Os primeiros 13 anos da minha vida foram passados a fugir do meu pai. O medo era a minha companhia permanente, uma espécie de amigo indesejado com o qual fui forçado a conviver. A história conta-se numa frase, mas os episódios não caberiam neste artigo: desde o meu nascimento, o meu pai foi violento com a minha mãe. Quando eu tinha três anos, ela disse-me: “vamos fugir dele”. A minha resposta foi: “ainda bem, o pai é mau”. E ainda hoje penso, com um arrepio na espinha, o que terá visto uma criança de três anos para aceitar sair da única casa que conheceu e para afirmar, peremptoriamente, que o seu progenitor é um vilão. O eu adulto de 40 anos não tem memória desses três anos inaugurais, mas a marca da violência ficou para sempre.
Na vastíssima maioria dos casos de violência doméstica, a mulher é a vítima principal do ambiente temeroso. Mas as acções do agressor espalham um rasto de trauma por todo um ecossistema. No caso do que aconteceu com a nossa família, o meu padrasto teve de aguentar as investidas de violência psicológica do meu pai ao longo de mais de dez anos. Os meus avós maternos, emigrados na Alemanha, impotentes ao saber do que se passava deste lado da fronteira, tiveram de adormecer todas as noites sem saber se a própria filha e o neto não seriam assassinados pelo genro.
A minha ama tinha de gerir as ocasiões em que, de surpresa, o meu pai aparecia para me levar “a passear”, apesar de todos sabermos que ele queria apenas fazer de mim um joguete emocional para causar terror na minha mãe. Numa dessas ocasiões, tinha eu quatro anos, colocou um revólver no meu colo e disse que a arma tinha como propósito matar a minha mãe. Numa noite de Natal, passada na aldeia dos meus avós, arrombou a frágil porta da moradia e raptou-me. Às duas da manhã, largou-me numa estrada escura e mandou-me regressar.
Como digo, as histórias são mais que muitas e chegariam para preencher um livro (coisa que fiz num romance autobiográfico, entretanto esgotado, chamado Preciosa; actualmente, encontro-me a escrever um pequeno livro de memórias, ainda sem previsão de lançamento, sobre os efeitos que uma infância de trauma tem na masculinidade de um homem adulto). E estas histórias revelam uma realidade que não podemos descurar: as crianças são as vítimas de violência doméstica das quais temos de falar mais. Porque são elas os futuros adultos disfuncionais, traumatizados, afectados, em busca de uma vida convencional sem nunca ter sabido o que isso significa.
Digo-o com propriedade porque sou uma dessas ex-crianças, e sei bem o que passei até aqui chegar. Ser filho da violência doméstica é viver com um pedregulho emocional às costas, que nos faz demorar mais para chegar onde os outros chegam com facilidade.
Logo para começar, posso dizer que estou vivo por mera sorte. O trauma causou-me uma depressão brutal na adolescência, que me fez tentar o suicídio aos 19 anos. Numa era plena de auto-descoberta, apercebi-me com outra clareza de tudo o que havia vivido.
Algumas histórias mal contadas criaram em mim uma certa sensação de que a culpa tinha sido minha; afinal de contas, o meu pai até tinha sido um tipo porreiro antes do meu nascimento. Só anos mais tarde vim a descobrir que essa versão era falsa, e que o meu pai já era um estroina desgovernado muito antes do meu nascimento. Ao mesmo tempo, a rejeição paterna deixa marcas na infância e na adolescência de qualquer um. Saber que eu era indesejado por um dos meus progenitores criou um sarilho de auto-estima sem precedentes. Se eu era indesejado, para quê estar vivo? Foi no momento em que estava pendurado na varanda do meu quarto que se deu a epifania: a outra metade da minha progenitura amava-me e fizera de tudo para me criar como adulto minimamente funcional. Aquela era a paga que eu lhe daria por todo o esforço?
Não foi por desistir do suicídio que o sofrimento se atenuou. Muito pelo contrário. A angústia existencial foi uma garantia ao longo de décadas, e só me libertei da ideação suicida há uns cinco anos. Num momento em que achava que a carreira e o interesse feminino em mim iria preencher os vazios emocionais, quando já estava nos meus trintas, o trauma mudou de roupa. Numa madrugada, tive um acesso de pânico que me fez delirar a ponto de acreditar que a minha casa estava a ser invadida por meliantes.
Por desespero, agendei uma sessão de terapia. Rapidamente, percebi que o meu quadro ansioso não era momentâneo, mas que em toda a minha vida havia sofrido de alguns distúrbios de ansiedade e depressão – só não tinha forma de os identificar. Roo as unhas desde os três anos de idade, tenho uma compulsão para arrancar pelos e cabelos desde que me lembro (o distúrbio chama-se tricotilomania), tenho alguns traços de obsessão (conto os livros que tenho, certifico-me várias vezes antes de sair de casa que não deixei o ferro de engomar ligado, mesmo em manhãs nas quais não usei o ferro de engomar).
A terapia veio resolver e apaziguar alguns sintomas deste trauma. Hoje, sei lidar melhor com as minhas compulsões, com as minhas angústias existenciais. Mas não se pense que a terapia soluciona as coisas da noite para o dia. É um trabalho de fundo, e as epifanias são raras, inesperadas e demoradas. Para se ter uma noção: comecei a fazer terapia em 2018 e só em 2023 é que o meu pai deixou de ser tema habitual nas sessões.
Por ter um custo tão elevado e por ser um exercício que se prolonga no tempo, o Estado deveria ter um papel mais activo no financiamento do acompanhamento psicológico, e não apenas entre quem sofreu de violência doméstica. Toda a gente beneficiaria de uma sessão de terapia de x em x semanas, quanto mais não seja para ir fazendo uma certa manutenção mental. Da mesma forma que vamos ao dentista ver se não temos cáries, a terapia também é importante para irmos vendo se não temos ideias podres a contaminar o bom funcionamento da vida.
Nelson Nunes é escritor. Autor dos livros De Onde Vem Este Cansaço?, Com o Humor Não Se Brinca, Preciosa e Enquanto Vamos Sobrevivendo a Esta Doença Fatal, trabalhou como jornalista e investigador académico antes de chegar à consultoria de comunicação. Em 2022, venceu o International FITA Awards of Literature, na categoria de Melhor Crónica.
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