Um amigo dizia muitas vezes uma frase que, apesar do tom de brincadeira, sempre teve uma inquietante dose de verdade: “Se deveres algum dinheiro ao banco e não pagares, tens um problema. Recebes cartas ameaçadoras, juros, penalizações e despesas atrás de despesas. Mas se deveres milhões, então o banco é que tem um problema. Recebe-te na sede, serve champanhe francês, oferece um charuto e pergunta calmamente como podes pagar.”
A ironia da frase esconde uma realidade desconfortável: quanto maior o incumprimento, mais suave parece tornar-se o tratamento dado ao incumpridor. O valor da dívida, em vez de agravar a condenação moral, quase a atenua. O pequeno devedor é pressionado; o grande devedor é negociado. E este paradoxo não se limita ao sistema financeiro. Repete-se, vezes sem conta, na forma como a sociedade olha para o crime.
Se um pobre diabo roubar para comer, ou para alimentar um vício que lhe destruiu a vida, dizemos sem hesitação: roubou, furtou, cometeu um crime. As palavras são duras, directas, sem filtros nem delicadezas semânticas. Mas quando o ilícito sobe de valor e muda de ambiente social, o vocabulário transforma-se milagrosamente. Já não há roubos, há “desvios”. Já não existem furtos, há “desfalques”. Se o autor usar gravata, tiver um cargo público ou uma cadeira num conselho de administração, o crime ganha maquilhagem linguística. O acto deixa de ser brutal para passar a ser “irregular”. Parece quase um acidente administrativo. A linguagem tornou-se um instrumento de protecção social para determinadas elites.
Masagora surge uma nova categoria de privilegiados: os activistas que tudo podem, porque actuam em nome de uma causa considerada “superior”. E aqui, mais uma vez, a comunicação social tem tido um papel absolutamente decisivo na suavização dos factos. Ainda recentemente, várias notícias referiam-se como “incidente” ao ataque falhado contra a Marcha pela Vida, em Lisboa. Um indivíduo lançou um objecto incendiário na direcção de mulheres, crianças e bebés presentes no encerramento junto à Assembleia da República. Em qualquer outro contexto, talvez víssemos títulos com palavras como “ataque”, “violência política” ou até “terrorismo”. Mas, aparentemente, tudo depende de quem pratica o acto… e da agenda que o acompanha.
Já esta semana, activistas climáticos decidiram entrar numa grande superfície em Lisboa, retirar alimentos e produtos de higiene sem pagar e distribuí-los numa banca improvisada, em protesto contra os lucros das grandes superfícies e contra aquilo a que chamam “guerra fóssil”. Ora, a distribuição seria louvável se os bens tivessem sido comprados pelos próprios. Solidariedade não é pegar no que pertence aos outros e baptizar o acto de “justiça social”. Um roubo continua a ser um roubo, mesmo quando vem embrulhado em cartazes coloridos, slogans revolucionários e hashtags moralistas.
Estamos perante uma nova aristocracia ideológica. Uma geração de “revolucionários” modernos a quem tudo parece ser permitido: atirar tinta a pessoas, vandalizar edifícios públicos, destruir património, danificar obras de arte e perturbar a vida de terceiros, tudo em nome de uma suposta emergência climática que serve, muitas vezes, de cortina para uma agenda profundamente colectivista e anti-capitalista. Curiosamente, quem parte uma montra por necessidade é criminoso. Quem vandaliza uma obra de arte milionária “quer apenas chamar a atenção”. Quem furta um pão é ladrão. Quem invade um supermercado para distribuir produtos roubados é “activista”. O crime passou a depender da roupa usada e da causa apresentada na conferência de imprensa seguinte.
Mas uma sociedade séria não pode funcionar assim. A justiça não pode ser moldada pela simpatia mediática, pela posição social ou pela utilidade política do infractor. Um acto ilícito não deixa de o ser porque foi praticado por um colarinho branco ou em nome de uma bandeira ideológica. Perante a lei, o tratamento tem de ser igual. Sem romantizações. Sem eufemismos. Sem privilégios morais. Porque no dia em que começamos a escolher quais os crimes “compreensíveis”, deixamos lentamente de viver num Estado de Direito para passar a viver numa sociedade de castas ideológicas, onde uns respondem pelos seus actos… e outros recebem aplausos, entrevistas e, quem sabe, um copo de champanhe.