Por todo o mundo ocidental, as Democracias vivem dias de incerteza. As razões  são várias, mas há um denominador comum: a mordaça ao diálogo sem  julgamento, a mordaça ao expressar de ideias/ opiniões (por mais bárbaras que  possam ser), a mordaça à liberdade de expressão.

A Era do politicamente correcto, do virtuosismo e da nova doutrina da moralidade  criaram as sementes do populismo, alimentado por uma comunicação social que  há muito abandonou a sua principal função: o 4º pilar da Democracia.

Há muito que jogamos este jogo que colocou (e coloca) cidadãos contra cidadãos,  porque todos querem validação, todos querem estar certos e porque existe uma  incapacidade gritante de dialogar.

O politicamente correcto matou a reflexão e o diálogo cooperante, e permitiu que, na ausência de discussão, se abrisse um novo período com contornos perigosos  que tendem a obrigar o Estado a uma maior fiscalização e a uma revindicação, cada vez maior, de controlo no mundo online.

O diálogo que obriga a reflexão, que obriga ao contraditório e que obriga a  equacionar a nossa posição, esse diálogo que tantas vezes criou o espaço seguro  e tolerante de debater ideias e visões, está em sério declínio. Assim como está em  declínio a humildade para abrirmos a possibilidade de estarmos errados.

A pandemia da Covid-19 que viu crescer a normalização do bullying virtuoso, da  censura do bem, do apontar do dedo a todos aqueles que se atreveram a questionar – negacionistas, fascistas, chalupas – e que se perpetuou quando  alguém ousou falar de imigração, corrupção, de liberdades individuais, vira-se  agora contra a mesma sociedade que os potenciou.

E o povo, esse fartou-se de ser ignorado. Fartou-se de ser insultado pelo  comentário político sem substância. Fartou-se de ficar para trás quando tudo lhes  é prometido.

Mas virtude não se impõe. E talvez por nunca termos feito uma reflexão séria sobre toda a destruição do tecido social democrático que a pandemia deixou, talvez por  isso, assistamos agora a uma nova onda de choque, protagonizada por aqueles  que – não defendendo os valores fundacionais da Democracia – romperam com o  politicamente correcto.

O erro foi deixar o populismo a falar sozinho sobre temas que (e embora  preocupassem genuinamente a população) passaram a ser tabu. Sim, porque  numa sociedade tão” evoluída” não se pode falar de certas coisas… Assim,  apenas os populistas foram (e continuam) a jogo. E isso sim, é erro crasso – o de  estender a passadeira vermelha a quem apenas tem algo simplista a dizer, sem contraditório, sem reflexão, porque temos demasiado medo do que nos possam  acusar.

E talvez por isso, o que nos falte mesmo é Coragem. Coragem para que não  gostem de nós. Coragem para que nos insultem. Coragem para defendermos os  nossos valores com convicção.

E talvez nos falte também Virtude, Sabedoria, para percebermos que cada  julgamento é, na realidade, uma confissão.