Basta acompanhar as notícias e os discursos atuais para constatar o aumento da frequência com que ouvimos certas palavras. Quarentena, isolamento, agora até “desconfinamento” nos aparecem no radar. Uma palavra que se manteve presente e em crescimento sustentado é “resiliência” (Google trends).

É notório nos citados exemplos de artigos recentes a polissemia no uso da palavra, conforme o campo de conhecimento e a operacionalização do conceito de resiliência.

Processamento de salários através do Novo Banco manteve-se “resiliente”, exceto na restauração e turismo, Consultor da Liga para a Covid-19 entende “saturação”, mas aponta a “resiliência como solução”, Governo avança para desconfinamento com contágios acima da média ideal. Resiliência do SNS preocupa peritos, A era da resiliência.

O que é, afinal, ser resiliente? Podemos “manter a resiliência”? Resiliência é algo que se tem ou que se é?

Há, certamente ,diversas áreas que têm abordado, estudado e descrito de forma operacional o conceito, bem antes duma crise mundial causada por um vírus.

A pandemia que ainda atravessamos, que tanta incerteza traz, veio testar o comportamento dos sistemas individuais ou de grupo, naturais ou sintéticos, biológicos ou digitais.

Os diferentes entendimentos têm origem, entre outras razões, na utilização da mesma palavra em diferentes áreas do conhecimento.

Por exemplo, à Psicologia não é estranho este conceito, que a partir das noções da física e da engenharia de resiliência, constrói um enquadramento entre o estudo do comportamento e das funções mentais. Desta forma, pretende explicar “a capacidade de um determinado sujeito ou grupo passar por uma situação adversa, conseguir superá-la e sair dela fortalecido”. Diferentes pessoas, sobre as mesmas experiências, têm diferentes respostas. Num estudo recente, resiliência na psicologia apresenta-se como sendo a habilidade de reconhecer a dor, compensar esse efeito adverso para, finalmente, construir a capacidade de suportar o evento negativo e construir uma saída de forma positiva (1).

De facto, as notícias acima referidas acabam por utilizar o conceito de resiliência nesta forma abrangente e independente dos diferentes sentidos em áreas diferentes do conhecimento. Por outro lado, o objeto das ditas notícias não são indivíduos, mas sim organizações de quem se espera uma boa resposta perante as adversidades. Em sentido lato, falamos de resiliência quando falamos do comportamento perante um evento com efeitos nefastos no nosso sistema.

Já existe uma área de conhecimento que trata de preparar os sistemas para acontecimentos nefastos. Na sua base, o conceito de Risco é muito simples. Basta multiplicar a probabilidade de um dado evento pelas suas consequências e é obtido o risco associado. Quer isto dizer, então, que estamos perante uma nova moda para referir uma outra mesma coisa?

Apesar da determinação de valores para as consequências de um dado evento ser algo relativamente simples, existem uma série de desafios. Como identificamos os eventos? Pior ainda, como identificamos as probabilidades associadas a esses eventos? O estudo e a gestão do risco são práticas comuns e boas estratégia para decidir melhor, considerando a incerteza. Mas talvez a dinâmica atual do nosso mundo necessite de uma nova abordagem. Quantos podiam prever a ocorrência dos efeitos desta pandemia? Há, então, a necessidade de um verdadeiro cuidado com o desenho e operação dos nossos sistemas.

As cadeias de abastecimento são uma das indústrias que se tem preparado para estes cenários nefastos e com propostas de ação concretas (2). Esta pandemia é um exemplo da utilidade desse trabalho prévio, que permitiu a manutenção de uma certa normalidade a nível mundial e que em muito ajudou o mundo. Mesmo perante paragens de produção, transporte e até de consumo, as cadeias de abastecimento modernas mostraram ter uma capacidade resiliente bastante interessante, visto que faltaram poucos produtos num período tão desafiante. Se é necessário ir além dos conceitos tradicionais de risco, interessa estabelecer uma linha de pensamento comum sobre esta temática. Podemos estruturar um sistema resiliente de tal forma, que este deva ser capaz de se preparar, responder e recuperar de perturbações para depois manter um estado estacionário positivo para a operação com um custo e num tempo aceitável (3).

Então, é importante referir que resiliência não é a mesma coisa que aumentar a capacidade de suportar uma agressão – a isso chama-se robustez. Por várias razões, robustez não é sinónimo de resiliência. Sendo que o infinito não é atingível, ainda, haverá sempre um ponto onde o sistema falhará e, sem outras estratégias, a procura pela robustez máxima não é garantia de resiliência. Pela mesma linha de pensamento, elasticidade também não garante resiliência, garante apenas a retoma ao estado inicial. Não é prudente reduzir o esforço resiliente a algo simples ou como uma única preocupação. Imaginemos uma esponja, seja a posição natural como a capacidade de operação desejável. A força que aplicamos com um dedo representa a perturbação negativa na operação. De forma extremamente simplificada, podemos considerar resiliência como o conjunto da robustez e da elasticidade da esponja. O perfeito será que seja necessária alguma força para que esta ceda e que assim que a força é retirada a esponja volte rapidamente à sua posição original. Aplicar esta interpretação é suficiente para entender, mas não o suficiente para decidir. Porquê? Porque a realidade é mais complexa, não existem apenas dois elementos. Por exemplo: e se a esponja tiver água? Quando cede, perdemos líquido que pode ser fundamental para a continuação do negócio.

A resiliência é um esforço de aprendizagem contínuo e permanente em qualquer que seja a área de aplicação. Por definição tem de ser assim, há sempre novas incertezas sobre a ocorrência de um dado fenómeno, há até eventos que desconhecemos (4). Só nos resta estar atentos e reativos, com uma postura positiva e consciente para assim retirar as lições certas a cada momento, sem medo ou receios de reconhecer falhas, ou omissões.

(1) Angst, R. (2017). Psicologia e resiliência: uma revisão de literatura. Psicologia argumento, 27 (58), 253-260.
(2) A tecnologia como fator de resiliência à disrupção na Supply Chain
(3) Pires Ribeiro, J., & Barbosa-Povoa, A. (2018). Supply Chain Resilience: Definitions and quantitative modelling approaches – A literature review. Computers & Industrial Engineering, 115 (January 2018), 109–122
(4) 02/12/2002. Donald Rumsfeld Defense Secretary