Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional. Uma semana depois de ter garantido que se afastava assim que fosse necessário, menos de uma semana depois de ser titular contra o País de Gales e poucos dias depois de não jogar contra a Noruega, o capitão não resistiu às palavras de Jorge Jesus na conferência de imprensa de antevisão ao jogo contra a Dinamarca e deixou Copenhaga.

Ronaldo não treina, sai do estádio e deixa estágio (e Seleção): “A seu tempo, direi a verdade sobre a minha saída”

Mas o momento, embora seja o mais grave a ter Cristiano Ronaldo como protagonista dentro da Seleção Nacional, não é propriamente único — entre uma relação completamente destruída com Fernando Santos no Qatar, a boca a Carlos Queiroz na África do Sul, o microfone que acabou num lago em França e a braçadeira que foi ao chão na Sérvia.

2022, Qatar. “Estás com uma pressa do c****** para me tirar”

Não foi a primeira, mas foi a maior polémica de Cristiano Ronaldo dentro da Seleção Nacional até esta quarta-feira. No Mundial do Qatar, numa altura em que o jogador estava prestes a deixar o Manchester United para rumar ao Al Nassr na sequência da explosiva entrevista a Piers Morgan, as ondas de choque acabaram por rebentar junto do então selecionador nacional.

Ainda na fase de grupos, no Grupo H, Portugal venceu Gana e Uruguai nas duas jornadas iniciais. Na terceira, contra a Coreia do Sul e já com o apuramento para os oitavos de final garantido, Fernando Santos decidiu substituir Cristiano Ronaldo durante a segunda parte, por volta dos 65 minutos. Claramente desagradado, enquanto caminhava lentamente para o banco de suplentes, o capitão soltou a frase que acabou por marcar as semanas seguintes: “Estás com uma pressa do c****** para me tirar”.

“Não gostei mesmo nada”, admite Fernando Santos. Pela primeira vez não é Ronaldo e mais dez (mas pode jogar de início na mesma)

Numa primeira fase, Cristiano Ronaldo justificou-se e garantiu que as palavras eram dirigidas a um jogador sul-coreano que estava a pressioná-lo para que saísse mais depressa. Já Fernando Santos, tanto na zona de entrevistas rápidas como na conferência de imprensa, garantiu nada ter visto. No entanto, depois de ter acesso às imagens da transmissão televisiva, Fernando Santos não escondeu o incómodo. “Se já vi as imagens? Já. Se gostei? Nada. Não gostei mesmo nada. Mas as coisas resolvem-se dentro de casa”, disse o selecionador nacional na antevisão do jogo seguinte, contra a Suíça.

A reprimenda pública antecedeu a aparente consequência imediata. Nos oitavos de final, frente aos suíços, Fernando Santos surpreendeu tudo e todos e deixou Cristiano Ronaldo no banco, apostando em Gonçalo Ramos no onze inicial. Ronaldo entrou a cerca de um quarto de hora do fim, Ramos assinou um hat-trick histórico. Depois do apito final, com o apuramento para os quartos de final assegurado, o selecionador justificou-se.

“Houve uma conversa, mal seria se não tivesse acontecido. Só dou a equipa no estádio, sempre fiz assim na minha carreira, mas essa conversa tinha de acontecer, era da mais elementar justiça, por se tratar do capitão de equipa, por ser quem é em termos de projeção, alguém que já deu muito ao futebol português. Pelo que representa para a equipa eu tinha de ter essa conversa com ele. Não tive nenhuma conversa com o Ronaldo antes. A única que tive, a explicar as razões por que não iria jogar, foi no dia do jogo. Reuni com ele, tivemos uma conversa e disse-lhe que não contava com ele de início, mas contava com ele para o jogo, até por uma questão de estratégia. Como é óbvio, o Cristiano não ficou satisfeito. Sempre jogou a titular. Mas foi uma conversa perfeitamente normal, tranquila. Ele não aceitou a questão de forma simples, o que é normal”, explicou o treinador.

A novela Ronaldo tem mais um capítulo com duas versões: Federação nega que jogador tenha ameaçado sair da concentração

Na altura, chegou a surgir a ideia de que Cristiano Ronaldo tinha ficado tão desagradado com a opção de Fernando Santos que ponderou abandonar o Campeonato do Mundo — muito porque, numa situação semelhante à atual, não treinou com os suplentes no dia seguinte ao jogo e limitou-se a fazer trabalho de ginásio. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF), porém, apressou-se a desmentir a notícia. “Uma notícia divulgada esta quinta-feira dá conta que Cristiano Ronaldo ameaçou deixar a Seleção durante uma conversa com Fernando Santos, selecionador nacional. A FPF esclarece que em momento algum o capitão da Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo, ameaçou deixar a equipa nacional durante o estágio no Qatar. Cristiano Ronaldo constrói a cada dia um historial ímpar ao serviço da equipa nacional e do País que tem de ser respeitado e que atesta o inquestionável grau de compromisso com a Seleção”, podia ler-se na nota.

No jogo seguinte, contra Marrocos, a decisão manteve-se. Cristiano Ronaldo foi suplente, Gonçalo Ramos foi titular e o capitão da Seleção Nacional só foi lançado já na segunda parte, numa altura em que Portugal já perdia. A desvantagem nunca foi revertida e os marroquinos venceram mesmo, eliminando os portugueses e seguindo para as meias-finais. Ronaldo saiu do estádio em lágrimas, chorando compulsivamente sozinho e ao longo de todo o túnel de acesso aos balneários, no que parecia ser a mais do que certa despedida do Campeonato do Mundo. Quatro anos depois, contudo, ainda estaria no Mundial deste ano, nos EUA, México e Canadá.

“Não me arrependo. Acho que a equipa esteve muito bem no jogo contra a Suíça. O Cristiano é um jogador enorme, entrou quando achávamos que era preciso, e portanto não tenho arrependimentos”, disse Fernando Santos depois do jogo. Semanas depois, o selecionador nacional deixou a Seleção — alegadamente por escolha própria, segundo sempre disse Fernando Gomes — e foi substituído por Roberto Martínez. Um ano após a polémica no Qatar, Fernando Santos confessou que nunca tinha voltado a falar com Cristiano Ronaldo.

Titular para recordes, o caso da substituição e um regresso inesperado à zona mista: os sete capítulos da rutura ou viragem de Ronaldo

“Eu tinha uma relação fortíssima com o Cristiano. Pessoal. Para além da relação profissional. Conhecemo-nos no Sporting quando ele tinha 19 anos e essa relação foi reforçada a partir do momento em que nos encontrámos na Seleção. Sempre nos demos muito bem. A expressão é um bocadinho forte, mas, quase como pai e filho ou irmão mais novo e irmão mais velho. Eu já tive muitos casos desses e nunca tive problemas com ninguém. Acha que ao longo de 35 anos de carreira nunca houve jogadores que olharam e falaram para o lado? Sempre resolvi isto com os meus jogadores a conversar, como fiz com ele, como é natural. Agora, é verdade que no dia do jogo, de manhã, quando lhe fui explicar que ele não ia jogar e o porquê de não ir jogar, ele interpretou mal. Se eu percebo a reação dele? Percebo”, atirou, mostrando-se disponível para reatar a relação.

“Da minha parte a relação é a mesma e ele continua a ser como um filho ou um irmão mais novo para mim. No dia em que o telefone tocar ele sabe sempre que eu estou cá. Isso é garantido. Eu sei que isto magoa, sei que doeu muito. Mas a vida é assim. Eu já tive um caso, que não é bem igual, mas similar. Eu tinha uma relação muito boa com o Bruno Alves. Peguei nele no FC Porto, levei-o para a Grécia, foi um jogador que cresceu comigo e mantivemos uma relação fantástica. Há um momento em que na Seleção deixo de o convocar e o Bruno nas primeiras vezes quase nem me falou… Depois passou”, acrescentou.

2010, África do Sul. “Fale com o Carlos Queiroz”

12 anos antes do Qatar, 16 anos antes do que se passou nas últimas horas em Copenhaga, Cristiano Ronaldo protagonizou a que acabou por ser a sua primeira grande polémica na Seleção Nacional. E, tal como aconteceu com Fernando Santos, o outro personagem até era insuspeito: Carlos Queiroz, alguém que tinha sido decisivo na chegada e na adaptação do jogador no Manchester United, numa altura em que era adjunto de Alex Ferguson, funcionando quase como mentor tático e acabando por ter uma proximidade natural com o então adolescente.

Em 2010, porém, Cristiano Ronaldo já tinha deixado Old Trafford para se tornar um dos novos galácticos do Real Madrid. Na Seleção Nacional, contudo, as contas eram outras: o avançado passou quase dois anos sem marcar por Portugal em jogos oficiais, entre o Euro 2008 e o Mundial 2010, naquele que ainda é o maior período de seca desde que é internacional. A equipa de Carlos Queiroz precisou de ultrapassar a Bósnia do playoff de acesso ao Campeonato do Mundo e, na África do Sul, a pressão que surgia em cima do selecionador era gigantesca.

O que Queiroz disse a Ronaldo no Manchester United: “Nasceste para ser o melhor jogador do mundo”

Nada melhorou na fase de grupos. Portugal goleou a Coreia do Norte, mas empatou com o Brasil e a Costa do Marfim e a postura defensiva que Carlos Queiroz adotava não reunia grandes adeptos. Nos oitavos de final, contra uma Espanha que acabaria por ser campeã do mundo pela primeira vez, a Seleção caiu com um golo de David Villa e despediu-se do Campeonato do Mundo. Ronaldo tinha passado o jogo a gesticular para o banco de suplentes, visivelmente frustrado com o facto de a bola nem sequer lhe chegar, e atirou a bomba na zona de entrevistas rápidas: “Como é que explico a derrota? Fale com o Carlos Queiroz”.

Mais tarde, justificou-se através de um comunicado publicado no site da Gestifute. “Espero que não sejam criados fantasmas onde eles não existem. Sinto-me destroçado, completamente desolado, frustrado e com uma tristeza inimaginável. Sei que sou o capitão, sempre assumi, como assumirei as minhas responsabilidades, mas naquele momento não conseguiria dizer mais do que três ou quatro frases lúcidas. Não se encontrem fantasmas onde não existem ou casos que não são casos”, atirou, numa resposta direta a António Simões, então adjunto de Carlos Queiroz, que tinha dito que um capitão tem “responsabilidades acrescidas” e “tem de ser coerente com essa missão” quando presta declarações à comunicação social.

Já o próprio selecionador, apesar de ter tentado desdramatizar a situação, nunca escondeu o desconforto. “Enquanto estiver à frente da Seleção, se o tamanho da camisola for pequeno demais para algum corpo, então não precisam de estar aqui. Em jogos desta intensidade é compreensível que apareçam algumas frustrações. Nestes momentos, pode acontecer que as frustrações não estejam suficientemente educadas para serem bem contidas. Ninguém está acima da Seleção e nunca irá estar enquanto eu aqui estiver. Só está cá quem quer. O amor e a vida têm a parte íntegra, mas também podem redundar na pornografia. Temos de escolher em que lado estamos e que princípios defendemos”, alertou, acrescentando ainda que não precisava de fomentar “amizades fáceis” com Ronaldo, só precisava de “respeito”.

Em setembro, Carlos Queiroz foi dispensado do cargo de selecionador nacional e substituído por Paulo Bento — numa fase que cimentou claramente a liderança de Cristiano Ronaldo dentro da equipa, da FPF e aos olhos dos adeptos.

2016, França. Um microfone de 300 euros que acabou no fundo de um lago

Apesar de não ter tido a mesma dimensão dos outros dois casos, até por não ter sido um conflito direto com um selecionador nacional, Cristiano Ronaldo também protagonizou um momento caricato durante o Campeonato da Europa de 2016 — que, como se sabe, Portugal acabaria por conquistar.

Ronaldo atira microfone da CMTV para um lago

Ainda durante a fase de grupos, na manhã que antecedeu o jogo decisivo contra a Hungria onde ficaria decidido o apuramento para os oitavos de final ou a precoce eliminação, a comitiva da Seleção Nacional deu um passeio por Lyon. Enquanto era questionado por um jornalista da CMTV sobre se estava preparado para a responsabilidade da partida que começava daí a umas horas, Ronaldo tirou o microfone das mãos do repórter e atirou-o para o lago que ali estava mesmo ao lado.

Na altura, o Correio da Manhã condenou naturalmente o episódio, que ficou viral numa altura em que nem tudo ficava viral nas redes sociais, e sublinhou que o microfone custava perto de 300 euros. Uma década depois, ironicamente, Cristiano Ronaldo é um dos donos da atual Medialivre, a antiga Cofina, que detém o jornal Correio da Manhã, a CMTV, o jornal Record, o jornal Negócios e a revista Sábado.

2021, Sérvia. “Ser capitão da Seleção de Portugal é um dos maiores orgulhos e privilégios da minha vida”

Por fim, o caso da braçadeira. Em março de 2021, em Belgrado e num jogo contra a Sérvia a contar para a qualificação para o Mundial 2022, Portugal estava a vencer por dois golos de diferença, mas permitiu a recuperação dos sérvios na segunda parte e concedeu o empate. Já nos descontos, Cristiano Ronaldo marcou — Stefan Mitrović ainda desviou o lance com um carrinho, mas a bola ultrapassou claramente a linha de golo na totalidade.

Sem VAR e sem tecnologia da linha de golo, o árbitro Danny Makkelie e o respetivo árbitro assistente acabaram por considerar que a bola não ultrapassou a linha, não validando o golo limpo que daria a vitória a Portugal e acabando por sentenciar o empate. Cristiano Ronaldo, num episódio raramente visto, não conteve a frustração: correu em direção ao árbitro assistente, gesticulou de forma veemente, viu cartão amarelo e nem sequer esperou pelo apito final para sair pela linha de fundo já depois de tirar a braçadeira de capitão e atirá-la ao chão.

Ronaldo teve golo anulado nos descontos, saiu antes do apito final e atirou a braçadeira ao chão. Árbitro pediu desculpa a Fernando Santos

Na altura, o gesto de Cristiano Ronaldo foi muito criticado por várias vozes — particularmente Fernando Meira, antigo internacional português, que reconheceu que o gesto é “natural”, mas defendeu que “não é aceitável para um capitão”. Pouco depois do jogo, o avançado justificou-se. “Ser capitão da Seleção de Portugal é um dos maiores orgulhos e privilégios da minha vida. Há momentos difíceis de lidar, especialmente quando sentimos que está a ser prejudicada toda uma nação. Levantar a cabeça e enfrentar o próximo desafio agora!”, escreveu nas redes sociais.

Danny Makkelie revelou dias depois que foi ao balneário da Seleção Nacional para pedir desculpa a Fernando Santos e a toda a equipa pelo erro e o episódio acabou mesmo por ter um final feliz: a braçadeira que Cristiano Ronaldo atirou ao chão foi recolhida por Đorđe Vukićević, um bombeiro sérvio que estava de serviço no jogo e que, ao invés de a guardar, acabou por doá-la a uma instituição de solidariedade para ajudar a financiar o tratamento médico de um bebé sérvio de seis meses que sofria de atrofia muscular espinhal. A braçadeira foi leiloada por 64 mil euros.

Ronaldo atira microfone da CMTV para um lago

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]