Aí para os fins os anos cinquenta, inícios de sessenta do século XX quando a Espanha se abriu a sério ao turismo, um qualquer guardia civil com aquele uniforme austero com correames apostos e tricórnio emblemático, dirigiu-se numa praia a uma turista inglesa de bikini e intimou-a informando-a que “…los trajes de baño deben ser de una sola pieza…”. Ao que ela respondeu que, por favor, ele lhe indicasse se deveria tirar a parte de cima ou a parte de baixo…
Esta anedota, que é célebre e certamente se terá passado para grande gáudio de assistências várias, sobretudo libertárias e de esquerda, encontra agora o seu contraponto no projecto de lei lançado há poucos dias no nosso Parlamento, pelo partido que é classificado de extrema-direita (?) nos media, contra o uso da burka em espaços públicos.
Porque estabeleço este paralelo, aparentemente ínvio?
Deixem-me ser claro: eu serei classificado como um conservador de direita defendendo valores como Deus, Pátria, Família como elementos necessários e básicos para a estruturação de uma sociedade. Mas como conservador defendo também que, para além desses valores que deveriam ser espelhados numa organização social e legislativa clara e sólida, não devemos fechar os olhos à realidade e devemos evitar confrontos que podem ser evitáveis, se geridos com distância e ponderação.
Recuso liminarmente a exibição de leis que visam a luta política de forma unívoca e não a resolução de problemas e o enquadramento social.
Falo com algum conhecimento de causa: estive cinco anos a trabalhar em País muçulmano e sei bem o que significa relegar a mulher ao furo acima de bicho e abaixo de homem. No País onde estive, em tribunais “civis”, o testemunho da mulher vale metade do do homem!
Por experiência de vida não sou assim defensor de burkas e estarei certamente ao lado dos defensores dos bikinis!
Confrontado com a realidade também – a minha família está ligada à vitivinicultura e temos uma exploração média para a Região de Lisboa – constato que, quando vou pôr pessoal a trabalhar hoje em dia, tenho (apenas como exemplo) nepaleses ou moldavos, mas nenhum português!
Ou seja: há que encontrar solução para este dilema.
E só vejo uma: sem hostilizar quem cá está – e se um projecto de lei quanto a burkas se revelar necessário, não digo que não – a primeira coisa a fazer seria falar com quem a esse mundo está ligado procurando que, antes de vir para a praça pública com discursos fracturantes e escandalosos tentar explicar e perceber. A verdade é que a uma acção vem uma reacção e a imposição ignorante fará com que povos a nós estranhos se encolham na sua trincheira e se sintam acossados, recusando uma aprendizagem nossa que lhes traria certamente outra abertura e alegria de viver. Da Natureza sabemos que o animal acossado reage mal ou com violência.
Um dos meus maîtres à penser, Jean d’Ormesson, definiu que o Erro Marxista, era de “…imaginar que só a situação económica é importante. Os sonhos contam tanto, ou talvez mais, que o dinheiro…” Mas também indicou … “ que não podemos deixar de nos alegrar com todas as medidas tendentes a permitir aos mais desprotegidos viver menos mal. O defeito maior da direita francesa não é a estupidez, nem o gosto do cinema, nem as más companhias, nem o autoritarismo – aliás muito igualmente repartido, vê-se todos os dias, entra as nossas diferentes famílias espirituais -, é sim a falta de generosidade.”
Uma das mais belas parábolas do Novo Testamento conta-nos que trouxeram a Jesus uma mulher acusada de adultério, perguntando-lhe se, no cumprimento da Lei de Moisés, a deviam apedrejar até à morte. Numa imagem quase cinematográfica, o Evangelho diz-nos que Jesus não respondeu logo e se entretinha a escrever com um pauzinho na areia. Depois levantou os olhos e virando-se para os homens de pedras na mão prontos a cumprir a sentença disse-lhes: “Aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.
Então, numa cena comovente e digna de ser filmada por um Visconti, um a um foram-se todos embora, ficando a mulher sozinha em frente a Jesus que lhe perguntou onde estavam aqueles que a queriam apedrejar, tendo ela respondido que se tinham ido.
Então, num remate que faz o Cristianismo, Jesus disse-lhe que por Ele, ela estava perdoada, que se fosse à sua vida não voltando a pecar.
Lembro-me disto todos os dias e ajuda-me a olhar o próximo.