No dia 29 de Julho de 2013, por ocasião de mais uma das suas viagens apostólicas, o Papa Francisco, em resposta a um jornalista, afirmou algo muito surpreendente: “Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para o julgar?”. A frase, que a muitos escandalizou, foi depois amplamente divulgada, não só como uma suposta alteração copernicana da doutrina moral católica, mas também como uma canonização do relativismo: se o Papa se declara incompetente numa questão doutrinal, quem se pode atrever a julgar o que quer que seja?! Todas as questões morais pareciam ficar, portanto, relegadas para o nível da consciência de cada um e ninguém, nem sequer o vigário de Cristo, teria legitimidade para formular um juízo moral sobre uma matéria doutrinal. Mas, será mesmo assim?!

Antes de mais, importa fixar exactamente os termos da afirmação, porque nem sempre o que se diz ter sido afirmado pelo Papa é o que Francisco efectivamente disse. Com efeito, não é o mesmo dizer “quem sou eu para o julgar?” do que afirmar “quem sou eu para julgar?”. No primeiro caso, manifesta-se a impossibilidade de fazer um juízo moral sobre alguém; no segundo, afirma-se a incompetência do papa em relação a um tema doutrinal de natureza moral. É verdade que a editora da Santa Sé, a Libreria Editrice Vaticana, editou em 2016 um livro que recolhe pensamentos do actual Papa e que se intitula “Chi sono io per giudicare?” (há uma edição portuguesa, com o mesmo título, “Quem sou eu para julgar?”, da Editora Nascente). Contudo, não consta que tenha sido essa a frase pronunciada pelo Papa Francisco que, na resposta ao jornalista que o interrogou a 29 de Julho de 2013, afirmou “quem sou eu para o julgar”.

O Santo Padre é o supremo juiz da Igreja universal. Esta prerrogativa papal foi expressamente conferida por Cristo, quando disse a Pedro: “dar-te-ei as chaves do reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16, 19). Se Pedro e os seus sucessores podem ligar e desligar, é evidente que têm que julgar doutrinas e comportamentos morais.

Na parábola do juiz iníquo (cf. Lc 18, 1-8), o magistrado não é injusto porque decide erradamente, mas porque se abstém de julgar. Um papa que, por absurda hipótese, entendesse que não deveria julgar as questões morais, estaria a incumprir gravemente as suas obrigações e, assim sendo, seria também ele um juiz iníquo. Se um determinado comportamento, ou doutrina, não é compatível com a fé, os fiéis devem ser advertidos disso pelos seus pastores, sob pena de estes serem cúmplices dos seus pecados e, em última instância, responsáveis até pela sua condenação eterna. Seria razoável que, em relação à pedofilia, o papa ou um bispo dissesse: quem sou eu para julgar?!

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