Há 22 anos, Timor-Leste alcançava a independência, tornando-se o mais jovem Estado soberano da Ásia. Desde então, a União Europeia e Portugal têm sido parceiros centrais no seu percurso democrático, económico e social. Hoje, perante um mundo em transformação rápida, é tempo de reforçarmos — e não apenas mantermos — a parceria UE-Timor-Leste, transformando-a num verdadeiro pilar da presença europeia no Indo-Pacífico.
Timor-Leste não é apenas um país distante no mapa. É um Estado lusófono, membro da CPLP e candidato à ASEAN, com uma população jovem (cerca de 1,3 milhões de habitantes) e uma localização geoestratégica entre o Sudeste Asiático e o Pacífico. Para a União Europeia, que em 2021 lançou a estratégia do Indo-Pacífico, Timor-Leste é uma porta de entrada num espaço onde passam algumas das rotas marítimas mais importantes do mundo. É também um país que procura diversificar a sua economia e consolidar instituições democráticas — um terreno fértil para a nossa política externa, desenvolvimento sustentável e diplomacia económica.
Desde 2000, a União Europeia investiu mais de 900 milhões de euros em apoio ao desenvolvimento de Timor-Leste, tornando-se um dos maiores parceiros do país. Foram alocados fundos para governação, desenvolvimento humano, agricultura e infra-estruturas básicas. Estes fundos traduzem-se em projectos visíveis: melhoria de estradas e abastecimento de água; formação profissional para jovens e mulheres; apoio à agricultura sustentável, incluindo café, um dos produtos emblemáticos do país. Portugal, por seu lado, mantém uma cooperação bilateral intensa, desde a educação (professores e língua portuguesa) à justiça e segurança interna. Esta triangulação UE-Portugal-Timor-Leste multiplica impacto e credibilidade.
Num contexto global onde as grandes potências disputam influência na região, a União Europeia tem a vantagem de ser um parceiro fiável, orientado por princípios democráticos e pelo desenvolvimento sustentável. Timor-Leste prepara a sua adesão à ASEAN e tem estado em conversações para ingressar na OMC. É crucial que a UE acompanhe estes processos, oferecendo assistência técnica e apoio político. Do ponto de vista da segurança marítima, Timor-Leste é um elo importante para garantir rotas seguras e combater crimes transnacionais, como o tráfico ilegal ou a pesca não sustentável, contribuindo para a estabilidade regional.
Timor-Leste fez progressos notáveis em educação e saúde desde 2002, mas ainda enfrenta desafios significativos. A taxa de alfabetização de adultos é de cerca de 68 %, subindo para 84 % entre jovens de 15-24 anos, e apenas 56 % da população tem acesso a saneamento básico. Estes números mostram um caminho já percorrido e outro por percorrer. A UE pode — e deve — apoiar com programas de educação técnica, ensino superior, capacitação digital e políticas de saúde pública, áreas em que a experiência europeia é altamente valorizada.
Enquanto eurodeputado, defendo que esta parceria não deve ser vista como um gesto de caridade. Aliás, cabe recordar que Timor-Leste ofereceu ajuda de 2,2 milhões de euros à Madeira após os incêndios de Agosto de 2024, para apoiar a recuperação das áreas afectadas, o que reflecte o espírito de solidariedade e cooperação entre Portugal e Timor. Portanto, trata-se sim como um investimento estratégico na estabilidade do Indo-Pacífico e na projecção de valores europeus. Em vez de retracção orçamental, precisamos de reforçar os recursos do Global Gateway para Timor-Leste, de modo a evitar que outros actores, menos comprometidos com os direitos humanos e a sustentabilidade, ocupem o espaço deixado vago pela Europa.
Para Portugal, Timor-Leste representa também uma dimensão da sua política lusófona. Podemos e devemos liderar no Parlamento Europeu a construção de políticas mais consistentes para a nossa vizinhança alargada — seja África, América Latina ou Sudeste Asiático lusófono. O PPE tem sido um defensor de uma política externa europeia assente em valores e interesses equilibrados. O PSD, nesse contexto, é a voz portuguesa dentro desse esforço, defendendo não apenas o flanco leste da NATO mas também o flanco sul e a projecção atlântica e indo-pacífica da Europa.
A União Europeia e Timor-Leste partilham uma história de solidariedade e construção conjunta. O momento é agora para transformar esta relação em algo mais: um modelo de cooperação moderna, que combine investimento sustentável, respeito pelos direitos humanos, desenvolvimento económico e segurança marítima. É assim que se constrói a influência europeia no mundo — não pelo peso militar, mas pelo peso de uma parceria baseada em confiança, resultados concretos e visão de longo prazo.