No primeiro trimestre de 2015, a Rússia gastou em armamentos 9% do PIB. Nos últimos meses, vários cidadãos russos suicidam-se por não suportarem as dores provocadas pelo cancro e não receberem assistência médica adequada.

Na quarta-feira, a imprensa russa revelou que Alexei Kalaguin, 65, físico nuclear, enforcou-se na sua residência. Numa nota que escreveu antes de suicidar, justificou esse acto com “dores fortes”. A sua esposa explicou que o cientista se tratou no estrangeiro enquanto a família tinha dinheiro, mas, quando foi obrigado a recorrer à assistência médica russa, foi-lhe recusado apoio. Ela acusa os médicos de não terem receitado atempadamente os analgésicos necessários.

Veronica Skvortsova, ministra da Saúde da Rússia, mandou abrir um inquérito sobre o suicido do cientista, mas este caso está a ter forte repercussão na sociedade russa, pois está longe de ser o primeiro.

A última onda de suicídios entre doentes oncológicos começou em Fevereiro de 2014: Viatcheslav Alanassenko, contra-almirante na reserva, que deu um tiro na cabeça por não suportar as dores provocadas por um cancro. A decisão deveu-se ao facto de Alabassenko estar internado em casa e ter não possibilidade de receber atempadamente analgésicos. Segundo as leis russas, as receitas médicas para analgésicos têm uma validade de apenas cinco dias e os pacientes devem devolver as seringas e pensos utilizados na aplicação de injecções.

O contra-almirante não conseguiu acompanhar as exigências da burocracia russa [as receitas só podem ser assinadas pelo médico principal das clínicas públicas e, quando foi necessário assinar, ele estava ausente] e decidiu suicidar-se com a pistola que lhe foi oferecida “por bons serviços”. A notícia provocou um impacto tão forte que foi decidido alterar a citada lei: a validade das receitas passou a ser de 15 dias e os pacientes deixaram de estar obrigados a devolver seringas e pensos usados.

Porém, a lei só entrará em vigor a 1 de Julho de 2015, e, por isso, o cientista russo não foi o único a suicidar-se devido às fortes dores provocadas por dores oncológicas. Segundo a agência Interfax, entre 12 e 24 de Março, oito pessoas suicidaram-se por essa razão em Moscovo.

Os especialistas afirmam que os cidadãos russos não têm acesso aos medicamentos e tratamentos mais modernos de combate ao cancro. Segundo dados do Ministério da Saúde 2 milhões e 800 mil pessoas sofrem de cancro, sendo a mortalidade anual de cerca de 280 mil doentes.

Num país como a Rússia, esta situação só acontece por opção dos seus dirigentes políticos. O orçamento para a saúde do ano corrente é de cerca de 420 mil milhões de rublos (cerca de mil milhões de dólares americanos), enquanto que o orçamento militar, segundo as palavras do Presidente Putin, é de cerca de 50 mil milhões.

Ou seja, trata-se apenas de uma questão de prioridades: garantir assistência médica digna aos seus cidadãos reais ou preparar-se para uma guerra com inimigos potenciais.

P.S. A detenção de dirigentes da FIFA está a provocar uma forte onda de preocupação em Moscovo. Os “patriotas” afirmam que se trata de uma manobra dos americanos para roubarem o Campeonato do Mundo de 2018, como se o mundo desconhecesse o nível de corrupção na FIFA. O ministro do Desporto da Rússia afirmou que o processo não tem a ver com a realização do CM no seu país, mas no Qatar. Quem não deve, não teme…