Dois debates depois, confirma-se que estas “primárias” nunca foram mais do que um perigoso entorse às regras de funcionamento de um dos dois principais partidos políticos portugueses. Propõem-se elas substituir de um momento para o outro o líder do PS por um “partido do líder”, para usar de novo a expressão de Nadia Urbinati acerca do actual primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, conforme aqui fiz a propósito da candidatura de António Costa ao lugar estatutariamente ocupado por António José Seguro. Para nos darmos conta do que se está a passar, imagino que não fui só eu, sem nada ter a ver com os problemas internos do PS, o sondado por telefone e por mail para apoiar ora um ora outro dos candidatos! Na realidade, tratava-se de uma dupla e onerosa campanha publicitária como nunca se vira entre nós na vida política!

Entretanto, houve eleições para as federações do PS e, apesar de uma magríssima vitória de Costa, Seguro teve mais votos do que ele. Basicamente, o partido está rigorosamente dividido ao meio. Mais, contados os votos, verifica-se que a representatividade efectiva do PS é escassíssima. Numa disputa como esta, num momento crucial da vida do partido, apenas umas dezenas de milhar de votantes se mobilizaram, mas é deste modo que a vontade deles impõe o PS à votação de um país inteiro. O mesmo se passa aliás com a restante oferta partidária. Não admira, pois, que a abstenção seja cada vez mais elevada e que Portugal seja governado por pessoas com uma fraquíssima implantação na sociedade.

Voltando às “primárias” do PS, assim é fácil virar o partido, sobretudo com o apoio maciço da comunicação social que desde a primeira hora investiu António Costa com o “carisma” de um futuro primeiro-ministro. Ao optar pelas “primárias”, Seguro equivocou-se; mais valia ter ficado agarrado aos estatutos. Quanto aos debates, vão contar pouco, como de resto sempre contaram pouco nas decisões eleitorais portuguesas. Estando os candidatos empatados nas federações do partido, serão portanto os “simpatizantes” – que ninguém sabe quem são nem o que são: muitos terão recebido telefonemas e mails como eu – quem elegerá Costa, fazendo assim do PS “o partido do líder” carismático previamente indicado pela comunicação social. É isto aliás que tem vindo a acontecer nos partidos socialistas da Europa do Sul, que estão a adoptar o método das “primárias” para contornar as suas enormes dificuldades internas perante a crise prevalecente nestes países.

A legitimidade das “primárias” já é escassa, sobretudo quando são anunciadas da manhã para a tarde como no caso do PS, mas defrontam-se além disso com a questão das verdadeiras primárias nacionais que são as eleições legislativas. Com efeito, corra o último debate como correr, Costa vai com certeza ganhar o PS, como previsto pelas sondagens, com o apoio de uns milhares de simpatizantes cujo perfil ninguém controla. Mas serão estas pessoas representativas do eleitorado português? Tudo leva a crer que não.

Num artigo do “Público” (10 do corrente), o socialista João Cardoso Rosas não hesitou em escrever que “a linha de corte entre apoiantes de Costa e de Seguro tem muito mais a ver com outro tipo de amizades e solidariedades do que com a divisão esquerda-direita”. Na realidade, a natureza social da fractura entre Costa e Seguro não é muito diferente da que opõe os antigos barões do PSD a Passos Coelho. Em todo o caso, a haver dúvidas, são remetidas para daqui a um ano.

Ora, até lá, a soma das duas candidaturas em luta no PS arrisca-se muito, pelo que temos vindo a ver, a ser inferior àquilo que o partido poderia ter arrecadado sem o espectáculo das “primárias”. Como era de temer, os debates foram pouco esclarecedores mas, sobretudo, pouco edificantes. A briga entre os candidatos era demasiado evidente. Seguro não perdoa a Costa e este age e fala como se já tivesse ganho, coisa que provavelmente acontecerá mas à qual ninguém gosta de assistir. Para o enorme eleitorado que ainda não tomou a sua decisão de voto para 2015, a pedra de toque é a da política de alianças e, a este respeito, a inopinada alusão de Costa a uma futura liderança de Rui Rio à frente do PSD, com o qual se poderia então aliar, abriu o caminho às teorias conspiratórias que têm rodeado, desde o início, o súbito e pouco fundamentado aparecimento da sua candidatura… Ficámos cientes!

Quanto ao demais, que não é pouco, o que vem à mente é perguntar quem acredita nas promessas de um Costa se nem o seu companheiro de há escassos meses lhes dá crédito e quem acredita num Seguro se Costa sorri ironicamente quando ele fala? Mais: quem tem confiança num PS cujos dois principais dirigentes, além de pertencerem a duas escolas de funcionamento muito diversas, divergem ao mais alto nível em tudo de importante, sem exagero, desde o défice à dívida e dos impostos ao crescimento? E não é de crer, antes pelo contrário, que os próximo capítulos sejam mais esclarecedores nem mais edificantes!