Vai por aí uma enorme comoção no PS com duas corridas eleitorais de grande importância para o partido, a disputa pela Câmara Municipal de Lisboa e as próximas eleições presidenciais. Num caso como noutro, ilustríssimas figuras da família socialista vão encontrado formas de justificar eventuais desaires e de arranjar preventivamente algum consolo: a culpa não será nunca do partido, do projeto ou do candidato escolhidos; a culpa, a existir, será da “esquerda”, que não soube ou não quis carregar o andor da figura que o Largo do Rato decidiu abençoar.

O caso da corrida à Câmara Municipal de Lisboa é o melhor exemplo disso mesmo. Houve dois debates entre candidatos. Em ambos, João Ferreira, do PCP, teve um desempenho bastante competente. Em ambos, Alexandra Leitão, do PS, teve um desempenho particularmente desinspirado. O beneficiário indireto das boas prestações de João Ferreira é, naturalmente, Carlos Moedas, que pode ganhar com a dispersão de votos à esquerda. Foram dois debates, um na SIC, outro no Observador, nada mais do que isso. Falta muito tempo e há muita campanha pela frente. Mas os alarmes soaram de imediato. E foi preciso preparar terreno.

Conclusão lógica que se foi retirando no PS: se Carlos Moedas vencer as próximas autárquicas, a culpa será sempre do PCP que não quis dar a mão aos socialistas. Em nenhum momento se pergunta se Alexandra Leitão estará a seguir a melhor estratégia, se o projeto que propõe é melhor ou se está a ser bem explicado. Não, ‘se’ Alexandra Leitão perder as próximas eleições, é porque o PCP, tendo vistas curtas, se preferiu aliar ao grande Satã chamado Carlos Moedas.

Quem melhor desenvolveu esta tese foi João Costa, antigo ministro da Educação e próximo de Alexandra Leitão, num texto intitulado “Estará João Ferreira a tornar-se no comunista de que a direita gosta?” (Expresso). Partindo de uma grande tese conspirativa — a “direita do Observador” está a insuflar Ferreira para prejudicar Leitão —, o antigo ministro conclui que o PCP, toldado pelas vistas curtas, está a fazer um grande favor a Moedas e a cometer um enormíssimo erro histórico.

Esquecendo as conspirações que só existem nas cabeças habituadas a pensar em rebanho, João Costa ignora simultaneamente uma realidade histórica, uma experiência bem recente e um exemplo bastante contraditório. Em primeiro lugar, PS e PCP não vão juntos a votos pela capital desde 2001. Mais a mais, nos 14 anos de governação socialista da cidade, os comunistas foram uma oposição feroz às políticas seguidas pela dupla Costa/Medina — uma herança que ainda hoje continua a condicionar o debate sobre Lisboa (veja-se a questão da recolha do lixo, por exemplo).

Em segundo lugar, João Costa ignora a experiência do PCP durante e depois da ‘geringonça’. Os comunistas perceberam os custos políticos de serem a muleta do PS e retiraram lições sobre o alegado espírito de compromisso e de convergência dos socialistas — algo que não é, seguramente, culpa de Carlos Moedas, mas que pode ser de Alexandra Leitão e de João Costa, que pertenceram a esses mesmos governos.

Finalmente, João Costa ignora o que se passa noutras latitudes. No Porto, numa corrida disputadíssima por uma Câmara que a esquerda não controla desde 2001, Manuel Pizarro, candidato do PS, não quis cá convergências, até se rodeou de figuras do centro-direita e ninguém no PS se comoveu. Um palpite: como a direita está altamente fragmentada, como o PCP não é tão forte e como as sondagens até são favoráveis ao PS, a frente de esquerda que é fundamental em Lisboa já seria um empecilho ideológico e eleitoral no Porto.

O PS até se pode queixar da ortodoxia do PCP e da pouca confiabilidade do Bloco de Esquerda; até pode dizer que, no caso de Lisboa, é um erro estratégico flagrante; mas quando o partido tem uma relação tão utilitária com a ‘esquerda’, quando só se lembra da esquerda quando luta aquece e quando a coisa aperta, não se pode queixar de, uma ou outra vez, ficar pendurado. Sobretudo um PS que vai mudando de identidade consoante as lideranças, os protagonistas e os resultados eleitorais. É a vida.

E o mesmo vale para as presidenciais. Durante meses, o PS viveu embrulhado num psicodrama sobre a escolha do candidato. Foi tudo tão mal gerido, foram inventados e reinventados tantos nomes, foi tanta roupa suja lavada em público que acabou por sobrar, contaminado e denegrido, aquele que metade do partido não queria e que a esquerda à esquerda do PS dificilmente estaria disposta a engolir.

Mas assim que o papão André Ventura entrou em cena, lá começaram a tocar os sinos em nome da convergência à esquerda, os avisos para o “erro histórico” que estão prestes a cometer e os alertas para a urgente missão de salvar a democracia — algo que só o candidato socialista, seja ele quem for, estará habilitado a fazer, claro. Mas se metade do PS não queria e não acredita no candidato do PS, que obrigação têm os outros partidos de convergir? Fica difícil explicar.