Perfazem-se dia 18 de Maio precisamente 100 anos que nasceu, na cidade de Wadowice, na Polónia, Karol Józef Wojtyła, o futuro São João Paulo II. Eleito 263º sucessor de São Pedro no dia 16 de Outubro de 1978, foi o primeiro Papa não italiano em 455 anos. Estava eu a pouco mais de um mês de completar 27 anos de idade e no meio de uma crise de fé, daquelas que ao final resultam ou num desesperante abandono ou na firme decisão de aprofundar a mesma, com a indispensável ajuda da razão. Foi o que resolvi fazer, depois de insistentes avisos de que eu corria o sério risco de ir parar ao Inferno, proferidos por uma santa tia, freira missionária regressada de terras longínquas e que não se conformava com modos “pastoralmente correctos”.

Os cerca de 27 anos do pontificado de João Paulo II – mais os quase 8 anos daquele que lhe sucedeu, com o nome Bento XVI, e que já desde Novembro de 1981 até à morte de João Paulo II, em 2005, tinha sido o seu braço direito – foram para mim marcantes na decisão de assumir, pessoalmente, a profissão integral da fé católica. De facto, foi sobretudo ao Magistério (o ensino oficial escrito) destes dois Pontífices, que eu jubilosamente devorava e com que me ia identificando, que devo muito da minha conversão pessoal. O Catecismo da Igreja Católica (de 1992), legado precioso e profético do Papa João Paulo II, a cuja Comissão de redacção presidiu Ratzinger, é para mim, ainda e sempre, um marco indelével da minha conversão que espero contínua.

Às portas do terceiro milénio, numa audiência da iniciativa da senhora minha sogra, em Setembro de 1998, tive a enorme graça de poder dobrar o meu joelho perante esta figura maior do século XX; de lhe beijar reverentemente o anel do pescador e de lhe apresentar os meus filhos, ainda crianças, que ele acariciou com a ternura de um avô; e com ele pude trocar ao vivo umas breves palavras, já então de profunda gratidão.

Por tudo isto e muito mais, não posso nem quero deixar em branco esta efeméride. E em sua homenagem e honra (embora estas, depois da canonização, não possam ser mais acrescentadas e ainda menos por mim) recordo aqui alguns traços da sua vida e pontificado. Perdoem-me se me alongo, mas são as palavras de um filho que assim fala com o coração agradecido àquele que foi um dos seus mais significativos Pai espiritual.

Karol Wojtyła na sua juventude

Karol J. Wojtyła nasceu a 18 de Maio de 1920, naquela pequena cidade da flagelada Polónia – um país três vezes desfeito, com o território 3 vezes partilhado (1772, 1792 e 1795) entre as principais potências da época, a Rússia, a Prússia e a Áustria, e que assim permaneceu ao longo de 123 anos. Seu pai, descendente de camponeses, também chamado Karol, era um homem profundamente católico. Tinha sido aprendiz de alfaiate e depois militar até ser reformado, já promovido a oficial. A mãe, Emilia, educada num convento, era filha de um estofador de Cracóvia. Ainda no passado dia 7 do corrente mês ocorreu em Wadowice a primeira sessão solene para a beatificação e canonização dos Servos de Deus Emilia e Karol Wojtyła. Karol júnior foi o terceiro de três filhos do casal. Veio ao mundo numa pátria onde o catolicismo sempre foi um traço milenar, marcante da sua identidade profunda e que retomara a independência há apenas menos de dois anos, em Novembro de 1918.

Cresceu já órfão de mãe (desde os 8 anos) e aos 20 anos já estava sem a família nuclear próxima (pai e irmãos também falecidos). E amadureceu durante a ocupação nazi do seu país (desde Setembro de 1939) durante a qual foi trabalhador numa pedreira e numa fábrica; actor de teatro e seminarista clandestino. Admirador de São João da Cruz, ainda pensou tornar-se frade carmelita. Já depois da II Grande Guerra terminar, e com a Polónia então sob domínio soviético, é ordenado padre na Solenidade de Todos os Santos de 1946 e parte para Roma, onde estuda no célebre Angelicum, dos Dominicanos. Já na década de 50, exerce a docência universitária na área da Ética, tendo feito dois doutoramentos. E continua a escrever: poesia, teatro, ensaios, etc.

Ainda sob o implacável jugo do regime comunista – satélite de uma das duas superpotências mundiais de então, a histórica URSS – que sempre confrontou corajosamente, é nomeado bispo em 1958, ainda por Pio XII; e, quase a terminar o ano de 1963, ano em que continua a participar activamente no Concílio Vaticano II (1962-1965), é nomeado arcebispo metropolitano de Cracóvia, já Por Paulo VI que quatro anos depois, o cria cardeal. Depois do fugaz pontificado de 33 dias de João Paulo I, sucedeu-lhe, adoptando o mesmo nome, também em homenagem aos Papas do Concílio. Exceptuando os polacos, poucos fiéis no mundo o conheciam; e até foi manifestamente difícil pronunciar o seu nome – Wojtyła – ao ser anunciada a sua eleição, naquela tarde de Outubro de 1978 que bem me recordo de ouvir e ver pela televisão.

Ficou-me nos ouvidos, vivíssimo e ainda agora mais urgente, o grito (abaixo em itálico) na missa inaugural: «Irmãos e Irmãs: não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai o Papa e todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem “o que é que está dentro do homem”. Somente Ele o sabe!». Só posteriormente percebi que aquela exortação a escancarar as portas a Cristo era dirigida (também ou sobretudo?) para lá da pesada Cortina de Ferro e do Muro de Berlim que então dividiam, simbólica e realmente, o mundo, entre o hemisfério Ocidental, livre e o Leste, comunista.

Seria ridículo, pretender abranger numa crónica, quase 27 anos do seu pontificado e ilustrar de que forma impactou a História do último terço do século passado e a entrada no actual. Para esse efeito recomendo a monumental obra de referência, Testemunho de Esperança, A Biografia do Papa João Paulo II, do americano George Weigel (Bertrand Editora, Maio de 2000; original em inglês de 1999); ou, para aqueles com menos folgo, o breve resumo da vida e pontificado, de cerca de 100 páginas, da autoria do então bispo auxiliar de Lisboa, D. Manuel Clemente, com que conclui o seu livro Os Papas do Século XX (Paulus Editora, 2004).

Do seu amplo magistério escrito, de âmbito doutrinal, moral e social, facilmente consultável no respectivo sítio do Vaticano, sobressaem as 14 encíclicas que publicou entre 1979 e 2003. Permitam-me destacar, citando um ou outro excerto, quatro que mais me terão marcado indelevelmente.

Na sua primeira, programática, intitulada O Redentor do Homem, de 4 de Março de 1979, onde, logo no início, fez questão de se afirmar um continuador da Tradição apostólica, numa escuta sempre confiante e atenta ao Espírito Santo:

«Através destes dois nomes [de João e Paulo] e dos dois pontificados [João XXIII e Pulo VI], quero vincular-me a toda a tradição desta Sé Apostólica, com todos os Predecessores no espaço de tempo deste século vinte e dos séculos precedentes, ligando-me gradualmente, segundo as diversas épocas até às mais remotas, àquela linha da missão e do ministério que confere à Sé de Pedro um lugar absolutamente particular na Igreja. João XXIII e Paulo VI constituem uma etapa, à qual desejo referir-me directamente, como a um limiar do qual é minha intenção, de algum modo juntamente com João Paulo I, prosseguir no sentido do futuro, deixando-me guiar por confiança ilimitada e pela obediência ao Espírito, que Cristo prometeu e enviou à sua Igreja» (RH, 2).

A segunda que destaco, intitulada O Esplendor da Verdade, é datada de 6 de Agosto de 1993. Sobre ela, veio a dizer o Papa Emérito Bento XVI, em 2014: «A grande tarefa que João Paulo II assumiu naquela encíclica foi a de traçar novamente um fundamento metafísico na antropologia, assim como uma concretização cristã na nova imagem do Homem da Sagrada Escritura. Estudar e assimilar essa encíclica continua sendo um grande e importante dever». E o próprio João Paulo II, disse o que pretendia com esta encíclica, cuja oportunidade se tem mostrado cada vez mais evidente no decurso deste milénio (itálicos no original):

«[…]. Hoje, porém, parece necessário reflectir sobre o conjunto do ensinamento moral da Igreja, com a finalidade concreta de evocar algumas verdades fundamentais da doutrina católica que, no actual contexto, correm o risco de serem deformadas ou negadas. De facto, formou-se uma nova situação dentro da própria comunidade cristã, que experimentou a difusão de múltiplas dúvidas e objecções de ordem humana e psicológica, social e cultural, religiosa e até mesmo teológica, a propósito dos ensinamentos morais da Igreja. Não se trata já de contestações parciais e ocasionais, mas de uma discussão global e sistemática do património moral, baseada sobre determinadas concepções antropológicas e éticas. Na sua raiz, está a influência, mais ou menos velada de correntes de pensamento que acabam por desarraigar a liberdade humana da sua relação essencial e constitutiva com a verdade. Rejeita-se, assim, a doutrina tradicional sobre a lei natural, sobre a universalidade e a permanente validade dos seus preceitos; consideram-se simplesmente inaceitáveis alguns ensinamentos morais da Igreja; pensa-se que o próprio Magistério possa intervir em matéria moral, somente para “exortar as consciências” e “propor os valores”, nos quais depois cada um inspirará, de forma autónoma, as decisões e as escolhas da vida.

Em particular, deve-se ressaltar a discordância entre a resposta tradicional da Igreja e algumas posições teológicas, difundidas mesmo nos Seminários e Faculdades eclesiásticas, sobre questões da máxima importância para a Igreja e a vida de fé dos cristãos, bem como para a própria convivência humana. […]. Generalizada se encontra também a opinião que põe em dúvida o nexo intrínseco e indivisível que une entre si a fé e a moral, como se a pertença à Igreja e a sua unidade interna se devessem decidir unicamente em relação à fé, ao passo que se poderia tolerar no âmbito moral um pluralismo de opiniões e de comportamentos, deixados ao juízo da consciência subjectiva individual ou à diversidade dos contextos sociais e culturais» (VS, 4).

A terceira, é a que João Paulo II designou O Evangelho da Vida, de 25 de Março de 1995. Debruça-se sobre «as novas ameaças à vida humana», elencadas logo no Capítulo I (nn. 10-17). Escreveu então o Papa estas palavras que vieram a revelar-se proféticas:

«Hoje, este anúncio torna-se particularmente urgente pela impressionante multiplicação e agravamento das ameaças à vida das pessoas e dos povos, sobretudo quando ela é débil e indefesa. Às antigas e dolorosas chagas da miséria, da fome, das epidemias, da violência e das guerras, vêm-se juntar outras com modalidades inéditas e dimensões inquietantes.

[…] Nascem outras formas de atentados à dignidade do ser humano, enquanto se delineia e consolida uma nova situação cultural que dá aos crimes contra a vida um aspecto inédito e — se é possível — ainda mais iníquo, suscitando novas e graves preocupações: amplos sectores da opinião pública justificam alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual e, sobre tal pressuposto, pretendem não só a sua impunidade mas ainda a própria autorização da parte do Estado para os praticar com absoluta liberdade e, mais, com a colaboração gratuita dos Serviços de Saúde.

[…] O facto de as legislações de muitos países, afastando-se quiçá dos próprios princípios basilares das suas Constituições, terem consentido em não punir ou mesmo até reconhecer a plena legitimidade de tais acções contra a vida, é conjuntamente sintoma preocupante e causa não marginal de uma grave derrocada moral: opções, outrora consideradas unanimemente criminosas e rejeitadas pelo senso moral comum, tornam-se pouco a pouco socialmente respeitáveis. […] O resultado de tudo isto é dramático: se é muitíssimo grave e preocupante o fenómeno da eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou encaminhadas para o seu ocaso, não o é menos o facto de à própria consciência, ofuscada por tão vastos condicionalismos, lhe custar cada vez mais a perceber a distinção entre o bem e o mal, precisamente naquilo que toca o fundamental valor da vida humana» (EV, 3-4).

Finalmente, a quarta que me marcou indelevelmente, traz o título A Fé e a Razão, de 14 de Setembro de 1998. Como escreveu D. Manuel Clemente (na obra atrás referida, p. 180), «a segunda metade do século XX acentuou a desconfiança sobre a capacidade da razão humana para atingir a verdade universal e objectiva… Esta desistência teria consequências redutoras no estatuto da religião, deixada à sensibilidade apenas; do direito, que se resumiria ao positivismo ocasional; da sociedade e da cultura, igualmente rarefeitas. Com a Fides et Ratio, João Paulo II insiste de novo na capacidade da razão humana para se abeirar da verdade, do bem e do belo, sendo essa aliás a única base estável da humanidade no seu todo. A fé e a razão são como “duas asas”, que elevam o espírito humano até à verdade de que não pode dispensar-se». Infelizmente, podemos constatar que a aludida desconfiança se intensificou ainda mais até aos nossos dias.

É oportuno lembrar ainda que foi João Paulo II, com o Cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, quem procurou tenazmente interpretar, em continuidade com a Tradição viva da Igreja, os documentos do Concílio Vaticano II, onde aliás estiveram, de diversos modos, presentes e muito activos (sobre a intensa participação e influência do bispo/arcebispo K. Wojtyła no Concílio Vaticano II, ver a referida obra de George Weigel, pp. 130-150 e 171-172). Ambos contrariaram, como lhes foi possível, os subsequentes abusos, que tanto angustiaram já Paulo VI, daqueles que leram o Concílio num sentido liberal, progressista ou até revolucionário, sem quererem saber da continuidade entre a Igreja do pré e do pós Concílio; ao contrário, advogando mesmo uma rotura. Quem esteja atento aos media eclesiais internacionais, sabe que há quem advogue já uma intentada nova Igreja Católica…é só observar o que se está a passar actualmente na Alemanha, com o seu Der Synodale Weg, O Caminho Sinodal…

São João Paulo II encontra-se com Mehmet Agca, que o tentou assassinar na Praça de São Pedro

O impacto do Papa João Paulo II na evolução das relações políticas internacionais, nas múltiplas frentes em que se desenrolaram conflitos, e o modo como a eles reagiu, é reconhecido. Neste contexto, apenas saliento as seis históricas viagens ao seu país natal e aquela de 1998, à Cuba de Fidel Castro. Também memorável foi o encontro com o Chefe de Estado da então URSS, Mikhail Gorbatchev, em visita oficial ao Vaticano, no final de 1989, semanas depois da queda do Muro de Berlim. A ameaça que ele foi para o Leste comunista, por um triz – ou melhor, não fosse um milagre que o próprio afirmou – ia custando-lhe a vida, no atentado ocorrido a 13 de Maio de 1981 e que motivou a sua primeira peregrinação ao Santuário de Fátima, passado um ano.

E como não ter presente estas suas comovedoras palavras, dia 12 de Maio de 1982, na Capelinha das Aparições, em Fátima: «[…] desde que se deu o conhecido atentado na Praça de São Pedro, há um ano atrás, ao tomar consciência, o meu pensamento voltou-se imediatamente para este Santuário, para depor no coração da Mãe celeste o meu agradecimento, por me ter salvado do perigo. Vi em tudo o que se foi sucedendo – não me canso de o repetir – uma especial protecção materna de Nossa Senhora. E pela coincidência – e não há meras coincidências nos desígnios da Providência divina – vi também um apelo e, quiçá, uma chamada à atenção para a mensagem que daqui partiu, há sessenta e cinco anos, por intermédio de três crianças […]».

Quanto a iniciativas pastorais, saliento as mais de cem viagens por mais de cem países, para presidir a jornadas mundiais da juventude ou da família, que ele instituiu, além de múltiplos discursos em organizações internacionais. E não é possível esquecer o memorável Grande Jubileu do Ano 2000, preparado ao longo dos três anos anteriores, durante o qual, em Março, pronunciou um solene Mea culpa da Igreja, para «purificar a memória do caminho dos cristãos nos séculos» passados e certamente também no XX…

Não esqueço ainda, no auge deste Grande Jubileu, a elucidativa Declaração Dominus Iesus, de 6 de Agosto de 2000, «sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja», apresentada publicamente, dias depois, pelo próprio cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Foi muito contestada pelos adeptos do indiferentismo religioso e do federalismo das diversas denominações cristãs, apesar do próprio Papa a ter explicitamente ratificado e confirmado «com ciência certa e com a sua autoridade apostólica» (sic). Aliás, sobre esta Declaração, sentiu o Papa a necessidade de sublinhar a sua relevância, por ocasião da oração a Nossa Senhora, no domingo, dia 1 de Outubro, afirmando: «A minha esperança é que esta declaração que tanto me está a peito, depois de tantas interpretações erradas, possa desempenhar finalmente a sua função esclarecedora e ao mesmo tempo de abertura».

E que dizer dos seus apelos à santidade e das inumeráveis beatificações e canonizações a que presidiu? Foram mais do que as de todos os seus predecessores. Ousou vários gestos absolutamente inéditos no âmbito ecuménico e inter-religioso, sempre na esteira do Concílio. Encetou reformas: decretou um novo Código de Direito Canónico (1983), foi assinada uma nova Concordata com a Itália (1984), reformou totalmente a Cúria romana (1988). E fundou várias Academias e Institutos de estudos, dedicados especificamente à Vida e à Família, cuja urgência pressentiu e que lhe eram tão caros…

Algumas relações com instituições ou personalidades católicas de renome, revelaram-se muito delicadas e difíceis, como revela o sucedido, por exemplo, com os Jesuítas, ao tempo em que o padre Pedro Arrupe foi Padre-Geral (de 1965 a 1981); mas também com o teólogo suíço Hans Kung, proibido, em 1979, de ensinar em nome da Igreja e com Leonardo Boff, um dos expoentes da chamada teologia da libertação; e ainda, noutra banda do espectro, também com o arcebispo Marcel Lefebvre, que também tinha participado do Concílio Vaticano II, sujeito a excomunhão em 1988, por consagrar bispos, sem mandato do Papa, quatro dos seus padres da Fraternidade São Pio X.

João Paulo II foi impecável? Ninguém o é: fora o próprio Cristo e Sua Mãe, não houve, não há nem haverá humano que não tenha cometido pecado algum; ou que o não tenha herdado por essa mesma condição de pertencer à única espécie humana. Aliás, é sabido que se confessava frequentemente. Configurou-se com Cristo, tanto quanto livremente quis e lho concedeu a graça divina, no modo de ser Homem e na filiação divina por adopção; e também no modo tão sublime como se uniu à Sua Paixão, sem falso pudor e durante muitos anos, já depois do atentado de 1981, através das sucessivas e incapacitantes enfermidades de que foi acometido. Testemunhou as virtudes da fé, esperança e caridade cristãs de forma heróica e exemplar. A sua canonização pelo Papa Francisco no dia 27 de Abril de 2014, é isso mesmo que atesta.

Enfim, há que reconhecer que defendeu com clareza a fé apostólica de sempre, enquanto Sucessor de Pedro, e nela nos confirmou a todos, seus irmãos (cf. Lc 22, 32); e que nos levou a alimentarmo-nos do bom pasto (cf. Jo 21, 15-17). O Catecismo da Igreja Católica (de 1992) que nos legou, no sulco do Concílio Vaticano II – que sempre viveu na continuidade da Tradição – dão disso um claro testemunho. Nem se furtou a corrigir fraternalmente quem confundiu ou lesou a fé dos simples; nem se furtou a todos os esforços conducentes a uma reconciliação com dissidentes de diversas tendências do espectro teológico. Muitos já lhe reconheceram a grandeza, inclusive um dos sucessores, que, por mais de uma vez, lhe atribuíram o justo cognome de Grande.

De facto, aquilo que sobre este modelo de Homem e Santo escreveu D. Manuel Clemente no já citado livro (p. 91), isto é, que «João Pulo II é um “sobrevivente” dos maiores desafios colocados à humanidade, do nazismo ao comunismo, salientando como poucos o valor da dignidade humana e da liberdade cristã», mantem toda a actualidade. Saibamos também nós, sobreviver aos tempos que ainda continuam sendo os nossos, mas em que, agora, tantos outros desafiantes ismos – filhos daqueles, mas não só – nos assaltam por todos os lados, com uma força inusitada.

– Obrigado São João Paulo II por estes longos 26 anos, 5 meses e 18 dias de pontificado. A ti devo grande parte da minha formação humana e cristã. Agora no gozo da visão divina, na companhia de todos os santos na Igreja Triunfante, intercede por nós e pela Igreja de Cristo que ainda milita por este tão transtornado mundo!

Concluído a 13 de Maio de 2020