Na sua próxima estada em Portugal, o Papa Francisco vai visitar a sede de Scholas Occurrentes (SO), em Cascais, “uma organização internacional de direito pontifício, presente em 190 países dos cinco continentes, que […] visa criar uma rede de escolas para a inclusão, com recurso ao desporto, à arte e ao pensamento” (Público, 18-7-23).
Tendo em conta a ida do Papa à sede de SO, em Cascais, a Voz da Verdade, na sua edição de 25 de Junho passado, publicou uma ampla reportagem sobre este movimento, cujo coordenador no nosso país é Francisco Martín, cujas competências educativas, ou pedagógicas, não são referidas. Este argentino, de 31 anos, há oito anos que integra o projecto SO e, desde Março de 2022, vive em Portugal, com a namorada, também argentina e igualmente empenhada nesta iniciativa. Gosta de viajar e de conhecer novos países e línguas: “Tinha interesse em fazer uma experiência noutro lugar, como Portugal, e aprender um idioma novo. Quando fazemos parte do Scholas, fazemos parte do mundo! Já visitei muitos países na América Latina, na Europa e até na Ásia. Com o Scholas, tive a oportunidade de conhecer o mundo todo, praticamente.” Tanto ele como a namorada de “há quatro, cinco anos”, consideram que “Portugal é um país incrível”, “as pessoas são muito educadas” e acolhedoras e a gastronomia é também “incrível, única, simples e original.” De Portugal, apenas “conhecia o futebol, em especial Cristiano Ronaldo e o Figo”.
Foi num contexto de grande conflituosidade social que o actual Papa, então Arcebispo de Buenos Aires, fundou este movimento: “Em 2001, a Argentina vivia uma crise social, económica e política. Toda a gente gritava, na rua, o tempo todo. Também na escola, em particular o ensino secundário, a educação falava de outras coisas … Então, nessa altura, o Cardeal Bergoglio chamou directores de diferentes escolas, quer públicas, quer privadas, quer de diferentes religiões. Ele queria chamar os jovens para escutar o que estava a acontecer com as suas vidas. A intuição dele, do Cardeal Bergoglio, era que a educação e a vida se começaram a separar uma da outra. O movimento quis então juntar jovens, para os ouvir, para saber o que estava a acontecer nas suas vidas, e conseguir, com eles, dar uma resposta que fosse criativa, única, singular, como cada pessoa é. No fundo, um espaço de liberdade, mas que faça sentido na vida das pessoas.”
Embora o nome SO sugira ensino, estas Scholas não são escolas em que se leccionam conhecimentos, ou se dá catequese e, por isso, Francisco Martín, que usa uma cruz ao peito, não fala de Deus, nem da Igreja. Embora seja uma Fundação Pontifícia, o objectivo de SO não é a formação cristã, ou a conversão dos jovens, mas a sua inclusão social. Este projecto nasceu e mantém-se não religioso, mas social e cultural. Actua à margem das dioceses e das paróquias, porque relaciona-se principalmente com as instituições educativas e sociais da zona. Não é, portanto, uma organização eclesial.
Segundo o seu responsável em Portugal, o que caracteriza SO é o que o próprio denomina a “cultura do encontro”: “Todos os nossos diferentes projectos são isso: ouvir os jovens, procurar que as pessoas se encontrem umas com as outras e criar uma cultura do encontro. Esta é uma proposta que procura criar uma cultura diferente, a partir do encontro entre pessoas diferentes. O Papa acredita – e nós, que fazemos parte disto, também – que uma educação que não escuta, não educa; uma educação que não cria cultura, não educa; e uma educação que não ensina a celebrar a vida, não educa. Por isso, nós procuramos escutar, criar e celebrar.”
SO é, portanto, um espaço de diálogo e de interacção: procura-se que o “encontro” de jovens diferentes seja em si mesmo formativo, senão de conteúdos doutrinais ou morais, pelo menos de uma cultura do respeito pelo outro, na sua diferença, e de liberdade, na pacífica convivência entre pessoas que têm em comum a sua condição juvenil, que as capacita para esse diálogo e partilha de ideais. Não é por acaso que Francisco Martín considera que o Papa é, sobretudo, “um líder espiritual e social”, “alguém que consegue criar um espaço na cultura, para criar algo novo”.
Para construir uma “cultura diferente”, este projecto socorre-se de “três linguagens onde permanece o ser humano, onde bate a vida, como diz o Papa Francisco.” São eles, em primeiro lugar, a arte, “seja a pintura, música, dança, onde pessoas diferentes conseguem encontrar-se e expressar-se, sem perder a sua própria singularidade.” Depois, “jogar, brincar. O desporto é uma expressão de jogo, mas também o teatro. O mundo de hoje esqueceu a importância de brincar”, segundo Francisco Martín. E, em terceiro lugar, o “pensamento contemplativo”, que não significa uma atitude transcendente, nem religiosa, mas um “pensamento aberto, que se consiga espantar com a vida, que consiga reflectir sobre o que está a acontecer.”
De acordo com a metodologia do “escutar, criar e celebrar”, SO está a elaborar, para a visita do Papa, um enorme mural, que tem por título: “Vida entre mundos” e em que se pretende que toda a comunidade de Cascais esteja envolvida. Segundo Francisco Martín, procura-se que “cada grupo de jovens, de idosos e de crianças consiga ter um espaço onde possa partilhar a sua própria vida, a sua realidade e consiga expressar isso através de uma pintura”, que vai depois ser integrada “numa única obra. Será um mural longo, para que todos consigam fazer parte de uma única obra, mas sem perder a sua própria singularidade. Para nós, Scholas, o projecto ‘Vida entre mundos’ é uma síntese da nossa pedagogia. Porque o importante acontece entre as pessoas, entre mundos.”
À luz de SO, compreende-se que, para alguns e, eventualmente, também para o Papa Francisco, as JMJ, mais do que uma catequese multitudinária, ou uma gigantesca celebração da fé, são, sobretudo, um encontro mundial de jovens. Por isso disse-se que as JMJ não pretendem a conversão a Cristo, nem à Igreja, porque uma tal intenção ‘proselitista’ afastaria os jovens de outras religiões, agnósticos ou ateus.
Numa sociedade tão dividida, é necessário valorizar a fraternidade universal, promovida pelo Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti, bem como por outras religiões e organizações, e que é, certamente, positivo. Mas seria pena que essa abrangência desvirtuasse o propósito inicial das JMJ, segundo as palavras do seu fundador, o santo Papa João Paulo II: “A Jornada Mundial da Juventude significa precisamente isto: sair ao encontro de Deus, que entrou na História do homem através do mistério pascal de Jesus Cristo. E Ele quer encontrar-vos primeiro a vocês, jovens. E a cada um quer dizer: segue-Me!” (JMJ, Roma 1986).