Liberdade de Expressão

Revisitando os cartoons de Maomé

Autor
  • Francisco Jorge Gonçalves

A liberdade de expressão é um valor em si mesmo e não pode ficar condicionada pela simpatia ou antipatia de qualquer cartoon.

A ira manifestada pelo Presidente Donald Trump relativamente a um cartoon desenhado por António, veio novamente colocar na ordem do dia os limites da liberdade de expressão. Inclusivamente, alguns que defendem o cartoon são aqueles que criticaram a liberdade de expressão aquando da publicação dos 12 cartoons de Maomé. Afinal a ideia mais generalizada consistiu na publicação de caricaturas por um jornal de «direita» ou de «extrema-direita», cujo objetivo era aviltar todos os crentes islâmicos. Mas será que esta ideia estava correta?

Kenan Malik (crente islâmico) escreveu um livro sobre esta problemática descrevendo pormenorizadamente o episódio que ficou conhecido como os 12 cartoons de Maomé. Afinal qual a sua origem?

Kâre Bluitgen é conotado «com a esquerda» e defende a integração dos muçulmanos na sociedade dinamarquesa. Em 2005, escreveu um livro para crianças sobre o Islão intitulado «O Corão e a Vida do Profeta Maomé», visando promover uma melhor compreensão da religião islâmica. Para o efeito, procurou um cartoonista para ilustrar o livro.

Os três primeiros recusaram, receando ter o mesmo destino de Theo Van Gogh (realizador holandês morto por Bouyeri, líder da célula Hofstad). Posteriormente, o jornal «conotado com a esquerda» Politiken, retratou esta demanda frustrada. Em resposta, o «jornal conotado com a direita» Jylland Posten, solicitou a 40 cartoonistas da Dinamarca para retratar Maomé: 12 aceitaram o repto e assim foram publicados em 30 de setembro de 2005.

Uma semana após a sua publicação, sem ter havido qualquer tipo de polémica, os jornais contactaram uma série de imãs sobre o assunto, entre os quais Ahmad Abu Laban. Aquele clérigo radical residente na Dinamarca, já tinha assumido posições controversas, tais como admirar Bin Laden assim como vertera «lágrimas secas» com os atentados terroristas jihadistas do 11 de setembro de 2001.

Insatisfeito com a falta de condenação por parte do governo dinamarquês, Abu Laban liderou uma delegação a vários países árabes, cujo objetivo consistia em «internacionalizar a questão dos cartoons». Na organização da Conferência Islâmica em Meca, compilaram uma pasta de arquivo composta por 43 páginas, no qual a delegação acrescentou mais três cartoons que não faziam parte dos 12 cartoons originais. O objetivo consistia em exacerbar as multidões e funcionar como contrainformação.

Afinal, o cartoon mais sensacionalista pertencia a um evento de «chamamento de porcos» que decorreu em França no qual um indivíduo usava um nariz de porco de borracha. Todavia, essa fotografia (dissimulada como cartoon) foi incluída como fazendo parte dos cartoons, com o propósito de instigar o ressentimento.

Respeitante aos 12 cartoons, um dos mais polémicos (supostamente), consubstanciava-se na ilustração de Maomé com um turbante em forma de bomba. Para os islamitas, apenas uma interpretação era possível: cobrir a cabeça do profeta com uma bomba era sugerir que todos os seus fiéis eram terroristas. Contudo, outras leituras eram possíveis — porquanto o cartoon não tinha texto.

Diversos autores sustentaram que a caricatura assemelhava-se a Abu Laban e era uma forma de criticar as suas posições extremistas (v.g. era a favor da tática dos «bombistas suicidas» em Israel). Era possível fazer outra interpretação: Maomé com uma bomba na cabeça visava denunciar a instrumentalização da religião pelos terroristas jihadistas — e que o autor do cartoon (Kurt Westgaard) veio posteriormente a confirmar.

Porém, decisores políticos, desde Bill Clinton, passando por Jack Straw, entre outros, lamentaram a publicação destes cartoons, que apenas podiam ser qualificados como um ataque ao Islão.

Mas será que retratar Maomé constitui uma ofensa ao Islão?

A descrição verbal de Maomé (v.g. nem alto, nem magro, cabelo preto) é usual em várias fontes (Ali Talib). De igual maneira, a representação da sua caligrafia (palavra Maomé), também é bastante frequente e aceite na religião Islâmica.

E a sua representação visual?

Inicialmente, a representação humana (ou até de formas não humanas) em mesquitas e moedas foi usual no Islão mas com a sua consolidação essa representação passou (gradualmente) a não ser feita. Segundo uma interpretação do Islão, a suposta proibição da representação visual de Maomé visa evitar que aquele fosse objeto de adoração. Apenas e somente Alá deve ser objeto de adoração.

Porém, isso não impediu a representação visual de Maomé (com o rosto coberto ou a descoberto) ao longo dos tempos e por crentes islâmicos, como sustenta Ali Widjan, crente islâmica, académica especializada em História de Arte e pertencente à Família Real Jordana. Num ensaio escrito em 1999, a Académica demonstrou que a proibição da retratação visual de Maomé surgiu no século XVII apesar dos islamitas advogarem que a sua retratação sempre foi proibida pela religião islâmica.

Mas afinal a representação visual de Maomé é inexistente na esfera pública? A resposta é negativa e apontemos os seguintes dois exemplos:

Desde 2008 que existe em Teerão uma representação visual de Maomé, num extenso mural.

No edifício que alberga o Supremo Tribunal Federal nos EUA, estão patentes 18 frisos (colocados em 1935) retratando legisladores proeminentes (v.g. Confúcio, Salomão), incluindo Maomé, que segura o Corão. Inclusivamente, foi emitida uma fatwa por parte de Taha Jaber al-Alwani (professor na Universidade de Al-Azhar no Cairo), salientando que os muçulmanos devem ter orgulho neste tipo de representação.

A liberdade de expressão é um valor em si mesmo e não pode ficar condicionada pela simpatia ou antipatia de qualquer cartoon.

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