Os ainda (poucos) apoiantes do eng.º José Pinto de Sousa, conhecido por José Sócrates para a política, acusam quem faz julgamentos sobre a sua pessoa e as suas atitudes. Ouvi várias críticas por eu ser “católico” e não o perdoar, aqui entendem “perdoar” de forma muito ampla. A primeira nota é que se tenho de perdoar é porque alguma ele fez. A segunda é que a tradição é que para serem perdoados os “pecadores” têm de pedir perdão e assumir as culpas; a terceira é que, no Evangelho, não me lembro de Cristo dizer para sermos parvos. Aliás o exemplo mais intenso sobre o seu “pensamento” é quando expulsa os vendedores do templo, à paulada.
Há aqui um erro profundo de análise, é que temos não só o direito de julgar como o dever. Há um conceito cristão, de sempre, que é o do “exame de consciência”. Um exercício para ser feito com a frequência possível, idealmente ao final de cada dia. Nesse exame é suposto olharmos para as nossas atitudes passadas e confrontá-las com o ideal cristão (as positivas e as negativas). Ora nessa análise olhamos para nós e para a nossa circunstância, a envolvente, nós e os outros. E nesses outros há exemplos, dos bons e dos maus. Essa análise chama-se discernimento, palavra tão usada pelos últimos Papas. O próprio termo vem do Grego e significa “julgamento” ou “distinção”!
Uma coisa diversa é condenar os erros, dos outros, nomeadamente do ex primeiro-ministro. Isso, para um cristão compete ao “Tribunal Superior”, Aquele a quem somos chamados e para Quem não podemos usar manobras dilatórias, nem mentir, este Juiz é omnisciente. E para os democratas em geral compete aos tribunais a condenação.
Com a encenação (a saída) feita pelo Dr. Pedro Delille, foi nomeado um novo advogado da causa e que é cego. É uma extraordinária metáfora, esta defesa não precisa de ver, precisa de criar emoção, e como a justiça é cega a capacidade visual dos “actores” talvez nem seja necessária.
Para o comum dos mortais, que vêem os outros mortais serem julgados em meses não em anos, isto não é justiça, a justiça é representada por uma balança com 2 pratos, num desses pratos têm de ser colocados os direitos dos acusados, mas no outro os direitos de todos nós, da res publica, de não sermos gozados, sobretudo quando o que está em causa são acusações de corrupção, ou seja, de apropriação de dinheiro público, nosso.
Resumindo, posso julgar e o meu julgamento não é nada bom.
Outro julgamento que comecei a fazer recentemente é sobre o conceito de amizade. Tenho amigos de toda a vida, outros mais recentes. Outros que perdi ou que me perderam, mas por norma pela distância e a passagem do tempo. Mantenho amigos que andaram comigo no infantário há 60 anos atrás. São todos perfeitos? Não. Há de todas as tendências políticas, de extremo a extremo. Há-os que já tiveram problemas com a justiça. Os que estiveram muito em cima e também muito em baixo. Os que atravessaram doenças. Mas as amizades mantiveram-se, como as visitas, em particular quando estão “em baixo”.
A bússola moral está avariada em muita gente. A religião cristã define azimutes, S. Mateus (25-43) resume: fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram.
A ética republicana, tão apregoada, não é a mesma coisa. Laico, republicano e socialista, a trilogia apregoada pela maioria da esquerda dá-nos mostras:
Fernanda Câncio, jornalista que se considera com bom discernimento (creio), andou com “essa pessoa”, fez férias com ele, perdão, com “essa pessoa”, deixou que lhe pagassem todas as despesas, mesmo em notas. No dia em que “essa pessoa” foi presa nunca mais foi vista lá perto.
O casal Silva Pereira, a cujo filho, “essa pessoa” pagou as despesas e acolheu em Paris, também desapareceram quando foi preso.
O Ex-primeiro-ministro António Costa, que foi ministro de Estado e da Administração interna do governo de “essa pessoa”, só o foi ver quando pressionado e empurrado, por uma e única vez.
A lista é longa e pouco abonatória. Os delitos das pessoas não se pegam. Mais uma vez a diferença entre os laicos republicanos e os católicos é enorme. Os católicos, seguem os ditames escritos em Mateus, organizam-se em grupos e visitam presos. Presos que não conhecem com quem também “nuca tiveram vida ou contas em comum”, apenas para dar algum conforto a quem está só e abandonado. Ao contrário arranjam amigos nos presos a quem tentam ajudar quando são libertados.
Há de facto enormes diferenças entre quem estrutura os princípios, quase sempre desde a infância, pelos ditames da Igreja e os que o não fazem. E destes há a vontade de acabar com as aulas de moral para as substituir por “cidadania”. Não me parece que a “cidadania” consiga ajudar a discernir entre amizade e interesses.
Nota final, o ordenado médio em Portugal é hoje de 1310€. Quando sabemos que uma ex-amiga de um ex-primeiro-ministro, só por essa razão, há 10 anos recebia 5000€ por mês para dizer umas larachas, e nem sabia onde era a empresa, percebe-se como o “populismo” tem um terreno fértil, adubado e regado para que possa crescer e muito.
Vejo hoje com mais nojo os “amigos” que o réu.