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Crónica

Subsídio is coming /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
392

Um gigante de olhos azuis montado num dragão zombie ainda tem laivos de verosimilhança. Agora o nível de pilhagem do erário público praticado por esta gente exige uma suspensão de descrença bem maior

Ontem, como não podia deixar de ser, estive a noite toda agarrado à grande obra de ficção dos tempos modernos, a saga de uma família das Terras Frias que, contra tudo e contra todos, luta para defender e expandir os seus domínios. Falo, como é evidente, da família de Luís Correia e Hortense Martins, presidente da Câmara de Castelo Branco e deputada do PS, e das atribulações passadas em busca de poder e fortuna. Há épicas trafulhices, há golpadas mágicas, há vilões tenebrosos. Só não há anões beberolas. Mas, se for preciso arranjar um, de certeza que o autarca tem um primo que é sócio do maior fornecedor de anões da Península Ibérica.

Antes de continuar, tenho de pedir desculpas por usar o velhinho estratagema de parecer conduzir o leitor em direcção a um tema óbvio da actualidade, para, num surpreendente volte face, mudar de rumo e falar afinal de outro tema. O estratagema implica comparar os dois assuntos e exagerar determinada característica naquele que desejo tratar, para produzir comicidade. Neste caso, a analogia é entre o grau de fantasia na Guerra dos Tronos e aquele que vislumbro nas aldrabices desta família de políticos, que, para efeitos de humorismo, considero ser superior. É um estratagema estafado e preguiçoso, típico de quem não dedicou muito tempo ao texto. Lamento, mas estive colado às façanhas de Luís Correia e Hortense Martins até o sol raiar, de maneira que acabei por nem dormir.

No episódio mais recente, os deputados da Comissão do Ambiente da AR foram em visita de estudo a Castelo Branco e, por coincidência, ficaram hospedados no Hotel da colega Hortense Martins. Isso, à luz do estatuto dos deputados, torna a estadia ilegal. Dormiu-se fora da lei, porque é incompatível ser-se proprietária de um bem que é contratado pelo organismo público para o qual se trabalha. Mesmo que, como acontece, o Hotel seja apenas um bocadinho de Hortense Martins, pertencendo a maior parte ao seu pai, Joaquim Martins.

Joaquim Martins que é um nome famoso para os verdadeiros fãs da saga albicastrense: trata-se de um dos proprietários da Strualbi, a empresa de alumínios que, como foi noticiado no ano passado, assinou vários contratos com a CM de Castelo Branco, mais precisamente com o presidente Luís Correia. Que é marido de Hortense Martins. Logo, genro de Joaquim Martins.

Outro proprietário desse empresa, sócio do sogro de Luís Correia, é, curiosamente, o pai de Luís Correia. Portanto, sogro de Hortense Martins, compadre do pai dela. Há ainda um tio, sócio de ambos, mas não quero complicar a vida a quem toma contacto com esta história pela primeira vez e ainda não domina os personagens. Apesar das queixas de que o Interior do país é esquecido, quando a conversa é sobre relações familiares nas cúpulas do poder socialista, a teia de interesses em Castelo Branco pede meças a Lisboa. Na corrupção somos cada vez mais descentralizados. Hoje em dia, um jovem beirão que queira fazer carreira em nepotismo, já não precisa de vir para a capital para ser bem sucedido.

Quando este caso foi denunciado, Luís Correia defendeu-se dizendo que não tinha reparado que o contrato que estava a assinar era com o próprio pai. Na altura, solicitei ao autarca que me ensinasse o truque para ignorar a família de uma forma tão ostensiva. Nunca obtive resposta. Volto a pedir agora, na esperança de ainda conseguir aprendê-lo a tempo do almoço de Páscoa. Por favor, Sr. Presidente. Será preciso meter uma cunha? Que pergunta, é claro que sim.

Entretanto, há duas semanas, Luís Correia foi denunciado como um dos autarcas que criou uma ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento) chamada L’Atitudes, com o intuito de receber subsídios atribuídos pela própria Câmara da qual é presidente. Uma falcatrua que, justiça lhe seja feita, desta vez não contou com a presença de nenhum familiar. Pelo menos que ele tenha reparado.

Afinal, é possível que o minha analogia inicial não seja assim tão descabida e que a Guerra dos Tronos seja mais realista do que isto de Castelo Branco. Já deu para perceber que Luís Correia inventa moscambilhas que nem o próprio George RR Martin teria talento para gizar. Um gigante de olhos azuis montado num dragão zombie que cospe fogo gelado, ainda vá, tem laivos de verosimilhança. Agora, o nível de pilhagem do erário público praticado por estas pessoas, assim como a desfaçatez com que esbulham, exigem ao leitor uma suspensão de descrença muito maior – mesmo tendo em conta que estamos a falar de autarcas portugueses.

Até em termos de promiscuidade familiar, apesar do repugnante namoro entre os gémeos Lannister ou de a tia Daenerys Targaryen andar enrolada com o sobrinho John Snow, a Guerra dos Tronos fica aquém da ribaldaria entre os filhos, tios e sogros da família de Castelo Branco, tudo na cama uns com os outros. E com as mãos marotas nos nossos bolsos.

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