Uma sopa turva de falácias na sessão plenária desta terça-feira na Assembleia Municipal de Lisboa. Agressões; neo-nazis; actores da Barraca; “discurso de ódio”; declamação pública de nomes; tudo no mesmo ponto da Ordem dos Trabalhos, como convém às cabeças sinuosas que vivem destes assuntos. Aqui, como o percurso lógico é meu, e para tentar pôr ordem na confusão, a ordem dos pontos é distinta. Porque as coisas, parecendo que não, fazem sentido. Só não fazem o sentido que a santimónia lhes quer dar.
As agressões “neo-nazis” aos actores do teatro A Barraca. Devem, como é evidente, ser repudiadas todas as agressões, e estas tanto como quaisquer outras, na medida da sua gravidade e violência, e também dos danos provocados. A causa, pessoal, política ou social, em nome da qual a violência é cometida devia ser irrelevante. Não há agressões boas e agressões más, como alguns parecem entender. O problema, no caso de A Barraca, foi que o atacante confesso e ouvido na Polícia desmentiu qualquer ligação à extrema-direita. Os ataques em nome de causas políticas costumam ser reivindicados, e não desmentidos. Desde logo, para que produzam efeito.
Vale a pena mencionar uma expressão que se ouviu naquele dia repetidamente, e que também já vi escrita ou soada nos cantos mais mal frequentados da paisagem, explicando que “os neo-nazis estão a sair do armário”. Com toda a naturalidade, certos comentadores nos media do regime, e vários deputados eleitos, estabelecem uma equivalência entre os neo-nazis e os homossexuais. Talvez nem percebam o que andam a dizer.
É nesta curva que entra o Dia Internacional de Combate ao Discurso de Ódio, com que a esquerda em peso se expandiu exibindo as virtudes e moralidades típicas. Uma celebração aberrante. A própria concepção de “discurso de ódio” é um erro. E uma infelicidade anti-democrática, e uma porta aberta para a censura. Por essa porta entram todas as arbitrariedades. Fontes Pereira de Melo dizia que não há ideias proibidas, há comportamentos ilegais. Hoje, mais uma vez, percebe-se a dificuldade em estabelecer onde está o “discurso de ódio” e onde está a “resistência legítima” (ou a “desobediência civil”, tal como é ensinada pelo filósofo nas “oficinas” de Braço de Prata).
Nos anos do ajustamento, os estudantes dessa “resistência” apresentaram-se ostentando um coelho enforcado para receber o Primeiro-Ministro na universidade. Há pouco tempo, alguns ilustríssimos deputados da nação, e outros tantos da Assembleia Municipal, desceram a Avenida gritando “morte aos senhorios!”. Nenhum destes exercícios foi descrito como “discurso de ódio”. A esquerda determina qual é o lado do mal e do bem; e a direita, por regra, aceita os termos e as decisões morais da esquerda. O “discurso de ódio” é a ilegalização das ideias, uma ilegalização estabelecida com base nas modas intelectuais e nas maiorias políticas de circunstância. A figura política e, pior ainda, jurídica do “discurso de ódio” é uma abominação. Deve ser execrada em vez de celebrada.
Como, de resto, se torna nítido no escândalo armado com os nomes de crianças estrangeiras. O Partido Socialista é o último partido com autoridade para condenar a declamação, porque foi exactamente isso que fez durante um Congresso, em 2014, quando resolveu declamar um por um os trinta e quatro nomes e apelidos de todas as mulheres que tinham sido mortas por violência doméstica naquele ano. Chamaram a actriz Maria do Céu Guerra que, ao lado de António Costa, naturalmente aceitou mais este lamentável papel. Naquele dia, os socialistas não se preocuparam com os filhos destas mulheres, que se viram a si mesmos identificados indirectamente, e viram os respectivos pais expostos como assassinos das mães deles. Todo o Congresso se levantou para ouvir o teatrinho medonho em silêncio. Este momento não pode ser apagado só porque agora convém ao Partido Socialista alterar e falsificar a sua própria história.