Onde anda e para onde vai a esquerda portuguesa? Perdeu-se ou é ignorada? Esqueceu-se das  suas históricas batalhas, ou já ninguém lhes liga? O descarrilar desta fação política faz-nos  questionar, em suma, qual o papel do contrabalanço num sistema como o nosso, e, para além  disso, quem deve corporizar essa oposição.

Em 2021, não assim há tanto tempo, o Parlamento tinha uma composição estruturalmente  diferente da que tem hoje. Somando os três da Geringonça, 139 deputados tinha a esquerda, face  aos pouco mais de 80 da direita. Agora, PS, BE, PCP, PAN e Livre ocupam menos de 70 cadeiras  na AR. Como? Não é difícil de explicar.

Há quem diga que a esquerda ignorou as causas trabalhistas que a caracterizavam, e que, por isso,  se esvaziou. Não creio que tenha sido bem assim. Os socialistas mantiveram-se fiéis a si próprios, prometendo aumentos irracionais do salário mínimo e das pensões, procurado, no meio de outras  tantas medidas do género, apelar ao voto daqueles que, bem ou mal, dependem do Estado para  viver. Quanto ao Bloco, acho que não há grande coisa a dizer. Afinal, quem constrói toda uma  campanha na base do lema “taxar os ricos”, nada mais pode ser que não um populista de olhos  postos naqueles que menos ganham e que menos podem. Já em relação ao PCP, muitos defeitos  se lhes pode apontar, mas, certamente, a incoerência não é um deles. Os comunistas são a  personificação, por excelência, da expressão “gira o disco e toca o mesmo”. O discurso não muda, nem mudará. Portanto, será que, de facto, a esquerda se esqueceu de falar para os trabalhadores?  Ou terão sido estes que escolheram ignorá-la? Bem, creio que a resposta é relativamente óbvia.

Em segunda instância, o teste do algodão raramente falha. Após os anos de Passos Coelho, a  extrema-esquerda experienciou um boom eleitoral notório. Um discurso anti-establishment,  contra as entidades credoras de Portugal e contra o Governo que com elas negociava atraiu, como  seria de esperar, muitos dos votos dos descontentes e de quem realmente sentiu dificuldades no  contexto da crise de 2008. Então, num golpe palaciano metaforicamente semelhante, como dizia Paulo Portas, a um «privativo assalto ao Palácio de Inverno», Costa uniu-se a esses partidos,  governando contra a voz do povo. Estava aberta a porta para as grandes bocas da esquerda, críticas  de tudo e de todos, mostrarem o que valiam realmente. E mostraram. Em 2025, depois de 8 anos  de governos socialistas, os serviços públicos estão em falência técnica e operacional, Portugal foi  ultrapassado por vários países do leste europeu, o poder de compra dos portugueses diminuiu, e  as nossas ruas estão completamente descaracterizadas, fruto de uma imigração massiva e  completamente descontrolada. Não surpreende ninguém que, hoje, a direita tenha uma maioria  constitucional no Parlamento.

Ouvia, numa das últimas edições do programa da SIC, Linhas Vermelhas, Miguel Prata Roque a  comparar os entendimentos parlamentares da AD com o Chega ao fenómeno de 2015, dizendo  que a direita criticou, na época, as manobras de António Costa, mas, hoje, repete-as. Não só não  há qualquer acordo escrito de incidência parlamentar, como, pequeno pormenor, Montenegro  venceu as legislativas e tem, por isso, legitimidade para exercer o cargo que exerce. O que se  retira disto é que o PS está pouco habituado a estar de fora do executivo e, ainda mais, a não  importar para nada. Por um lado, ainda bem. Ainda bem que não importa para nada, ainda mal  que não está habituado a isso. Pode ser que venha a ficar, para bem do país.

Mais ainda, não nos devemos esquecer de como aqui chegámos: o Chega com esta dimensão, e a  IL com quase 10 mandatos, tem dois responsáveis inegáveis. Rui Rio, com uma oposição frouxa,  fraca e quase de palmadinha nas costas a Costa, tornou órfãos de partido todos aqueles que, à  direita do PS, não se reviam no que estava a acontecer no país. Claro que migraram para partidos  com coragem de confrontar o então Primeiro-Ministro. Por outro lado, Costa colocou,  propositadamente, o foco em Ventura, tornando-o, ainda como deputado único, o rosto principal  da oposição aos olhos dos portugueses. Só com um líder veementemente antissocialista é que o  PSD foi capaz de passar o PS. Já se ouviu Rui Rio dizer que Montenegro foi eleito com menos  percentagem face àquela que ele próprio conseguiu nas eleições anteriores. Ignora é o facto de o  PSD, a seu leme e depois de 6 anos de socialismo, ter perdido para um PS com maioria absoluta  e com 20 deputados eleitos à sua direita. Já a AD de 2024 venceu os socialistas com 58 deputados  à sua direita, e tornou a fazê-lo em 2025, com mais dez deputados do Chega e um da IL. Bem se  viu a diferença de um líder que, nem estando no Parlamento, conseguiu mostrar de forma vincada  e clara as suas diferenças face ao status-quo da altura.

Posto isto, a nossa democracia precisa de uma esquerda forte? Entendo que não. O Governo  precisa de oposição, claro está, mas o país não deve sentir falta nem necessidade de que quem o  destruiu incontáveis vezes corporize essa alternativa. Muitas vezes se ouve dizer que PSD e PS  são iguais. Não são. Nos últimos 20 anos, o PS governou 15, teve duas maiorias absolutas e foi o  protagonista de todos os pedidos de resgate que Portugal teve no tempo da democracia. Por outro  lado, o tempo das maiorias absolutas cavaquistas foi aquele em que o país mais viu crescimento e inovação. De 2005 a 2023, a direita só pôs pés em São Bento para servir de bombeira dos  incêndios de Sócrates, governando amarrada a agendas e dossiers cujo único objetivo era reerguer  Portugal e evitar novos resgates. O país que temos foi feito, portanto, segundo o projeto do Partido  Socialista.

É, assim, fundamental que esta maioria parlamentar se comporte como tal. Durante os anos de  Rui Rio, o PSD colocou-se à disposição do PS, subserviente e subjugado, mas Costa ignorou-o e  preferiu sentar-se entre a foice e o martelo. Sempre que tiveram oportunidade de deixar a direita de lado, fizeram-no. Agora, é a nossa vez. Ainda para mais, a direita tem uma vantagem: bem  orientada e com as metas corretas, funciona e resolve os problemas. Isto é dizer que, quando a  direita é fiel a si própria e não tenta agradar à esquerda, tem resultados (veja-se a Argentina de  Milei). A solução para continuar a ganhar eleições é governar bem, como dita a experiência de  Cavaco Silva. Sabemos que as ideias socialistas não funcionam. Sabemos que o caminho não é, nem pode ser aquele. Temos, portanto, de encontrar formas de contornar essas ideias.

Portugal tem querido, ao longo dos anos, beneficiar de uma social-democracia como a nórdica, mas esquece-se do caminho para lá se chegar. Estado social, sim, Estado socialista, não.  Poderemos ter esperança num futuro melhor quando entendermos bem essa diferença.