As disputas eleitorais internas dos partidos políticos originam sempre momentos tristes, para mais tarde não recordar. O Partido Socialista não foge a essa regra e as eleições primárias em curso, antecedidas em poucas semanas de eleições para as Federações, têm sido reveladoras de trocas de galhardetes entre adeptos das candidaturas dos “Antónios”.

Uma delas – que muito me diverte, confesso! – tem a ver com a “tralha”, essa Instituição que corre pela boca dos socialistas nos últimos tempos. “Vem aí a tralha socrática!”, dizem uns. “Cuidado, ele vai ressuscitar a tralha guterrista!”, gritam os outros. “Cuidado, vem aí de novo a tralha soarista”, vêm retorquir os primeiros. E não ficam sem resposta, ouvindo na volta do jornal: “Estejam alerta, que a tralha sampaísta está de novo a dar sinais de vida!”

Eu, socialista com quase 20 anos de militância olho para tudo isto com alguma diversão: é bastante difícil definir a tralha como “soarista”, “sampaísta”, “guterrista” e “socrática”, ou se quiserem “segurista” ou “costista”. É que basta ter um pouco de memória para recordar que os que hoje estão com este, no passado estiveram com o outro e no futuro irão ainda garantidamente estar ainda com outro candidato qualquer… É o cheiro a poder, dizem as pessoas, e com alguma razão.

Mais importante do que discutir se a minha tralha é melhor do que a tua, uma reflexão gostaria de partilhar com os leitores. Um dos motivos que levam as pessoas a estar fartas e descrentes da política, Partido Socialista incluído, é a pouca renovação dos atores políticos. Tudo estaria bem se este fenómeno não originasse dois grandes problemas.

O primeiro é que eternizando-se no palco político/mediático, os políticos defendem hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, normalmente com o mesmo afã. Isto em função do seu Partido estar no governo ou na oposição, fazendo com que os cidadãos fiquem com a justa impressão de que em política a palavra e a opinião dita ontem valem de muito pouco.

O segundo problema é que vivendo na redoma dos cargos políticos perde-se naturalmente contato com a realidade, com as questões que verdadeiramente preocupam as pessoas no seu dia-a-dia. Tornam-se assim em profissionais da política, mas no mau sentido, ou seja, no dia em que deixarem a política pouco ou nada saberão fazer, dificilmente terão uma profissão ou meio de subsistência.

Uma das soluções para que os “Antónios” consigam alterar este descrédito popular é promover uma profunda renovação de protagonistas para o próximo ciclo político, seja nas listas de deputados à Assembleia da República, seja na composição do futuro Governo socialista. Com gente com mais mundo para lá da política, com forte peso da geração pós-25 de Abril, que que se encontra numa fase da vida especialmente ativa, com toda uma vivência, valores e ideais forjados em plena democracia.

A política e os Partidos precisam dessa lufada de ar fresco, pois poucos são os que se aperceberam que o regime democrático, tal como o conhecemos hoje, dá sinais de erosão alarmantes. O Partido Socialista terá, da próxima vez que for chamado a ter responsabilidades governativas, a última oportunidade de mostrar aos cidadãos que pode governar de forma verdadeiramente diferente.

Para que isso aconteça, precisa apenas de se renovar profundamente. Ou o consegue e terá anos de sucesso eleitoral pela frente, ou fracassa nesse desígnio e pode esperá-lo uma autêntica pulverização eleitoral.

Pessoalmente, muito gostaria que essa renovação fosse acarinhada pelos “Antónios”. Mas tenho verdadeiras dúvidas de que isso aconteça: para ganharem a eleição de dia 28 de Setembro tiveram efetivamente de fazer compromissos eleitorais com os mesmos de sempre – sejam eles de que tralha forem – tornando-se assim reféns dos interesses do costume.

Militante do Partido Socialista, presidente da Concelhia de Sobral de Monte Agraço