No discurso de derrota das presidenciais, André Ventura assumiu-se como o líder da direita portuguesa. A afirmação não surgiu num momento de vitória nem como síntese de um programa. Surgiu como leitura política de um resultado e é precisamente por isso que merece ser levada a sério.
Ventura não se apresentou como liberal ou social democrata, nem tentou apropriar-se dessa linguagem. Disse algo mais simples e, por isso, mais ambicioso: afirmou-se como líder da direita. Sem adjetivos. Sem qualificações. Como se a direita fosse um bloco homogéneo, ideologicamente coerente e naturalmente convocável.
É aqui que começa a confusão.
A direita nunca foi uma coisa só. A direita liberal, a direita conservadora e a social-democracia de matriz europeia partilham pontos de contacto, mas partem de pressupostos muito diferentes. Misturá-las sob o mesmo rótulo pode ser politicamente útil — sobretudo num discurso pós-derrota —, mas é intelectualmente pobre.
Quando alguém reivindica para Ventura votos “dos liberais”, convém fazer a clivagem com algum rigor. O liberalismo não é um estilo retórico nem uma intensidade discursiva. Pelo contrário, define-se como um modelo político exigente, moldado pela desconfiança do poder concentrado e pela rejeição de soluções absolutas.
Em muitos temas centrais, o Chega é tão liberal como os melros são laranjas — só mesmo no bico (e só alguns). Confia no Estado quando este promete ordem, aceita a centralização do poder em nome da eficácia e desconfia da liberdade sempre que ela não produz obediência imediata. Pode chamar-lhe direita, se quiser. Liberalismo não é.
Por outro lado, há quem tente resolver esta tensão vestindo o Chega com o fato da social-democracia. Confesso a minha dificuldade em acompanhar também esse exercício. A social-democracia — mesmo quando defende um papel robusto do Estado — construiu-se historicamente sobre compromissos institucionais, mediação social e gradualismo reformista. Não sobre o conflito permanente, a personalização do poder ou a política entendida como choque contínuo.
A social-democracia pode ser criticada por muitas coisas. Mas não nasceu da rejeição das instituições nem da simplificação moral da política. E é por isso que custa aceitar que o Chega seja lido como herdeiro dessa tradição, ainda que numa versão endurecida ou “descomplexada”.
O que explica, então, esta proclamação de liderança? Menos a coerência ideológica do Chega do que o vazio deixado à sua volta. Quando a direita democrática deixa de explicar o que a distingue — Estado limitado, liberdade económica, responsabilidade individual, separação de poderes — esse espaço não fica vazio: é ocupado por uma definição mais simples e mais ruidosa da política — ser contra, ser duro, ser imediato.
Isso pode agregar votos, sem dúvida, mas não constrói uma família política.
O liberalismo dá trabalho. A social-democracia dá trabalho. Ambas rejeitam soluções absolutas e líderes providenciais. Ambas aceitam que governar bem raramente rende aplausos imediatos. O que as aproxima não é a ideologia, mas a recusa do atalho e a desconfiança do poder sem limites.
Ser de direita, por si só, não chega. É preciso dizer de que direita se fala e, sobretudo, o que se rejeita em nome dela.
É aqui que a referida proclamação de “liderança da direita” encontra o seu limite. O resultado eleitoral de Ventura é politicamente relevante e não pode ser ignorado. Contudo, não autoriza a conclusão de que representa a totalidade da direita — nem sequer a sua maioria. Pelo contrário: estas eleições tornaram evidente a existência de uma direita significativa que não se revê no estilo, no método nem na visão de poder que o Chega propõe.
Se hoje alguém consegue reclamar a liderança da direita sem precisar de explicar essas diferenças, isso diz menos sobre quem o afirma e mais sobre quem deixou de as afirmar com clareza.