1 Já passou mais de uma semana mas o negacionismo continua. Se é normal que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português (PCP) se comportem como velhas avestruzes ortodoxas, se é humano que o PS continue em choque e que Rui Tavares tente liderar o vazio quando está muito longe de ter votos para tal — já tenho mais dificuldades em compreender que muitos colegas jornalistas e comentadores persistam em não compreender que o país político mudou e alguns continuem a tentar alcançar a utopia de que o Chega tem de ser isolado.
Ponto prévio. Portugal é uma democracia representativa, os cidadãos votam num partido para os representar e se esse partido reunir votos suficientes para tal, esses mesmos cidadãos têm de estar devidamente representados nos órgãos do Estado. O Chega existe e 1.345.689 cidadãos — o número vai aumentar com a conclusão dessa contagem dos votos da emigração nesta quarta-feira — votaram no partido de André Ventura. Se se confirmar que o Chega é a segunda força política, então terá de estar representado nos órgãos do Estado como determinam as regras da nossa democracia representativa.
Significa isto que terá direito à primeira vice-presidência na Assembleia da República, à liderança da Comissão Parlamentar das Finanças e do Orçamento entre outras matérias parlamentares. Também terá de estar representado em órgãos como os conselhos superiores de segurança interna, de defesa, da magistratura judicial, do Ministério Público e também da fiscalização das secretas.
Existem perigos e ameaças? Sim, existem. Mas o escrutínio e a eventual responsabilização por qualquer falha também será uma realidade, se for caso disso.
Mas não podemos fugir à lógica da nossa democracia representativa — que é independente do partido que esteja em causa, como foi quando o PCP e o Bloco de Esquerda indicaram juízes para o Tribunal Constitucional e esteve representado em vários dos órgão acima referidas. São partidos muitos diferentes do Chega? Lamento mas, que diz respeito ao extremismo e radicalismo de posições, não são.
Regressando à lógica do funcionamento da democracia representativa. Tal lógica é simples: os eleitores elegem cidadãos que os representam no Parlamento; se determinado partido tiver votos suficientes ser a segunda força partidária, então os cidadãos que votaram nesse partido terão de estar representados nos órgãos do Estado.
Pode parecer exagero da minha parte mas é melhor recordar o “abc” da democracia porque muitos persistem na utopia de que é possível isolar ou colocar o cordão sanitário a 1.345.689 cidadãos. Se isso acontecer, podemos continuar a ser uma democracia, mas deixaremos de ser uma democracia representativa. O que não deixaria de ser uma ironia, tendo em conta que os defensores das linhas vermelhas justificam as mesmas com o facto de o Chega representar uma ameaça à mudança de regime.
2 A esquerda e a extrema-esquerda representada no espaço público e nas redes sociais continuam igualmente a tentar deslegitimar o voto dessas 1.345.689 pessoas, tentando menosprezar cada um deles. Vamos ser claros: os 1.345.689 eleitores que votaram no Chega não são racistas ou xenófobos, não são fascistas ou saudosistas do Estado Novo, não são ignorantes ou analfabetos. Não confundamos a árvore com a floresta.
A descrição genérica mais apropriada passa mais com a desilusão com os partidos tradicionais por muitas e variadas razões, sendo que a mais comum dessas razões é a estagnação económica dos últimos 25 anos que está diretamente ligada à falência do modelo económico que trouxe bons resultados à economia portuguesa entre 1987 e 2000.
Durante muitos anos, o PSD e o PS (que governou mais tempo) insistiram na mesma velha receita de economia de serviços, baixos salários, impostos elevados e maus serviços públicos. A perda de poder de compra da classe média — Portugal tem o 5.º salário médio mais baixo da União Europeia, sendo que a subida administrativa do salário mínimo nacional foi sendo mais significativa do que a subida do salário médio durante os últimos 10 anos —, a fuga de jovens qualificados para o estrangeiro, o inverno demográfico (que se iniciou ainda durante os anos 80 do século passado) e a consequente necessidade de imigração em larga escala — todos esses problemas (e muitos outros) passaram à ‘frente dos olhos’ dos sucessivos governos sem que fossem resolvidos.
Não, os eleitores do Chega não são vítimas da desinformação das redes sociais — um dos argumentos favoritos da esquerda bem pensante para explicar a derrota colossal do PS e dos partidos à sua esquerda. Os eleitores do Chega, como muitos que votaram AD ou IL, estão cansados das mesmas políticas públicas de sempre, querem ter progresso económico e social, querem ter menos impostos e um Estado mais eficiente (sim, é possível conjugar as duas coisas). Enfim querem ter uma melhor vida para si e para os seus.
E, só para falar um tema muito mediático (a imigração), têm uma visão muito diferente daquela que é divulgada pela comunicação social. Porque constatam no seu quotidiano as consequências da imigração desregulada, nomeadamente a falta de condições de trabalho de muitos trabalhadores migrantes. Bem como constatam as inevitáveis tensões sociais que existem entre os cidadãos que cá residem e migrantes de origem muçulmana ou de outras religiões com visões muito diferentes sobre os direitos humanos e até a própria democracia.
Tensões sociais que, refira-se, tanto existem nas grandes cidades, como nas zonas mais despovoadas do interior, como no sul ou no norte.
O ultra-progressismo nesta matéria da extrema-esquerda é mesmo um ato de cegueira ideológica. Muitos comentadores pensavam que poderiam agir como uma espécie de grandes educadores de massas, classificando toda e qualquer informação sobre a tensão social que foi promovida pela política de portas abertas do Governo António Costa como exemplos de xenofobia ou de racismo. Enganaram-se — e hoje ainda persistem em não compreender a perspetiva de muitos cidadãos comuns sobre a imigração.
Continuam a acreditar que o português comum — iletrado e ignorante, é com essa lente que os grandes educadores olham para a população — são vítimas do TikTok e de outras redes sociais. É verdade que existe desinformação mas o caos que vivemos na imigração não é algo inventado. É uma realidade clara.
3 O PS bem tentou reconhecer o erro na última campanha eleitoral, aproximando-se muito da política de imigração controlada seguida pelo Governo. Mas já era tarde. Os eleitores premiaram a política moderada e responsável aplicada pelo Governo da AD e censuraram a falta de consistência do PS.
É verdade que, com António Costa, o PS conseguiu uma maioria absoluta em 2022. Mas nada fez com esse instrumento extraordinário para reformar o país. Aliás, o PS de Costa só governou essencialmente para dois grupos de eleitores: os funcionários públicos e os idosos. Perdeu os jovens há muito e agora parece ter pedido uma parte relevante da classe média. Se o PS, um dos dois grandes partidos da nossa democracia, não conseguir recuperar a confiança da classe média, então a sua sobrevivência poderá estar mesmo em causa.
Escrevi aqui na semana passada que isso só poderia acontecer com um projeto político reformista, seguindo uma linha social-democrata e trabalhista e com um posicionamento claro ao centro-esquerda. Tudo o que António Costa (a parte da reformas) e Pedro Nuno Santos (tudo o resto) não conseguiram.
Uma coisa o PS tem de perceber: a ala esquerda ou os jovens turcos promovidos por António Costa não têm nem querem essa receita. O recentramento é essencial para que os portugueses voltem a olhar para o PS como uma alternativa credível e o mesmo pode ser executado por figuras como José Luís Carneiro (praticamente eleito secretário-geral do PS) ou até Fernando Medina ou Duarte Cordeiro (os dois noutro ciclo político).
4 Outra coisa que o PS tem de perceber: a estratégia de António Costa de colar o PSD ao Chega foi um erro histórico. Ao qual se pode juntar a ideia que Pedro Nuno tentou vender com a “aliança radical” entre a AD e a Iniciativa Liberal. Ouvindo o agora o ex-líder é claro como a água que continua a laborar nos mesmos erros que estão na origem da sua derrocada eleitoral.
Lendo Pedro Adão e Silva, parece que o ex-ministro da Cultura já percebeu. Mas vindo de quem vem — um dos conselheiros de António Costa e figura muito próxima de Ferro Rodrigues e Vieira da Silva — é de desconfiar. E quem diz Adão e Silva, diz Mariana Vieira da Silva ou até Ana Catarina Mendes.
O mesmo se diga de figuras como Augusto Santos Silva — que já deve ter desistido de procurar o apoio do Bloco de Esquerda para uma candidatura presidencial. Quando afirma que não há condições políticas para uma revisão constitucional, Santos Silva faz lembrar o antigo ministro da informação de Saddam Hussein que jurava — horas antes dos americanos entrarem em Bagdad e ele próprio fugir — que os soldados americanos estavam a suicidar-se…
Ou seja, um dos grandes catalisadores do crescimento do Chega — com os seus conflitos gratuitos diários com Ventura a partir do seu posto de presidente do Parlamento e que, ironicamente, perdeu o lugar de deputado para o Chega nas eleições de 2024 — confunde propaganda com a realidade, como o ministro da Informação de Saddam Hussein.
Dito isto, é tempo do PS dar mais ouvidos a militantes, como Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto, que bem tentaram avisar o partido logo em 2015 do erro histórico que António Costa estava a cometer ao abrir as portas do poder ao PCP e ao Bloco.
5 O PCP e o Bloco de Esquerda são casos cada vez mais do foro psicanalítico político. Tiveram uma derrota pesada — particularmente o Bloco — mas persistem em não perceber o que lhes aconteceu. É a natura dificuldade da extrema-esquerda em compreender como funciona uma democracia.
Por exemplo, o PCP perdeu um deputado, baixou a fasquia dos 200 mil votos e, parafraseando Pedro Nuno Santos, acelerou contra a parede. Apesar de uma melhor prestação de Paulo Raimundo — foi o que mais surpreendeu nos debates na TV —, o PCP continua a caminho da extinção por via da sua descida sustentada.
E o que fazem os comunistas? Anunciam uma moção de rejeição do programa do Governo, quando o Executivo nem sequer está formado e quando nem o Presidente da República indigitou o primeiro-ministro. Não tentam perceber o que estão a falhar e fazem uma fuga para frente verdadeiramente extraordinária para quem se auto-intitula institucionalista
Os comunistas dizem ainda que vão combater diariamente na rua o Governo. O quer dizer que a CGTP vai começar a anunciar greves regulares. O PCP acha que os cidadãos comuns têm medo dos sindicatos da função pública ou das empresas públicas.
Uma novidade para os comunistas: a taxa de sindicalização em Portugal era de 15% em 2023, e hoje deve ser ainda mais baixa. Ainda há alguma penetração na função públicas mas está mais perto do zero no setor privado. Resumindo e concluindo: parece que os comunistas estão a fazer uma birra.
Já o Bloco de Esquerda reuniu a Comissão Política e culpa a comunicação social pelo facto de o tema da imigração ser importante para a população. Para o Bloco, houve uma “dinâmica do discurso da anti-imigração” graças a “um conjunto” de televisões, jornais e rádios. “Essa narrativa foi popularizada pelo sensacionalismo de um conjunto de meios de comunicação social e pela manipulação de massas através das redes sociais. Instalou-se assim um senso comum xenófobo e racista”, lê-se no comunicado da Comissão Política do Bloco.
Os jornalistas que tanto levaram o Bloco ao colo durante anos a fio são, afinal, os grandes responsáveis pela incompetência de Mariana Mortágua que apenas conseguiu um mandato para o Parlamento: o seu.
Como são tão extremistas como o Chega (apesar da generalidade dos media não o constatar), os bloquistas estão a ver o mundo ao contrário. Durante anos, os media não deram atenção à imigração desregulada que foi alimentada pelo Governo de António Costa e só recentemente passaram a dar importância do tema. Em vez disso, as declarações dos dirigentes do Bloco a classificarem qualquer preocupação com a imigração como “racista” ou “xenófoba” tinha mais atenção.
Veremos se a atenção mediática dada ao Bloco — que foi sempre um grande mistério tendo em conta a força das suas votações — será revista ao abrigo do critério da proporcionalidade e da representatividade da deputada única Mariana Mortágua.
Esses e outros temas relacionados com o jornalismo, ficarão para outros artigos.
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