11 de Maio de 2020

Apenas encontro uma razão para esta nossa troca de verdadeiras cartas, ultimamente tão frequentes. Só pode ser resultado, por um lado, da nossa velha amizade, mas por outro, das saudades dos envelopes, com estampilhas, às vezes exóticas, e carimbos de correios próximos e remotos, vindos de família vária, de amigos e amigas, de pessoas interessadas por nós e a saberem que nos interessamos por elas. Abrir a caixa de correio e não ver lá um envelope com o nosso nome e endereço manuscritos, deixava uma nuvem de decepção. Encontrá-los, criava de imediato uma expectativa, uma exaltação, uma ansiedade em abrir e ler. E a carta que vinha dentro era quase sempre causadora de uma alegria, pessoas que meditavam sobre elas próprias e que perguntavam por nós, e que ficavam a contar com que fizéssemos o mesmo. Tudo elaborado, em geral bem escrito. E não importavam para nada as cartas com erros de ortografia ou de gramática. Quantas cartas de modestas empregadas e empregados recebi que, apesar da dificuldade em se expressarem, e com caligrafias hesitantes, eram as que mais me comoviam! Escrever uma verdadeira carta, endereçar o envelope, colocar o sêlo e levá-la aos Correios, é toda uma liturgia em que se corresponde ao outro, e à amizade e ao verdadeiro interesse do outro por nós.

Caro Hans, nestes tempos em que tudo é por SMS, WhatsApp, email, tudo tão seco, tão curto e tão mecânico, não sabe a alegria que as suas cartas me dão! Há muitos anos que ninguém me escrevia como você agora me voltou a escrever. Abrir os seus envelopes e ler as suas cartas são motivo de grande satisfação. É prova da grande amizade do Hans, com a Woschiems AG a dar-lhe 12/14 horas de trabalho por dia e, mesmo assim, usar o seu precioso tempo para, de caneta em punho, ou tantas vezes no seu PC (não me importo nada, faço o mesmo!) lembrar-se que eu existo, confidenciar-me tanta coisa, pôr a carta no correio, e ainda ter prazer em ler o que lhe respondo! Estou-lhe gratíssimo!

E, claro, agradeço o que me escreveu de NY na semana passada! O Hans tem-me andado a falar de Coronomics, os Economics do Corona, uma ciência obscuríssima. Nesse assunto ninguém pesca nada de nada, nem os magos das melhores Universidades, como a Heidelberg Universität (a sua Alma Mater, caro Hans, nunca me esqueço!) que é das melhores lá da sua terra, nem a London School of Economics que é a oitava melhor, e por onde eu também passei depois de Cambridge. A União Europeia não tem nem parece que encontre bússula para atinar com tal obscuridade! Os 27, incluindo todos os seus alemães, e agora até o vosso Tribunal Constitucional, cada um está a puxar para a sua quintinha, uma incongruência e um desatino! Onde é que vamos parar? Olhe, na sua germana terra, vocês têm a sorte de ter disciplina, e de saber o que querem. O que não podemos é andar a dar abébias (e esta palavrinha? Aposto que o William nunca tinha ouvido ou lido! Vá ao dicionário, se faz favor!) à gente que o quer são apenas votos, e daí fazerem tolices colossais, e o povo que vá à vida.

Por mim, continuo neste querido Porto, de onde estou em crer que vou poder sair para St Andrews para a semana. Apesar de todo o confinamento, a simpatia e afabilidade desta gente de cá é sem par. Só tenho pena que o Golf de Espinho (o Oporto Golf Club) continue fechado. Sem jogar há tanto tempo, vou ter que perseverar para não subir o handicap.

Voltei a esbarrar com o Mayor aqui do Porto esta semana, a passear junto ao Homem do Leme, estátua que parece moldada para ele. Reconheceu-me, saudou, mas desta vez não falámos. Mas tenho andado a ver que anda num rodopio, e as medidas que tomou foram tão boas ou tão más quanto ao vírus que resultaram em cheio. Nos dias 5, 6 e 7 disse-me o Prof Dr José Luís Medina, genial médico que de vez em quando atende as minhas maleitas quando páro por cá, só houve três casos de CV19! O Mayor do Porto deve ser o campeão mundial na luta livre contra o monstro!

Aqui na Lusitânia parece tudo um bocado desorientado, e não é só nas finanças com os dramas centenários. Por exemplo, deviam falar com o Paulo Núncio, que no tempo em que foi Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, deu lições de cátedra. Esse não tapa a realidade com uma peneira: por exemplo, acha um escândalo os privados, e sobretudo os por conta própria, estarem aos papéis, incluindo os despedidos e em lay off, e os funcionários públicos lusitanos em pleno emprego com 1001 regalias. Eu só posso louvar e agradecer a esses magníficos funcionários, que muitos são bem melhores dos que temos na Escócia, e não têm culpa nenhuma destes desequilíbrios. Mas que aqui os há, lá isso há. E não acho muito justo os privados ficarem assim tão privados!

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13 de Maio 2020

Você saiu-me cá um sentimentalão, nem parece escocês! Claro que, como o William, eu vim reencontrar nesta nossa correspondência tão frequente um verdadeiro bálsamo. Com quem acha que posso falar assim, sem papas na língua, e a escrever o que me apetece? A não ser em casa, com ninguém! Estou cansado do politicamente correcto, do receio de usar termos e frases que pensamos inócuas, mas que nos crucificam se não as tornamos assépticas! Dizer que gostamos de algo, ou que temos uma opinião que não cumpre com os novos cânones das minorias é pecado mortal, de tal forma que até há Universidades onde cientistas que lhes desagradam, são expulsos. É claro que, com a vida e os interesses que tenho, sempre a saltitar de terra em terra e de continente em continente, a ter de botar opiniões em fóruns importantes, e de tomar decisões frequentemente muito difíceis, tenho que pesar cada palavra e cada vírgula que me sai! Por isso, estar aqui a escrever-lhe como agora, é um verdadeiro alívio, um oásis, una cosa mentale, como dizem os italianos de espírito renascentista.

Hoje já estou em Krefeld, mas ontem de manhã aterrei no aeroporto aí de Birre, depois de umas tranquilas 8 horas de voo desde La Guardia em NY. Fui directo (marginal de Cascais com trânsito…) ao Hotel Altis, que ainda está fechado, mas a minha querida barbeira Margarida já lá se encontrava com as tesouras em punho, e deixou-me tosquiado à moda de Hollywood: é uma artista, e já tinha saudades daquela alegria contagiosa. O que ela não contagia é nada nem ninguém com qualquer tipo de vírus, pois desde que entrei até que saí aquilo foi uma desinfeção pegada e permanente, aos instrumentos, ao espaço da barbearia, à minha roupa, às máscaras, e a um avental de plástico transparente que me cobriu dos pés à cabeça, que é como manda a lei.

E aproveito para confessar ao William o estado de verdadeiro alarme, eu diria mesmo pânico, em que me encontro com a história da sentença do meu Tribunal Constitucional em Karlsruhe, e de que você fala. Lançaram uma bomba atómica sobre o sistema nervoso central da União Europeia, pode crer! Não interessam os detalhes, você sabe, é o assunto complicado da compra pelo Banco Central Europeu de dívida pública dos estados membros. É um tiro naquele porta aviões que vai de ter de pedir rebocadores se quer continuar a navegar, e cujo comandante e oficiais (os juízes…) ficaram desautorizados. A Lusitânia, que está endividada até acima das orelhas, onde a poupança não existe e que às vezes quer deixar viver até ao estertor empresas do Estado inviáveis, que se acautele! Até por que isto pode levar ao drama do default por incumprimento de alguns Estados, o que seria uma catástrofe se isso acontecesse com os nossos queridos portugueses. Isto é um terramoto em que Karlsruhe é o epicentro, e Frankfurt, onde está o BCE, é a vítima da primeira onda telúrica. E já tem réplicas fortíssimas em Bruxelas e no Luxemburgo. Os burocratas de Bruxelas, em quem ninguém votou nem elegeu, e que têm de reconhecer-se entre os grandes culpados disto tudo, devem estar ralados e a ver esfumarem-se aquelas vidas confortáveis e sem accountabilty nenhuma. Nossa Senhora de Fátima (hoje é 13 de Maio!) nos valha!

Mas já que o William filosofou com a nossa correspondência e gosta tanto do Porto, deixe-me falar. A minha paixão é por Portugal, como você, mas também por Lisboa! Nas vezes em que estou na minha casa da Calçada da Estrela, do meu terraço, de dia ou noite, o que quero é contemplar o Tejo, onde sinto o flutuar da luz, o céu de tão azul a santificar-nos por dentro, os veleiros, talvez a prepararem-se para alguma regata, mas como que à espera de partir para o mundo como o Vasco da Gama. E vejo cargueiros a chegar e a partir num linguajar indecifrável, envoltos em mistérios de gente aventurosa e inesperada que se foram ou vão perder pelos bares do Cais do Sodré ou reencontrar-se com o trinar e a poesia nostálgica do fado que ainda se canta nas vielas de Alfama. E aqui sopra sempre uma brisa suave a levantar o véu do Infante D. Henrique, que com os que no monumento o acompanham, mostram a grandeza de Portugal. E que nunca deixam de brilhar, e se reflectem como num espelho de prata que é o rio nas noites de lua cheia, tendo ao fundo as luzes dos cacilheiros a cruzar para cá e para lá, noite após noite, incansáveis. É esta a Lisboa que amo, com alfacinhas que conservam no seu sangue a mais genuína aristocracia popular, a quem só já falta o que eu ainda conheci, os pregões das sardinhas, do Diário de Notícias, do amola tesouras e navalhas. Mantêm-se imunes às multidões estrangeiras a fotografar cada canto, e a repetirem até à exaustão how beautiful, wie schön, ce que c’est beau. E contemplo o espaço infinito até à outra banda, uma visão até à Serra da Arrábida, tudo numa nuvem que mais parece sonhada.

Desculpe este devaneio, mas perceba que foi só apenas uma noite e dois dias de Portugal!. Precisava de violino a acompanhar…

Vou ficar apenas três ou quatro dias aqui em Krefeld, e depois vou se calhar ter de dar uma saltada a Tokyo. Para a semana lhe conto.

Grüsse und, como sempre, freundlische abraços,

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.