O recente estudo sobre a saúde mental dos jovens universitários em Portugal é alarmante. Conclui que 40% dos estudantes universitários tomam psicofármacos semanalmente. Além disso, um em cada 10 toma anfetaminas ou estimulantes e mostra elevados níveis de ‘burnout’ e falta de apoio psicológico. Além disso, dos 2339 estudantes inquiridos, 60% deles confessaram que se sentiram fisicamente exaustos no último mês e outros indicadores como tristeza, incapacidade de controle e frustração. O estudo conclui que o cuidado com o bem-estar psicológico é essencial no ensino superior, além de outras recomendações úteis, mas questiono se o problema está diagnosticado na totalidade.

Para além de recomendar que se fomentem ações de prevenção e cuidado com a saúde mental no ensino superior, o estudo aponta que os alunos veem os professores a usar métodos de ensino “monótonos” e que existe uma relação ainda “vertical” com os alunos. Segundo este estudo, os docentes não têm em conta os novos tempos, em que as relações são mais “horizontais”. “Alguns professores ainda não ultrapassaram aquela questão das aulas teóricas doutorais e, portanto, há aqui uma grande distância para os alunos”; “as relações na sociedade estão muito mais horizontais”; e “os professores têm de saber como lidar com esta situação”, conclui o estudo.

Algumas das recomendações do estudo fazem completo sentido, como, por exemplo, lidar com a questão dos fármacos de uma forma mais responsável. Muitas vezes, os miúdos estão apenas um pouco ansiosos perante exames e são-lhes logo impingidos medicamentos, e esta sobremedicação não é de todo promotora da saúde mental, sequer física, e indutora do seu crescimento. Este é, desde logo, um problema grave na nossa sociedade. Quando apenas tratamos problemas com medicamentos, estamos a drogar as pessoas e não a permitir que se conheçam, cresçam e verdadeiramente lidem com os seus problemas. Sei que há situações mesmo necessárias de medicação, mas não falo nesses casos.

Que os jovens estão cada vez mais deprimidos e exaustos, é também um facto. Vejo isso na minha prática como professor, mas não sei se as razões para tal se prendem totalmente às conclusões deste estudo. Há professores excessivamente expositivos, é verdade, e o mundo digital de hoje não se coaduna com esta monotonia e ritmo. Até eu, que sou um ávido leitor, estou a ler agora o “Dom Quixote de la Mancha” e reconheço que tenho muita dificuldade para o ritmo daquela história. Saboreio o livro devagar, mas nem sempre é fácil, pois o mundo de hoje tem uma rapidez e os estímulos são tantos e rápidos que o convite à lentidão é difícil. Mas tão necessário. Dom Quixote e os clássicos são todos atuais. André Gide dizia que “tudo o que precisa ser dito já foi dito. Mas, como ninguém estava a ouvir, tudo precisa ser dito novamente”.

É claro que não estou a referir professores “tóxicos” ou inaptos ao nível das metodologias. “Tóxicos” ou ditadores, não conheço nenhum; esses tempos penso que já passaram. Mas poderão ainda existir. No tema da inépcia nas metodologias, por exemplo, não me identifico com dar muitos trabalhos para casa, como alguns colegas dão. Procuro não dar os “15 minutos académicos” —esta coisa patética portuguesa—no início das aulas para S. Exas. chegarem, pois são muito atarefados. Tento aproveitar ao máximo o tempo de aula e não dar muitos trabalhos para casa, pois, tal como eu, eles também têm vida pessoal.

Pelo facto de os estudantes estarem grande parte do tempo expostos ao TikTok e ao veloz swipe do Instagram, não quer dizer que o processo de aprendizagem tenha reduzido o seu tempo e complexidade nem que o que é importante aprender tenha sido alterado. Sei que para ensinar gestão comercial, posso expô-los a roleplays de negociação, a experimentar softwares de CRM; em gestão de recursos humanos, a fazerem um diagnóstico da coesão e cultura da sua equipa ou exercícios e casos de estudo, e eles gostam bastante; já o experienciei. Mas também têm de ter contacto com os principais conceitos e teoria – por sinal, nada mais prático – em que se baseia a realidade de todos os dias nas empresas.

Já o não dormirem ou alimentarem-se bem, como aponta o estudo, é difícil de combater do nosso lado. Os professores são monótonos, ou os alunos estão a dormir? E mais: muitas vezes vêm com “problemas pessoais” os quais não podemos resolver, apenas atenuar, e se vierem ter connosco, o que nem sempre (ou nunca) acontece, como é natural. O professor não é psicólogo nem pai. Só com a permissão dos alunos, o que nem sempre acontece.

Se estas razões para a má saúde mental são plausíveis e bem apontadas pelo estudo, há outras que estão omissas. A pressa com que esta geração quer ver resultados não se coaduna com o tempo que leva a aprendizagem. Por outro lado, é perigoso questionar a hierarquia na sala de aula, como este estudo e as conversas que ouço sempre sobre “as relações que têm de ser mais horizontais”. Ouço muitos pedagogos deste tempo a dizer que temos de acabar com o “Top-down”. E que o ajustamento às novas tendências tem de ser apenas dos professores. Tenho muitas dúvidas. Temos de adaptar as nossas aulas a metodologias mais ativas e dinâmicas e que promovam a motivação da aprendizagem, é certo, mas os alunos também têm de se adaptar ao conhecimento que não se obtém com um scroll rápido. Nem com duas horas de sono.

Querem que o professor seja o “amigo” dos alunos? É uma catástrofe que está a acontecer ao nosso ensino e, sim, não ajuda a saúde mental dos nossos jovens. Esta abordagem supostamente “empática” não causa senão o efeito oposto, a desorientação, o caos e a infantilização cada vez maior dos nossos jovens. É perigoso querer acabar com as hierarquias, pois, se o professor é igual aos alunos, o que está ali a fazer? Isto não implica que não ouça o contributo dos mesmos, mas se é de facto um bom professor, supostamente mais sábio e experiente, está ali para orientar, mesmo com as novas tecnologias. E como as novas tecnologias precisam de curadoria e espírito crítico. Ouvi um dirigente do ensino superior a afirmar que o nosso ensino é muito “top-down” e pergunto-me se dá aulas, de facto. Ou se quer mesmo ensinar e tem algo a ensinar. Porque se não há nada para ensinar e é tudo opinião ou tudo o que os investigadores e práticos para trás e hoje descobriram não vale nada e os meninos de hoje é que vão inventar a roda, vamos acabar com as universidades. Os meninos ficam com o seu smartphone e o seu ChatGPT. Esta é a mesma lógica que advoga que os pais devem ser também menos “top-down.” Devem deixar que os meninos façam o que quiserem. Claro, isto não pode dar bom resultado. É o resultado que já temos hoje: jovens sem rei nem roque, nem orientação. Em casa, podem fazer o que quiserem; na escola também. Como dizia bem o pediatra Mário cordeiro, esta geração é a mais bem preparada mas também a mais narcísica. E se soubermos um pouco de psicologia, este narcisismo não aparece do nada. Vem de casa. Quem está habituado a não ser contrariado e a ser o centro de tudo, por pais ausentes ou demasiado presentes e que não fornecem limites para que o jovem possa navegar neste mundo—de escolas que têm medo de ensinar, de professores transformados em animadores—claro que o jovem pensa que tudo gira à sua volta.

E vai embater de frente com um mundo impiedoso com narcísicos. E por isso não digo que esta seja a pior geração nem nada disso, mas devemos ter o quadro completo das razões que causam esta situação. As gerações de hoje não precisam só de empatia barata, mas de orientação verdadeira. Amor, carinho, mas também verdade. A vida custa, aprender custa. A vida é maravilhosa de viver, mas não é grátis. Eles não sabem tudo, nem perto nem de longe, mas não é preciso pressa. Têm o mundo a seus pés se quiserem aprender e crescer devagar e com passos firmes e humildes. Com espírito crítico, é certo, mas o espírito crítico implica atenção. E depois de uma pergunta. A pergunta surge sempre da observação, como se diz na ciência. Estão a observar o quê, o TikTok? Ou uma aula, ou um livro, sequer? As grandes coisas não se alcançam de graça, mas com muito trabalho e conhecimento. E mesmo quando o saber é revisto ou superado, nunca parte do vazio. É sempre um diálogo com o que foi pensado antes. Antes de inovar e de quebrar regras, é preciso conhecê-las. É isso que esta geração precisa de aprender. E venham eles quebrar as regras, sim, pois a mudança é certa.

Se lhes dermos isto — exigência com afeto, empatia com verdade — talvez voltemos a encontrar o sentido da escola. E, com ele, uma saúde mental mais robusta e mais profunda. Não anestesiada. Mas conquistada.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

Hospital da Luz Johnson & Johnson Innovative Medicine

Com a colaboração de:

Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos