Ainda o 25 de Novembro, agora na versão que a extrema-esquerda tirou do bolso para nos distrair e para não ter de pintar a cara de preto pela história exposta nos 50 anos do fim do PREC. De maneira que recorreu à ONU, que, em parte, está lá para isso: sentar à mesma mesa uma enormidade de Estados recentíssimos e totalitários com uma estreita minoria de Estados democráticos – e fingir que valem todos o mesmo em matéria de civilização. Esse vespeiro diplomático decretou, suponho que em 1999, que a 25 de Novembro passaria a celebrar-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Ontem, munida deste pretexto, a extrema-esquerda fez chover documentos na Assembleia Municipal de Lisboa.
Seria desnecessário dizê-lo, mas fica melhor se o dissermos: qualquer violência contra as mulheres é um exercício da mais miserável cobardia e deve ser combatido sem misericórdia. Não foi esse o caso dos documentos apresentados, nem do modo como foram defendidos, quer na argumentação escrita, quer nas várias intervenções dos deputados. Aquelas almas associaram as agressões contra as mulheres quase exclusivamente aos casos de violência doméstica. À primeira vista, faz sentido. Olhado de perto, percebe-se que a extrema-esquerda não tinha mesmo outro caminho.
O que dizer da violência contra as mulheres admitida nos desportos, quando as ligas do mundo ocidental passaram a organizar competições nas quais elas são metodicamente sovadas por atletas “trans”? Ou seja: por homens? E da violência contra as mulheres exigida em certas culturas – as que praticam a excisão do clitóris, submetem as adúlteras ao apedrejamento, ou muito simplesmente consideram que as mulheres devem viver vidas inteiras como um estorvo –, encobertas por burkas, impedidas de qualquer olhar que reconheça a singularidade delas, subjugadas à propriedade do marido? E da violência contra as mulheres imposta por tradições religiosas que determinam expressamente a inferioridade delas, os castigos delas e as humilhações delas – e por tradições culturais onde são obrigadas a viver sob esses códigos? E da violência contra as mulheres imposta pela brutalidade de certos Estados, como o Irão, a hipotética “Palestina” e todos aqueles Estados cuja lei decorre da Sharia? Nada. Nem uma palavra. Nada disto perturbou os autores dos documentos “pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres”.
A origem do descaso aparente – e aceitando a boa-fé daqueles pobres deputados – está no erro de interpretação do “multiculturalismo”. Durante anos, fomos levados a julgar que o “multiculturalismo” era o respeito por todas as culturas, mais ou menos próximas da nossa, com mais ou com menos aspectos chocantes. Essa interpretação estava certa: todas as culturas, as mais familiares como as mais estranhas, são e devem ser merecedoras do nosso respeito.
Onde se põe o problema é no passo seguinte, que a extrema-esquerda decretou para sua conveniência: “multiculturalismo” passou a significar um sistema lógico em que todas as culturas devem ser consideradas moralmente (e socialmente) equivalentes. De um dia para o outro, deixámos de ser autorizados a apreciar a nossa cultura como superior às outras, e deixámos de poder defender na nossa cultura os aspectos que as outras culturas não possuem, ou não concordam, ou até aspectos que as outras culturas combatem – como as liberdades civis e políticas, a igualdade entre homens e mulheres perante a lei, a universalidade do voto, e outros traços da nossa civilização que levaram séculos a conquistar.
Este nivelamento social e moral de todas as culturas, imposto através do pensamento woke, tornou-se uma ferramenta preciosa na luta da extrema-esquerda contra o capitalismo e as democracias liberais.
Ao agredir os preceitos desta ensarilhada intelectual que ela própria originou, a extrema-esquerda ficou impedida de ver os ambientes que verdadeiramente mais contribuem para a violência sobre as mulheres. Se reconhecesse as violências desportivas, culturais, religiosas, e de Estado, teria de contradizer a extrema-esquerda – e isso é precisamente o que não pode fazer.
Sobra-lhe a violência doméstica, as agressões dentro das famílias, por quem, de resto, a extrema-esquerda sempre sentiu o mais olímpico desprezo. Assim, associar as famílias à violência contra as mulheres é a maneira de a extrema-esquerda defender as suas causas e políticas identitárias, instrumentalizando as mulheres – como sempre fez – e instrumentalizando também o próprio Dia Internacional que diz querer celebrar. Os caminhos da esquerda são tortuosos, mas não são inteiramente opacos.