Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Ao longo dos últimos anos, motivado pelo crescente poderio económico da China e por um elevado consumo do mercado sínico, temos vindo a acompanhar um aumento exponencial nos preços de várias matérias-primas alimentares, com especial destaque para a carne de porco, que é a principal fonte de proteína animal na cozinha chinesa, sendo o país do Sol Nascente consumidor de mais de dois terços da carne de porco existente em todo o mundo. Durante o ano de 2020, o preço desta carne teve um aumento de 97%, enquanto a generalidade dos produtos alimentares viram o seu valor aumentar em 17,4%. Em Janeiro de 2021, os preços dos alimentos aumentaram pelo oitavo mês consecutivo, atingindo o nível mais alto desde Julho de 2014. Sendo o mercado composto por mecanismos de acção/reacção, será de esperar que os preços continuem a subir nas prateleiras dos super e hipermercados.

Num momento em que a economia mundial se encontra em contraciclo, fruto de uma pandemia sem precedentes nos tempos modernos, e num momento em que muitas famílias viram os seus rendimentos diminuir de forma drástica, este incremento de preço dos bens essenciais seria, por si só, uma má notícia. No entanto, a realidade é ainda pior.

A pandemia da Covid-19 veio esclarecer, de formal cabal, alguns conceitos da economia moderna. Aquilo que até agora muitos entendiam como um conceito puramente teórico, a Economia Circular, veio revelar-se como o meio de funcionamento absoluto do capitalismo actual, onde uma onda – por mais pequena que seja – pode levar ao aparecimento de milhares de ondas de maiores dimensões. O melhor exemplo disso é que o grande aumento do preço de bens alimentares a que assistiremos durante o ano de 2021 – e seguintes – se deve, essencialmente, ao colapso da indústria automóvel.

A indústria automóvel foi, dos sectores industriais, o mais afectado pela pandemia e pela minoração de capital líquido a circular nas economias locais. Esta indústria é um dos principais consumidores de polímeros de plástico, os quais utiliza em grandes quantidades para compor os enchimentos das estruturas dos veículos. A contracção deste mercado levou a que os produtores de plástico, a nível mundial, reprimissem a sua produção de imediato, provocando uma escassez deste polímero, que é, ao mesmo tempo, o principal material de embalagem consumido pela indústria alimentar. Esta escassez provocou, obviamente, um aumento exponencial do preço do plástico PE e PEV – desde Janeiro de 2021, houve um aumento superior a 40% – que é alocado à indústria alimentar a preços exorbitantes, imediatamente após a sua produção.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Para além do aumento de preço da carne e restantes matérias-primas, e do encarecimento dos polímeros de plástico, vem-se juntar também um acréscimo do preço do material de cartonagem alimentar, fruto da escassez de transformação de papel. Indústria na qual as fábricas de pequena dimensão assumiam um papel central, tendo muitas delas encerrado portas devido à crise provocada pela Covid-19.

O conjunto destes factores levará a que, num momento de crise mundial, em que as famílias viram os seus rendimentos diminuir, os bens de primeira necessidade, principalmente alimentícios, terão um aumento de preço considerável.

Compete aos governos e ao sector privado, em confluência de interesses, encontrarem uma solução para uma crise económica e social sem precedentes numa sociedade descapitalizada monetariamente e desgastada psicologicamente.