Quem não fez já a analogia entre o surto de ébola e a peste negra que, sobretudo no século 14, assolou o continente europeu? À medida que mais casos surgem na Europa e nos Estados Unidos – com as primeiras situações de contágio ocorridas localmente -, e sem que haja para já qualquer caso em solo lusitano, sobem os níveis de alerta e vão ocorrendo, pontual e localizadamente, situações de pânico e incompreensão.
Quando os surtos ocorriam em países recônditos de África (se é que há países recônditos hoje em dia), a doença não nos afectava para lá do habitual incómodo humanitário (“coitadinhos”). Mas tudo mudou quando a globalização trouxe o vírus da família filoviridae para o nosso seio: causador de febres hemorrágicas, o ébola, do nome do rio do norte do Congo perto de onde, em 1976, se registou o primeiro caso, tem períodos de incubação que variam entre 2 e 21 dias e taxas de mortalidade elevadíssimas (entre 50 e 90% nos casos conhecidos, quase todos em África). O seu potencial de disseminação e contaminação é muito alto.
Estaremos perante uma nova peste negra, como ficou conhecida a peste bubónica? Responsável pela morte de um terço da população europeia no século 14, a pandemia foi causada por milhares de ratos contaminados com a bactéria yersinia pestis, chegados ao Mediterrâneo em navios provenientes do Oriente. As pulgas dos ratos, com a bactéria alojada na saliva, passavam para os humanos em busca de sangue após a morte do hospedeiro roedor. Numa Europa com esgotos ao ar livre, sem hábitos de higiene, a doença transformou-se em pandemia, infectando indiscriminadamente povo, nobreza e clero e causando um dos maiores retrocessos demográficos da história europeia.
A peste negra desencadeou a habitual desumanidade: abandonavam-se os doentes à sorte, a Igreja condenava quem investigasse a doença (a peste era um teste divino), enterravam-se os mortos em valas comuns, a simples suspeição de contaminação – antes das manchas negras ou bubões – levava à expulsão e ao ostracismo. Mais mortos, feridos e sofrimento foram causados pela estupidez e a insanidade do pânico egoísta do que pela bactéria em si mesma.
Será o ébola a nova peste? Há já sinais de desvario: num voo de Filadélfia para Punta Cana um homem gritou que tinha ébola e pôs os passageiros em polvorosa; era “uma piada”. Em França, um prédio em Cergy-Pointose foi isolado durante quase 2 horas devido a rumores sobre um caso suspeito e algo parecido aconteceu numa escola da região parisiense. No passado dia 8, no pronto-socorro Quietude, litoral de São Paulo, doentes e profissionais de saúde revoltaram-se com a chegada de um paciente cabo-verdiano suspeito de ébola, o que acabou por não se confirmar.
Já em Agosto, há mais de 2 meses, Ban-Ki-Moon, secretário-geral da ONU, pedira para que se evitasse o pânico. Tem razão. Nada é pior do que o pânico generalizado, nem sequer o vírus. Desde logo, porque o ébola está longe de ser uma pandemia devastadora: depois de surgir, em 1976, houve em África 25 surtos; nos anteriores, dum total de 2.387 casos resultaram 1.590 mortos; no actual, desde o início do ano registaram-se 8.033 casos (prováveis e confirmados) com 3.865 mortes (números da OMS, relatório de situação de 8 de Outubro). A taxa de mortalidade de 67% dos anteriores surtos caiu para menos de 50%, uma percentagem ainda assim muito elevada; mas o primeiro surto registado teve uma mortalidade de quase 90%.
Mesmo em África, com más condições sanitárias, difícil acesso às áreas afectadas, falta de recursos, etc., o ser humano aprende, adapta-se e resiste. E se a natureza da doença assusta, o número de mortos não indicia uma pandemia avassaladora: pior é morrerem 18 mil crianças por dia de fome no planeta – por dia; perdoem-me a dose de demagogia, mas é verdade.
Há decerto um argumento importante a ter em conta: agora que saiu de África e quando pela primeira vez corremos o risco de ver entrar pela porta o que até hoje só nos chegou pela televisão, o vírus passeia-se num ambiente propício a uma rápida disseminação, ao invés do que sucedia nas remotas povoações africanas. Não poderá por isso crescer exponencialmente em números de casos e mortos, como aliás os números parecem indiciar? E provocar a reacção desproporcionada dos exaltados do costume? Num filme de 1995, “Outbreak”, com Dustin Hoffman e Morgan Freeman, uma epidemia causada por um vírus hemorrágico e transportado pelo ar, levou a um plano militar de aniquilação total dos habitantes de uma povoação norte-americana, para erradicar o mal pela raiz. Parece ficção? Todd Kincannon, um responsável republicano da Carolina do Sul, tweetou a 4 de Outubro: “o protocolo para um teste positivo de ébola deve ser a execução imediata do paciente e a instalação de um cordão sanitário em toda a área. Isso salvará vidas”. O tweet causou sensação e uma discussão séria nos EUA.
É a sério? É a sério, mas não é sério. Vamos ser sérios? A chegada do vírus ao Ocidente não representa necessariamente uma condenação ao holocausto: primeiro, porque o tratamento apropriado diminui drasticamente a taxa de mortalidade, como revela a sua evolução. Muitos profissionais de saúde confirmam que uma boa hidratação, o tratamento adequado das complicações secundárias, higiene, nutrição correcta e vitaminas D e C em doses elevadas contribuem para reduzir substancial a mortalidade. Além disso, desde que se tornou claro que a doença sairia de África, vários tratamentos experimentais foram testados e até aplicados em doentes (com graus diversos de sucesso), sendo previsível num prazo mais ou menos curto o desenvolvimento de vacinas ou medicamentos eficazes. Finalmente, os países agora envolvidos têm maior capacidade para criar condições de prevenção eficazes, identificar casos suspeitos, isolar os confirmados, usar protocolos de protecção dos profissionais adequados (o que nem sempre aconteceu nas fases iniciais de propagação da doença) e controlar os circuitos de disseminação do vírus.
O ébola é uma doença terrível. Antes de abrandar, de ser dominado, assistiremos decerto ao aumento do número de casos na Europa, nos Estados Unidos, em Portugal e noutros países até agora imunes. Mas o maior risco é deixarmo-nos dominar pelo pânico, passando a ver nos doentes ameaças (a “executar, por razões sanitárias”), perdendo a racionalidade e fazendo do mal exterior uma ameaça à nossa humanidade. Foi sempre face ao perigo extremo que o ser humano mostrou a sua pior face, mas foi também então que o altruísmo, a decência e a solidariedade alastraram, confirmando a natureza paradoxal e contudo magnífica da nossa espécie. Porque as vítimas de hoje podem ser os nossos salvadores amanhã.
Com bom senso, prevenção, higiene e ciência, o vírus será vencido. E os seres humanos voltarão um dia a banhar-se sem receios no rio ébola.
Professor da Universidade Católica — Instituto de Estudos Políticos