — e não para comentar.
Ou a IL se torna protagonista do reformismo, ou continuará a ser nota de rodapé na margem direita da política portuguesa.