Charles de Gaulle terá dito um dia que “o Brasil não é um país sério”. Mas, se o maior país lusófono — e da América Latina — for uma anedota, só se ela for de humor negro.
Em 2018, 58 milhões de brasileiros elegeram Jair Bolsonaro Presidente da República, preferindo-o ao candidato da esquerda, Fernando Haddad – que aliás só concorreu porque o suserano vitalício do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da Silva, não pôde candidatar-se por um motivo de força maior: estava preso. Muitos dos eleitores de Bolsonaro simplesmente seguiram a dica do menos presciente filósofo político brasileiro, o palhaço Tiririca (o deputado mais votado em 2010, com 1,5 milhão de sufrágios): “Pior do que está, não fica”.
Afinal, Lula já tinha sido eleito para dois mandatos anteriores (2003-2006 e 2007-2010), e depois impingido duas vezes uma primeira marioneta, Dilma Roussef, presidente de 2011-2014 e de 2015-2016, quando sofreu um impeachment por batotas institucionais.
Portanto, em 2018 muitos brasileiros taparam o nariz, benzeram-se e escolheram Bolsonaro. Ficou pior, ou no mínimo igual, o que é abundantemente mau. E por isso em 2022 elegeram Lula pela terceira vez – e de novo comprovaram que a máxima de Tiririca era apenas uma palhaçada.
As eleições de 2026 alinham pela enésima vez Lula versus Bolsonaro (fils, o senador Flávio Bolsonaro, pois o pai, por aquele mesmíssimo motivo de força maior, não pode candidatar-se). Pelo princípio da alternância de Tiririca, talvez o candidato da direita seja o favorito, e os brasileiros verifiquem que, desgraçadamente, quem sai aos seus não degenera.
Já que vivemos numa época em que, como nos totalitarismos, tudo é política (do desporto às vacinas, da culinária à religião), duas das principais arenas para as eleições do dia 4 de outubro são a música e o cinema – ou pelo menos os que vão em cantigas e os fiteiros.
A esquerda tinha ficado danada por Bolsonaro usurpar a camisola amarela da seleção brasileira de futebol – um ícone nacional a partir daí profanado. Como este ano há Mundial (ainda por cima nos EUA, sob os sovacos obscurantistas de Trump), os progressistas estão a torcer em outros campos.
Um deles é a Sétima Arte: a produção brasuca “O Agente Secreto’” é candidata a três Oscars: melhor filme, melhor ator (Wagner Moura) e melhor filme internacional (curiosamente, o ‘melhor filme” não é considerado ‘o melhor filme internacional’ – como naquelas disputas de Miss Mundo e Miss Universo).
E zás: o filme de Kleber Mendonça assumiu para a esquerda o manto sagrado da “pátria de chuteiras” (como o escritor Nelson Rodrigues chamava a seleção nacional). Daí que as fileiras progressistas sentiram-se ultrajadas quando o cineasta espanhol Oliver Laxe mandou esta boca: “Há muitos brasileiros na Academia de Hollywood e gostamos deles, mas são ultranacionalistas. Acho que, se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votavam nele”. No dia seguinte, no Brasil, só não compararam Laxe a Leni Riefenstahl, a cineasta favorita de Hitler, porque preferiram compará-lo ao Führer propriamente dito.
O pano de fundo de “O Agente Secreto” é ditadura brasileira (1964-1985) – o que é um inexorável mais do mesmo, pois a arte do Brasil contemporâneo (cinema, literatura, teatro, etc.) praticamente não tem outro assunto (depois de quase 20 de governos esquerdistas), cultivando a opressão do regime militar como uma espécie de musa. Foi também o argumento do filme “Ainda Estou Aqui”, que no ano passado valeu o Globo de Ouro (e uma indicação ao Oscar) à atriz Fernanda Torres. Sim, 40 anos depois a ditadura ainda está aqui – um slogan como outro qualquer. Talvez monocórdico e bocejante, mas ao unir o útil ao agradável – o Bom e o Mau, o Bem e o Mal para sempre – dá um jeitão.
Em 2019, o próprio Wagner Moura realizou o filme “Marighella”, um biopic sobre Carlos Marighella, militante estalinista que durante a ditadura comandou assaltos a bancos, sabotagens, sequestros e atentados que causaram a morte de militares e civis. Escreveu o “Manual da Guerrilha”, a cartilha João de Deus de Angela Davis e os Panteras Negras norte-americanos. Basicamente, o sonho de consumo dele era que hoje o Brasil fosse um Cubão, ou uma Venezuelona. Marighella foi morto pela polícia em São Paulo, em 1969, o que o candidata a mártir apostólico na escala Gandhi. Filho de um italiano e de uma negra brasileira, era um mestiço de pele bastante clara, e passava por branco. Moura escolheu para interpretar o papel o cantor Seu Jorge, negro como um zulu. Se podemos ser interseccionais, por que desperdiçar munição?
Por falar em banca (e já Bertold Brecht rugiu: “O que é o assalto a um banco, comparado com a fundação de um banco?”), este mês a TV brasileira começou a emitir o anúncio do cartão de crédito de um dos maiores bancos privados nacionais (o Bradesco). Protagonizado por quem? Wagner Moura, em carne e osso. Há uns anos, Millôr Fernandes disse sobre Chico Buarque: “Desconfio de pessoas que lucram com os seus ideais”. Bem, suponho que seja um trabalho duro, mas alguém tem de o fazer.
Entretanto, no Rio de Janeiro e pela primeira vez nos anais da República, um presidente vivo e em exercício será o tema do samba-enredo de uma escola de samba no desfile de carnaval deste ano. A escola é a Acadêmicos de Niterói, e o reverenciado é Lula. Perto da letra da canção, até uma hagiografia soava como um libelo. Pelo que percebi, o estadista brasileiro é uma mistura de Churchill com São Pedro: “Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical / À liderança mundial” . Traduzo: liderança mundial neste caso significa vassalagem aos ditadores Nicolás Maduro e Daniel Ortega e a avatares de Fidel Castro, a Putin e Xi-Jinping, aos teocratas liberticidas do Irão e aos terroristas antissemitas do Hamas.
Como é carnaval, ninguém levará a mal, nem mesmo o fato de a primeira-dama Rosângela Lula da Silva ter sambado freneticamente nos ensaios da Escola que homenageará o próprio marido. Certo, é um mundo pequeno, e já não se fazem mais Penélopes como antigamente. Por sorte, a letra do samba não menciona nem o Mensalão nem o Petrolão. Nem que o antigo presidente do Peru, Alan Garcia, corrompido por uma das empresas do Petrolão, a Odebrecht, deu um tiro nos miolos para não ser preso. Lula, condenado a 12 anos de prisão, cumpriu um ano, sete meses e um dia. E saiu da cadeia (tendo democraticamente aquecido a cela para a sua nêmesis Bolsonaro) para ser reeleito uma terceira vez Presidente da República. E quem sabe, se desta vez o axioma Tiririca falhar como é costume, uma quarta. Lula e Bolsonaro são os dois lados da mesma moeda populista, que cai incessantemente em qualquer lado, menos nos bolsos dos brasileiros.
O Brasil pode até ser um país sério, mas disfarça muito bem. Talvez mereçamos mesmo um Oscar.