Todo armado em bom, prego no Domingo passado acerca do dever cristão de vivermos diariamente deslumbrados por Jesus. Menos de 24 horas depois, na madrugada de segunda-feira, sou sacudido às 5h da manhã pela minha filha Marta que entra aflita no nosso quarto num pranto desalmado. Ao deitar-se na nossa cama, apercebermo-nos de que as dores que aponta no fundo da barriga são severas. A Rute olha para mim e diz que vai chamar uma ambulância. Tento ajudar a minha filha a controlar a respiração, já que nem água conseguia beber. Sou, naturalmente, um pai não longe de desesperar.

A ambulância terá demorado 10, 15 minutos. A bombeira que examina a minha filha desconfia de “cálculo renal”. Uma pedra nos rins será de facto descoberta numa ecografia mais tarde, não sem antes a Marta passar duas horas dolorosas sem medicação, na sala de espera do hospital São Francisco de Xavier. A Rute, que foi com ela, só é rendida por mim quando vou ao encontro delas, por volta das quatro da tarde. Regressamos com a Marta medicada e exausta.

Durante o tempo do sofrimento da minha filha, que fiz eu da mensagem que tinha pregado cheio de certezas no dia anterior? Como é que o Tiago pregador de Domingo deu lugar ao Tiago de segunda-feira? Como me deslumbrei eu em Cristo enquanto a minha filha sofria? Se for sincero, não sei responder em linha recta. Mas vou tentar responder com fé, o que talvez não seja exactamente o mesmo.

O Deus em que creio revela-se nas páginas da Bíblia como um Pai que vê o seu Filho sofrer. Mais ainda. O sofrimento do seu Filho faz parte do processo de encarar o pior que a vida tem para se poder chegar a algo melhor. Sim, por cruel que possa parecer, tenho fé em que os momentos horrorosos podem encontrar uma espécie de reciclagem espiritual, quando os atravessamos confiando nesse tal Deus que se quis colocar na posição de Pai que sofre. Não é que sofrer seja bom. Ninguém quer sofrer, mesmo que tenha fé. Não acredito numa salvação pelo sofrimento mas acredito que a salvação não acontece imune a ele. A questão é, por isso, outra: sofrer não tem de pertencer ao monopólio do mal.

É claro que quando vejo a minha filha a sofrer me sinto capaz de meter toda a minha bela teologia no lixo, se com isso a pudesse poupar. Sentia zero deslumbramento em Cristo quando a ambulância a levava de casa às 6h da manhã. Mas depois, com outra paz, recordava que os meus sentimentos não eram de todo originais: o próprio Deus em que creio viu o seu Filho pior do que na ambulância. Viu-o morrer quando podia evitar toda aquela tragédia. É este ponto que no cristianismo tantos consideram misterioso, maravilhoso ou, pelo contrário, obsceno.

Saber que Cristo é deslumbrante por vezes sossega-me ao Domingo e frustra-me à segunda-feira. Eu estou no lugar de crer, à grande ou à rasca; Deus está no lugar de me atender, como bem entender—Jesus sabe o que é estar nos dois.