De acordo com os registos do CDC, houve nos EUA, desde o início do ano, duas centenas de casos de sarampo e duas mortes: um adulto e uma criança, ambos não vacinados. Isto não é nada se comparado com a realidade de 1963, o último ano antes da vacina. Nessa altura, quase todas as crianças nos EUA tinham sarampo antes dos 15 anos, o que se traduzia em cerca de quinhentas mortes e mil casos de encefalite por ano. Com a aprovação da primeira vacina em 1963, e com a sua aplicação generalizada, o número de casos caiu a pique. A doença foi declarada erradicada no ano 2000. Erradicada não significa que o vírus tenha deixado de existir. Significa apenas que não houve qualquer caso reportado no país durante os doze meses anteriores. Pequenos surtos foram acontecendo ao longo dos anos, geralmente em comunidades com baixas taxas de vacinação por razões religiosas ou filosóficas. Em 2019, por exemplo, o pior surto em quase vinte anos (1274 casos) centrou-se em Nova York e New Jersey, entre a comunidade judia ortodoxa, que é fortemente refractária à vacinação.
Os surtos de sarampo ocorrem, de resto, um pouco por todo o lado. A OMS registou um aumento de 50% nos casos registados a nível mundial entre 2016 e 2019. Mas os EUA são o único país em que o responsável governamental pela Saúde é contra a vacinação. RFK suspendeu comités científicos responsáveis por avaliar os programas de vacinação. Cancelou financiamentos dirigidos para a investigação e desenvolvimento de novas vacinas. No dia 26 de fevereiro veio dizer que o surto “não era invulgar”. Depois da primeira morte arrepiou caminho e reconheceu (2 de março) que era preciso “agir”. Mas agir como? RFK sugeriu que se tomasse vitamina A, corticóides (budesonide) ou um antibiótico (claritromicina). A OMS manda realmente dar vitamina A a crianças com sarampo, mas são crianças com deficiência de vitamina A. Vitamina A a mais, não só não ajuda como tem efeitos tóxicos graves no fígado e no cérebro. O budesonide, por sua vez, como todos os corticosteróides, pode provocar obesidade, depressão, irritabilidade e, nas crianças, perturbações do crescimento. Dos antibióticos nem vale a pena falar. Não se dão antibióticos nas doenças virais, qualquer mãe sabe isto.
Como é que se chegou até aqui? Em 2020 a contestação às vacinas era minoritária mas, depois da Covid, cresceu ao ponto de Trump nomear em 2025 um declarado activista anti-vacinas como secretário da Saúde da sua administração. Porquê? É fácil apontar a culpa à iliteracia científica, aos delírios new age das classes médias urbanas ou, claro, às redes sociais. Mas essas explicações não explicam nada, porque se aplicam a tudo. A verdade é que as pessoas continuam a fazer aquilo que sempre fizeram: decidir em função daquilo que consideram melhor para si e para a sua família e a sua comunidade.
Não foram a epidemia nem a vacina que levaram os americanos a desconfiar da ciência. Foi a política. Quando a Covid surgiu, Trump lutava pela reeleição. Viu a pandemia como uma ameaça e respondeu negando a sua importância. Numa América já muito polarizada, os republicanos compraram essa posição como comprariam depois a tese da manipulação das eleições. Quando a vacina chegou, estavam presos nessa percepção inicial. Vários estudos mostram que o número de mortes por Covid nos EUA foi, em alguns casos, duas vezes maior entre os eleitores republicanos do que entre os eleitores democratas.
Os peritos não ajudaram. Comprometeram-se irremediavelmente com o jogo político, perdendo a sua imagem de autoridade e competência. Em março de 2020, as autoridades federais fecharam as praias, perseguiram os surfistas e até o Presidente foi obrigado a cancelar os jogos tradicionais da Páscoa que acontecem todos os anos na Casa Branca. Em maio, a seguir à morte de George Floyd, a American Public Health Association declarou que o racismo era uma crise de saúde pública equivalente à Covid e recusou-se a condenar a violação dos confinamentos pelos manifestantes do Black Lives Matter. Entre as pessoas que andaram nas ruas contaram-se muitos políticos e, entre eles, Kamala Harris, a futura vice-presidente de Biden.
Tudo isto criou no público uma óbvia desconfiança em relação ao discurso científico. Estava tudo, ou assim parecia, ao serviço de agendas políticas. Irá o choque de realidade provocado pelo surto de sarampo reverter esta tendência.