No dia 2 de Março, quando se declarou a crise pandémica, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) apresentava já reconhecidas debilidades e aguardava mesmo um significativo investimento prometido pelo Governo. As dificuldades no acesso dos utentes em tempo útil, as frustrações dos profissionais de saúde pela incapacidade de atualização e de desenvolvimento tecnológico – o corolário do desinvestimento crónico, do abandono pelo pessoal especializado, consequência de uma visão excessivamente politizada da Saúde, que lhe tem dificultado a necessária reforma.

Durante os meses que se seguiram, o SNS responderia à pandemia de uma forma exemplar. Primeiro, porque temos um serviço de saúde organizado, assente numa estrutura de saúde pública; depois, porque nos focámos bem na pandemia, deixando quase de tratar os doentes correntes; e ainda porque o pessoal de saúde, nos hospitais, nos cuidados de saúde primários, mas também no sectores social e privado, responderam com inegável competência, numa mobilização sem precedentes e com a mais exemplar das entregas. Mas também porque houve boa articulação e liderança das organizações oficiais da saúde e do Governo. Tudo isto fez com que a resposta à crise pandémica tenha corrido bem e que a imagem externa do País tenha saído reforçada.

Apostados na retoma dos cuidados de saúde, que nos é imperiosa, tentamos agora recuperar as listas de espera, entretanto agravadas, mas todos, profissionais, gestores e doentes, nos deparamos com dificuldades que comprometem a resposta e defraudam as expetativas. É que o SNS pós-Covid não é o mesmo que tínhamos antes. Partindo do status pré-existente à pandemia, o SNS acha-se hoje mais delapidado, o investimento feito foi setorial e para responder às emergências da crise, mas não foi sistémico, como precisava de ser. Resultado das medidas de segurança, os processos de trabalho tornaram-se muito mais lentos, o espaçamento social reduziu a capacidade instalada, redundando estes ditames de segurança numa colossal perda de eficiência em tempo e espaço. Os profissionais de saúde, como um qualquer exército, vêm de uma guerra onde lhes foram pedidos muitos sacrifícios e agora, para a retoma, são-lhes pedidos mais.

Preocupam-nos as dificuldades estruturais do SNS na resposta a mais este desafio, o de assumir a “nova normalidade”, tanto mais porque vemos o SNS ainda muito focado na pandemia.

Paradoxalmente preocupante é o facto de a imagem do SNS ter ficado recuperada face aos sucessos que vem acumulando no combate à crise pandémica e que nos poderá vir a impedir a necessária reforma e o esperado investimento de que necessita. Por que investiremos, em momento de crise económica à vista, num SNS que tão bem respondeu? As debilidades do SNS pré-pandemia parecem ter-se esfumado na boa resposta à crise pandémica: vimos, com incredibilidade, negar as cativações financeiras feitas, ouvimos falar das milhares de contratações de profissionais e ficámos a saber que nunca houve tanto, e tão bom, investimento no setor da Saúde. Os últimos sucessos abafam sempre as penúltimas falhas. É humano e será politicamente compensador, mas resultará muito perigoso neste momento para o SNS e para o futuro da nossa Saúde.

Todas as falhas anteriormente identificadas estarão agora agravadas pelo desgaste humano e estrutural, mas travestidas em sucesso pela boa resposta à pandemia. É que, infelizmente, para os profissionais, e sobretudo para os doentes, a realidade do SNS é bem pior do que a atual imagem que o público dele tem.

O SNS mantém-se como a “joia da coroa” republicana, talvez uma das melhores conquistas da democracia, mas também sabemos que teria de se ter adaptado às profundas mudanças ocorridas ao longo destes quarenta anos. Refiro-me à necessidade de uma reforma verdadeira, não a cortes ou medidas cosméticas, não a um qualquer articulado político, mas sim a uma reforma real do sistema de saúde. Ora, os momentos de crise são sempre as melhores oportunidades de mudança, pelo que este seria o momento para fazer a tão necessária reforma do SNS e de todo o sistema de saúde português. Justificada pela urgência em responder, não ao mesmo nível, mas sim acima do nível anterior à crise, indo ao encontro das necessidades dos doentes e das expetativas dos profissionais, a reforma seria facilitada pelo momento de exceção e pela justificável lógica de mudança dele resultante – uma oportunidade única para o futuro da Saúde em Portugal. A imagem do SNS pós-pandemia sai, na opinião pública, muito reforçada, esvaziando, assim, os argumentos de necessidade para a sua anunciada reforma e para o prometido investimento, argumentos que os atores políticos tendem agora a aproveitar.

Os profissionais, de sacrifício em sacrifício, acreditam já pouco na capacidade de reformar e a crise económica surgirá como a verdadeira segunda onda pandémica, fazendo morrer na praia os nossos melhores sonhos de investimento para a Saúde no curto prazo. A improbabilidade de, no atual quadro político, se vir a possibilitar um qualquer acordo de regime para a Saúde, acrescida da falta de uma qualquer figura messiânica reformadora da Saúde, tornam cumulativamente impossível uma qualquer mudança substantiva.

Ironicamente, numa altura em que também por motivo dessa crise, os portugueses mais precisariam de um sistema de saúde competente e socialmente abrangente, tanto mais que a crise pandémica demonstrou a importância e o valor estruturante de um SNS para esse mesmo sistema de saúde. É este SNS que, patrioticamente, deveríamos reformar, mas que não poderemos, porque a corte, indo com vestes transparentes, pensa-se bem vestida.