Em 1940, Hitler tinha um plano para invadir a Península Ibérica. Na realidade, o objectivo seria Gibraltar e Portugal, à semelhança do que pretenderam os franceses em 1807. Se há coisa que a história não consegue mudar é a geografia. A operação Félix não se concretizou por razões que não cabem aqui, mas nascia de um desenho. Ou melhor, de um plano germânico que separava o mundo em diversas zonas de influência, mais especificamente quatro: o continente americano, dominado pelos EUA; a Europa, debaixo da asa da Alemanha; a Ásia central, que chegaria à Polónia, dominada pela Rússia e o Extremo Oriente, sob a alçada do Japão.

Evitar a operação Félix (e um ano depois outra chamada Isabella) foi, nesse período, o grande objectivo de Portugal. Em jogo estava a sobrevivência do estado e a vida dos portugueses. Mas também uma das preocupações da Grã-Bretanha, porque a tomada de Portugal e de Gibraltar por uma potência continental significava o domínio da entrada no Mediterrâneo. Além disso, a conquista dos Açores permitia que Berlim cercasse Londres e ficasse a meio caminho de Washington. Foi este peso estratégico da península que garantiu a neutralidade portuguesa na guerra. O valor estratégico era de tal forma elevado que a melhor opção para os dois lados em confronto acabou por ser não forçar Portugal e Espanha a uma escolha.

Fui buscar este exemplo por uma razão simples: no plano alemão, o Atlântico tornar-se-ia numa fronteira entre a zona de influência norte-americana e alemã. Ao contrário do que sucedeu com a vitória dos aliados em 1945, e que se manteve desde então, Portugal não ficaria no meio do Ocidente, mas na ponta de uma Europa dominada por Berlim. Se isso não aconteceu foi porque as duas potências marítimas (Reino Unido e EUA) não cederam. Tal como aquando das invasões francesas, em 1940 Portugal precisou de um aliado marítimo mais forte que o protegesse de uma invasão terrestre.

Por incrível que pareça, Portugal corre o risco de passar pelo mesmo dilema de 1807 e de 1940. Só que desta vez a ameaça pode ser mais grave ou requerer da nossa parte muita imaginação estratégica. Porquê? Para se responder a esta pergunta precisamos de determinar de onde vem a nova ameaça. E esta surge de dois lados porque, embora de dimensões e com alcances diferentes. Da Rússia, que é hoje a potência continental que a França foi no início do século XIX e que a Alemanha conseguiu ser na Segunda Guerra Mundial. E dos EUA, porque a Administração Trump pretende dividir o mundo em zonas de influência, dentro das quais cada potência exerce o seu poder absoluto. Com os interesses imediatos da América em primeiro lugar, os EUA centrar-se-iam no continente americano, a China dominaria a Ásia (a Índia está longe de poder contrariar seriamente Pequim) e a Rússia, além da sua vasta extensão territorial, ficaria com parte da Europa de Leste. Assim, os EUA fariam o que quisessem da Venezuela, a China de Taiwan e a Rússia da Ucrânia. A pressa para o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia justifica-se com esta necessidade de separar as águas e libertar esta América para o que lhe convém: ter o seu canto do mundo no qual manda sem freios.

No meio disto há zonas de fronteira. E uma delas é o Atlântico. Ou seja, tal como poderia ter acontecido em 1940, Portugal pode ficar na ponta de um continente à mercê de uma constante ameaça russa. De uma Europa de vários estados enfraquecidos frente a uma Rússia expansionista.

A pergunta que não me sai da cabeça é esta: qual é a potência marítima que nos vai ajudar? Sem os EUA e com um Reino Unido enfraquecido, quem é que vai garantir a nossa independência? Podemos confiar numa futura União Europeia com força militar, mas esta, a existir, será liderada por potências continentais, como a França e a Alemanha. Mais do que fazermos juízos de valor sobre o que Trump é ou deixa de ser, os próximos anos, talvez décadas, vão ser marcados por esta necessidade de nos protegermos e pelo esforço incomensurável que teremos de fazer para nos mantermos à tona.

Se a Europa não for capaz de confrontar a Rússia e de a conter, o mais provável é que, como sucedeu com os nossos antepassados no início do século XIX e no princípio da Segunda Guerra Mundial, vamos ter de escolher se ficamos com o continente ou se nos entregamos nos braços de uma potência marítima. Basicamente, vamos ter de nos perguntar: qual é o nosso maior aliado? Quem está em melhores condições para nos defender? Por enquanto só estou a ver os EUA. A aliança com a Inglaterra não foi fácil e custou muito dinheiro e comportou demasiadas cedências. Sem a integração da Europa (como sucede com a NATO), um acordo com estes EUA não será diferente e as nossas ligações a África e ao Brasil vão ter de se fortalecer. Mas a vida também é isto: uma luta pela sobrevivência.

P.S.: ‘Sá Carneiro – Solidão e Poder‘, de Maria João Avillez, é um importante registo histórico de uma personagem, mas também de um período. Tem a particulariedade de ter sido escrito pouco depois da morte do primeiro-ministro, pelo que traduz muito do que se sentiu na altura. Um vazio, um sentimento de incredulidade pela perda, não só da pessoa mas também de um projecto político e de uma visão de país que deixou de se escrever. Ficou o livro que li há uns anos e que Maria João Avillez aceitou reeditar, 45 anos depois de Camarate. Ainda bem. Até porque há quem se proclame herdeiro do ex-primeiro-ministro ao mesmo tempo que tem em Ramalho Eanes o seu modelo de presidente. Nesse sentido, nunca é demais recordar que o último combate político de Francisco Sá Carneiro foi contra António Ramalho Eanes. Sim, esse presidente com quem ele não suportava a ideia de ter de trabalhar.