A bem ou a mal, o Estado Novo tinha um plano e o 25 de Abril outro. Aliás, tinha dois até o 25 de Novembro se decidir por um deles. O Portugal de Salazar era um país pobre que tinha um império. O Portugal do 25 de Abril, após o 25 de Novembro, era um país europeu que reforçava a visão global da Europa. No entretanto, recebíamos fundos de Bruxelas e faríamos os possíveis por nos desenvolvermos. A partir da década de 80 fomos inundados por duas mensagens políticas: uma, que nos íamos finalmente desenvolver ao ponto de não precisarmos mais de um império; outra, que seríamos europeus. Foi o início de uma nova fase, a europeia.
Nessa altura, a Europa era o modelo para tudo. Para o estado social, para a qualidade de vida, para a cultura, a educação, a saúde, as pensões, a igualdade e a democracia. Nessa Europa vivia-se bem sem as desigualdades e a violência que existia na América. Claro que essa Europa era a ocidental. Era muito específica. Se tivermos em conta o continente no seu todo, a que se soma a sua história, facilmente concluímos que era uma Europa muito condicionada. De certa forma, nem sequer era verdadeira. Era uma Europa muito específica num contexto internacional muito preciso. Uma Europa que sofria por estar dividida em duas, mas cuja divisão a protegia dos desequilíbrios que normalmente vêm de leste.
Essa Europa foi posta em causa em 1989 e o seu fim formal deu-se com o alargamento da União Europeia para leste, em 2004. A partir desse momento, a UE deixou de ser um grupo restrito de estados marítimos com ligações atlânticas. Encheu-se de interior e dos seus problemas. Quando, em 2011, José Sócrates deitou a toalha ao chão e pediu ajuda externa, a UE ainda estava nesse processo de transição. Putin invadiu a Geórgia em 2008 e a Crimeia em 2014. O foco europeu ainda estava no sul do continente, na Grécia, na Itália, em Espanha e em Portugal. Em 2025 já não é assim. Em 2025, a UE está preocupada e virada para Leste. É lá que estão os conflitos, é de lá que vêm os problemas e é para lá que devem ir os recursos necessários para os confrontar, nomeadamente, o investimento em defesa.
Ou seja, a Europa deixou de ser o que era nos anos 80 e 90: um paraíso. Voltou a ser uma potencial fonte de sérios problemas. A título de mero exemplo, o governo português congratula-se com a queda da dívida pública. É uma notícia excelente, mas que não nos deve dar espaço para grandes euforias. Porquê? Simplesmente, porque verdadeiramente a dívida pública não está a descer. Está é a crescer mais devagar que o PIB. Ou seja, se o PIB cair ou se o seu crescimento abrandar, o endividamento crónico regressa, pois, o problema de fundo (um Estado desadequado às realidades deste século) continua sem que se faça nada para o resolver. Com um agravante que é, desta vez, a UE não estar em condições para nos acudir como em 2011. Daí que seja urgente perguntar: qual é, desta vez, o plano? Como é que vemos Portugal daqui a 20 anos? Como é que o posicionamos? Qual vai ser a nossa nova identidade?
A resposta não é fácil e não significa que sejamos piores neste tipo de análises e escolhas que os nosso antepassados. Quando chegou ao poder, Salazar socorreu-se de uma ideologia que a maioria considerava capaz e suficientemente competente para substituir o regime liberal do século XIX que estava em crise. Nos anos 70, o Estado social europeu era um modelo consolidado. Não havia muito que inventar ou pensar. Apenas aplicá-lo em Portugal, o que requereu da parte Soares, de Sá Carneiro e de outros muita coragem política. Houve combate político sério, mas os políticos dos anos 70 não andavam perdidos. A ordem mundial estava estabelecida há muito e a escolha reduziu-se ao lado barricada em que ficávamos.
Hoje não é assim, com o mundo a sofrer uma tremenda alteração no seu equilíbrio. Em última instância, a UE pode desagregar-se ou caminhar para um estado federal. Qualquer destas duas possibilidades, apesar de extremas, são possíveis. Se a opção federal se impuser, qual será a nossa mais-valia que distinga Portugal na Europa e no mundo? Se a UE se desintegrar, onde e como é que nos vamos posicionar? Se tudo se mantiver igual, como é que podemos contribuir para que a presente instabilidade seja ultrapassada? Perante qualquer dos cenários é indispensável que ponhamos mãos à obra e pensemos o que queremos para o futuro, como gastaríamos que Portugal fosse nos próximos anos.